Música instrumental conquista pouco a pouco seu espaço

Com o esforço de músicos e novos bares e festivais, gênero conquista maior admiração do público

Roger Marzochi, da Agência Estado,

14 de novembro de 2009 | 14h35

Orlando Cirullo, que mantém seu trompete no banco do passageiro para enfrentar os congestionamentos. Foto: Keiny Andrade/AE

 

SÃO PAULO  - Entre os motoristas que enfrentam os mais de cem quilômetros de congestionamentos na cidade de São Paulo, há um professor de física que prefere fazer música à ouvi-la no rádio. Enquanto os mais estressados tocam sua revolta numa nota só da buzina, Orlando Cirullo pega o seu trompete no banco do passageiro e, geralmente, acompanhado de um play back, deixa com que a imobilidade do trânsito o leve à frenética cadência de notas. "Tem gente que estranha, faz graça. Mas é a forma que tenho para estudar", diz ele que já deu aulas de gaita na década de 80, estudou sax e, agora, trompete. Mas ele não é músico profissional, e acabou se dedicando à física e à mecatrônica.

 

Apesar de não ser nada recomendado pelas leis de trânsito estudar música e dirigir, nem deve estar no cálculo do seguro do seu veículo, o professor é um exemplo extremo de fã da música instrumental, do jazz ao samba, que vem conquistando lentamente mais público. Talvez menos que o necessário para tornar a profissão rentável, mas que a revigora e a faz sobreviver às modas da indústria fonográfica.

 

A retomada dessa admiração vem do esforço de músicos que buscam manter vivo esse diálogo entre os instrumentos e de casas de shows, bares e festivais espalhados pelo Brasil que permitem ao público desenvolver uma percepção estética da música baseada na improvisação. Em São Paulo, parte da retomada também contou com um reforço. Entre o ano passado e o início de 2009, bandas que lutavam sozinhas por espaço e, também, público, resolveram se unir para levar sua música para mais casas de show.

 

Assim nasceram o SP Vanguarda Instrumental (www.myspace.com/spvanguarda), com oito bandas; e o Movimento Elefantes (www.movimentoelefantes.com), que agrupa nove formações. Todos apostando em ser possível criar admiradores da música num nível próximo ao do professor Cirullo. "Nossa intenção, além de reunir público, é também atrair a atenção de produtores e de casas de música em geral, para conquistar novas oportunidades", conta o baterista e compositor Carlos Ezequiel, porta-voz do SP Vanguarda, que nesta semana conseguiu espaço em mais uma casa dedicada ao jazz em São Paulo. "O fato é que, reunidos em um coletivo, temos mais força para negociar shows. Com o SP Vanguarda, estamos agendando shows, por exemplo, para Campinas até o fim do ano e há possibilidade de irmos para Belo Horizonte e Porto Alegre."

 

Ele também é integrante de três bandas que fazem parte do "coletivo": Sinequanon, MC4+ e SVCD. Os dois primeiros, calcados no jazz; o último, no samba-jazz. O alagoano Ezequiel é também professor no Conservatório Souza Lima, estudou cinco anos na Berklee College of Music (Boston-EUA) e tocou em festivais como o Montreux Jazz Festival, na Suíça. Chegou a tocar como sideman - músico contratado - de David Liebman (saxofone), Kurt Rosenwinkel (guitarra) e Howard Levy (gaita e piano) e diz que manter um público para esse tipo de música é também um trabalho árduo até no berço do jazz. "Desde 2000 prá cá, que o público da música instrumental no Brasil tem crescido. Prova disso, é o número de festivais pelo interior de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Amazonas."

 

O mesmo afirma Vinícius Pereira, contrabaixista do Projeto Coisa Fina, uma das nove big bands que integra o Movimento Elefantes, criado em fevereiro deste ano. "Depois de criado o Movimento, passamos de um show por mês para quatro. Mas ainda ganhamos mal, mas mesmo assim temos que recusar shows agora, porque tenho que manter a banda sorrindo", diz o músico, de 29 anos. O grupo, criado em 2005, é uma big band com 13 músicos, que buscam difundir as raízes da música brasileira, fixadas por nomes como o do maestro Moacir Santos, reverenciado por Vinícius de Moraes em seu "Samba da Benção".

 

As apresentações do Elefantes começaram no Teatro da Vila, na Vila Madalena, com shows todas as segundas-feiras à noite. Segundo Pereira, o público crescia à medida que o trabalho era divulgado e, em certo momento, resolveram literalmente passar o chapéu ao fim de cada show. "Tem sido uma surpresa positiva. A pessoa se expressa no final com o dinheiro que tira do bolso quando termina o show. E nossas apresentações têm nos aberto outras portas, como eventos para empresas e novos espaços para tocar o nosso repertório, o que faz sentido prá gente."

