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Músicas e causos do Mestre Galo Preto

Às vésperas de completar 80 anos, cantor pernambucano faz show em São Paulo

Paula Carvalho, O Estado de S. Paulo

09 Janeiro 2014 | 21h16

Tomás de Aquino Leão Cavalcanti, conhecido desde pequeno como Galo Preto, comemora em 2014 setenta anos fazendo improvisações (conhecidas no Nordeste como emboladas) sem nunca ter registrado em disco suas músicas. O cantor de coco nascido em um quilombo de Bom Conselho, interior de Pernambuco, tem algumas canções guardadas na memória - as outras, inventa na hora.

Inspirado pelas histórias que ouvia pequeno e pelo que viveu, Galo Preto tem na manga muitos causos, que devem conduzir o show que faz sábado no Sesc Belenzinho. Do dia em que nasceu, conta: "Minha mãe estava no ‘sono do parto’, e eu fiquei num quarto com ela. Quando a parteira veio me procurar, eu tinha sumido. Pensaram que algum bicho tinha me comido, ficaram doidos. Foram meus irmãos que saíram comigo recém-nascido e me levaram pro gramado do lado de fora de casa, onde tinha uma cabra. Eles me deram de mamar pela primeira vez numa cabra!", conta, rindo.

Há também episódios tristes. O pior deles foi quando sofreu "uma rasteira" e passou mais de dois anos preso sob acusação de chefiar um grupo de matadores, sem que houvesse provas contra ele. "Eu não entendo nada de justiça. Quando procurei o juiz, ele já tinha dado a sentença. Tive que aguardar júri, mas não havia nenhuma prova, nenhuma testemunha contra mim. Tanto que logo depois da primeira sessão, já fui liberado", diz. A prisão ocorreu, segundo ele, por conta de disputas políticas.

No período, compôs um samba para a sua primeira mulher, que o visitou todos os domingos no quartel em que foi preso, por ser reformado no exército: "Dia de visita, quando dá duas horas / Ela está no portão / Quando o sargento abre a cela eu vejo ela entrar de sacola na mão / Me alegra e me anima / Sua presença é tudo para mim / E agora eu pergunto a Deus desses sofrimentos meus / Quando vai chegar ao fim".

Desde os nove anos, Galo Preto se apresentava em programas de rádio e em bailes. Tinha como gênero principal o coco de embolada - isto é, a dança popular nordestina, geralmente cantada em roda e acompanhada de ganzá, pandeiro e alfaia, mas já com um veio repentista, de criar versos complicados e desembaraçá-los no improviso.

Logo foi descoberto por candidatos a prefeito e a governador da região, e fez campanhas para Ney Maranhão, Paulo Guerra e Miguel Arraes, entre outros. Foi escolhido para representar Pernambuco em apresentações oficiais em Brasília, e, junto a Arlindo dos Oito Baixos, Novinho da Paraíba e Arlindo Moita, conquistou a classe política nordestina, não importava de que partido.

Nos anos 1970, esteve na televisão em programas com Dercy Gonçalves, Flávio Cavalcanti e na Discoteca do Chacrinha, período que considera das "vacas gordas". "Eu nunca tive empresário, produtor, nem naquela época. Aparecer na TV me dava uma boa visibilidade, comecei a fazer shows no Rio de Janeiro", comenta.

Em 1992, veio a vergonha. "Fiquei preso dois anos, dois meses e seis dias. Depois disso passei muito tempo encabulado, me escondi. Só em 2007 começaram a aparecer trabalhos", conta. Nesse ano ele participou, junto a outros coquistas, de uma campanha para a Secretaria da Saúde e voltou a fazer shows com o apoio de Roger deRenór, um dos maiores incentivadores locais do manguebeat. A partir daí, ganhou fama de mestre do coco e foi eleito Patrimônio Vivo de Pernambuco em 2011, título também concedido pelo governo do Estado à cirandeira Lia de Itamaracá e a Selma do Coco. No ano passado, veio a São Paulo participar de um show de Otto em setembro, e fez pequenas apresentações na cidade.

Até agora, o único registro da carreira de Mestre Galo Preto é o filme Galo Preto, um Menestrel do Coco, dirigido por Wilson Freire. Mas ele não está satisfeito. Depois do carnaval, quando completa 80 anos (dia 12 de março), deve entrar em estúdio com o apoio de amigos e familiares para gravar o primeiro disco.

Serviço:

Mestre Galo Preto

Sesc Belenzinho

Rua Padre Adelino, 1.000, tel. 2076-9700

Sáb., 21h30. R$ 5/ R$ 25

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