FABIO MOTTA|ESTADÃO
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Músicas inéditas de Gonzaguinha podem virar CD póstumo

Filhos têm áudios e letras que o compositor deixou e farão tributo ao pai durante premiação

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2016 | 04h00

RIO - A morte precoce de Gonzaguinha fez 25 anos em abril, e seus quatro filhos trabalham para que a obra, que segue pertinente tanto em sua potência política quanto na poética das canções de amor rasgado, toque novos públicos e siga emocionando os velhos seguidores.

Três deles são artistas: Daniel Gonzaga e Fernanda Gonzaga são filhos do primeiro casamento, com Ângela Porto Carreiro, e Amora Pêra, da Frenética Sandra Pêra, e incluem Gonzaguinha em seu repertório. O trio já se apresentou algumas vezes junto e estará no palco do Teatro Municipal do Rio no dia 22 para a homenagem ao pai organizada pelo Prêmio da Música Brasileira, de José Maurício Machline – o produtor promete a noite mais comovente em 27 edições da premiação (haverá transmissão do Canal Brasil).

Fernanda está lançando o CD Toda Pessoa Pode Ser Invenção  - financiado coletivamente. São 12 composições do pai, alguns sucessos (Caminhos do Coração, Um Homem Também Chora), faixas pouco regravadas (Plano de Voo, Belo Balão) e duas inéditas, a existencialista Relativo e a esperançosa Aprender a Sorrir, tiradas de um baú com cerca de “15 ou 20” músicas nunca divulgadas, que podem, futuramente, virar um disco póstumo de Gonzaguinha.

“Ele era uma pessoa que falava coisas que não se falavam, que não se falam até hoje. Se estivesse vivo, não imagino que teria mudado na essência. É uma ironia a gente estar de novo lutando pela democracia”, imagina Fernanda Gonzaga.

Daniel, o primogênito, é compositor e o que mais se parece com o pai, na voz e nos traços. É quem toca a produtora e editora Moleque, empresa que administra a obra de Gonzaguinha, que tem cerca de 400 músicas catalogadas, e, mais recentemente, de Luiz Gonzaga (1912-1989), com cerca de 900 edições (e muitos parceiros). Ele recebe constantes pedidos de autorização para regravações, inclusão de músicas em filmes, montagens de peças de teatro.

“A gente não libera para propaganda de cigarro, bebida e para políticos. Mas não queremos prendê-lo numa redoma. Às vezes, o artista vai morrendo por excesso de zelo dos herdeiros”, disse Daniel, que vai concorrer no carnaval com um samba sobre o pai na escola de samba Estácio de Sá, do Morro de São Carlos, no centro do Rio, onde Gonzaguinha foi criado. O enredo se chama É! O moleque desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu com a Estácio.

A família – os filhos e Louise Margarete Martins, a Lelete, mãe de Mariana, a irmã caçula de Daniel, Fernanda e Amora – mantém guardados preciosos de Gonzaguinha, como fotografias e cadernos com composições manuscritas. As inéditas foram escritas entre 1988 e pouco antes de sua morte, em 1991, estima Daniel, uma fase em que Gonzaguinha estava retomando a rotina de viagens pelo País para fazer shows. Ele foi vítima de um acidente de carro no Paraná, que ocorreu entre uma apresentação e outra.

Do baú constam letras e áudios, que ele registrou num gravador de quatro canais em sua última residência, em Belo Horizonte. “Tem material para mais uns 20 anos, muita coisa a ser descoberta. Pode-se lançar um livro com CD encartado, ou um CD de inéditas com a voz dele, ou com artistas convidados cantando... A gente tem muitas vontades”, conta também Daniel.

O caráter “profético” das composições de crítica social, como É e Comportamento Geral dará o tom do Prêmio da Música, diz Machline: “Ele fez músicas para o Brasil atual; o Brasil não mudou. Quis mostrar o Gonzaguinha profeta. Ele é absolutamente atemporal”.

Os três filhos nunca interpretaram juntos Redescobrir, a canção consagrada por Elis Regina em 1980. Eles vão interagir com o ator Julio Andrade, que interpretou Gonzaguinha no cinema e vai repetir o papel na premiação, na qual cantará Um Homem Também Chora.

“Será um encontro musical que nunca ocorreu, mas sem ser piegas”, garante Machline, que foi o criador do prêmio, o mais abrangente e longevo do País. Gilberto Gil, João Bosco, Lenine, Alcione, Ney Matogrosso e Criolo vão dar suas versões para clássicos como O Que É, o Que É?, Sangrando, Grito de Alerta e Explode Coração.

“A obra dele é muito atenta a tudo, ecoa o Brasil. As canções sociais me tocam muito, mas quando ele chega à emoção do feminino é muito emocionante para mim, sendo mulher”, opina ainda Amora, que integra o grupo Chicas (do qual Fernanda já fez parte também) e tem em seu repertório Geraldinos e Arquibaldos e Eu Apenas Queria Que Você Soubesse.

TRECHO:

Relativo (CANÇÃO DE LUIZ GONZAGA JR)

"Toda pessoa

pode ser

Isso e aquilo

pode ser

Quem diz que

sabe, sabe lá

Pensa e acha e pode ser

Pessoa é o que ela é

Só ela vê o que ela vê

Só ela faz o que ela faz

Só ela sabe o que viveu

Só ela sabe no seu eu

Ela razão e emoção

Ela própria solidão

Talvez nem saiba do seu eu

Talvez só saiba parte só

Toda pessoa é parte só

Ponto de vista é parte só

Toda pessoa é um nó

Muitas pessoas nesse nó

Muitas histórias numa só

Muitas pessoas e ela só

Toda pessoa pode ser invenção

Invenção

 

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