 

E a iniciativa tem compensado também os bares que decidiram dar espaço à música instrumental. O baixista e compositor Serginho Carvalho, que toca com o Djavan e já trabalhou com Leo Gandelman, Rita Lee, Arthur Maia, Simoninha, Zélia Duncan, entre outros, convenceu o dono de um bar na Vila Madalena a dar espaço à sua banda às segundas-feiras. "O resultado tem sido muito bom, para a música e para o bar", conta o músico, que iniciou o "Projeto Instrumental" em março, com arranjos e composições próprias. O trombonista Bocato também faz um périplo pelos bares de São Paulo. Após tocar com Elis Regina, Ney Matogrosso, Itamar Assumpção, de ter criado a "Banda Metalurgia" nos anos 80, de ter tocado no Festival de Montreaux, agradece por cada espaço aberto para sua música. Em show realizado no mês passado, na Pompéia, em São Paulo, ele desabafou sobre a dificuldade em ser músico no País. Mas, do palco, antes de a banda atacar, afirmou: "ninguém pode segurar um som." E que esse som seja sempre superior ao das buzinas dos veículos no engarrafamento.

 

Da tônica da TI à dominante em Bb

 

Entre as notas musicais, existem aquelas chamadas de "tônicas" que, quando executadas, dão a base do acorde. E, outras, batizadas de "dominantes", que passam a sensação de tensão, emoção. A tônica de Leandro Martins Jr., 33 anos, é o seu trabalho na área de Tecnologia da Informação (TI), de onde ele tira a base de sustento da sua vida. Os acordes também podem variar, com mais ou menos tensão, mas não são suficientes para alguém que, como Leandro, se apaixonou por jazz e por um instrumento cuja beleza vem justamente dos solos, que precisam muito mais do que as notas da base: o trompete, em si bemol (Bb).

 

"Eu estudava violão, mas há uns dez anos resolvi aprender trompete. Quando a coisa começou a ficar mais séria, comecei a estudar a música formal e me envolver mais profundamente com jazz. Então, comecei a estudar técnica, com professor de formação erudita, e tive uma base bem segura. Mas o que me moveu realmente foi o jazz. É assim que quero falar (tocar)."

 

A sua formação na área de TI e seu gosto pela música o levou à Trama Virtual, gravadora virtual criada para divulgar na web músicos independentes e reunir fãs. Lá, ele chegou até o cargo de Chief Information Officer (CIO), como é conhecido na área o diretor de tecnologia de uma empresa. "Esse caminho de web e música me levou para a Trama, e comecei colaborando na área de tecnologia deles, mas houve um envolvimento grande também na parte artística, uma coisa ajudou a outra. Criamos a Trama Virtual, com o site de bandas, e por ali eu fiz o meu cantinho na web", conta ele, que agora é coordenador de tecnologia da Exceda, não mais diretamente ligado à música, na parte de suporte a servidores, grandes PCs que comandam as redes de computadores de empresas. "Acho que dá para conciliar o trabalho com a música. Exige bastante esforço, mas há uma questão de expressão que, chega uma hora, você não consegue mais segurar. Você tem que colocar a banda na praça mesmo."

 

E já está na praça. Há um ano e meio, criou a banda LJ5, que deve lançar seu primeiro trabalho no próximo ano e já vem realizando shows desde então com o repertório calcado no HardBob, no Cool Jazz e na Bossa Nova. E, para isso, Leandro e a banda estão em constante processo de criação. "A gente caminha muito na praia do 'cool jazz', numa linha que o Miles Davis criou. E eu tenho em mente que dá para falar mais coisas sobre esse estilo, musicalmente." Clique aqui e ouça o som da banda.

 

 

"Pulverização" de shows prejudica músicos, diz Guilherme Vergueiro

 

O pianista, compositor, produtor e documentarista Guilherme Vergueiro reconhece que há uma retomada de público para a música instrumental no Brasil, mas é ainda muito pequena. Em sua avaliação, no fim da década de 80, faltou um processo de formação de platéia para a música instrumental. E, além disso, houve uma "pulverização" de shows por casas noturnas e a redução do tempo de apresentação. "Na década de 80 trabalhávamos muito tanto em São Paulo quanto no Rio. E ganhávamos dinheiro. Fazíamos temporadas de terça a domingo e era mais fácil de a imprensa acompanhar. Porque falando bem ou falando mal, isso ajudava. Hoje, tem mais lugares para tocar, mas você sai de lá com R$ 20 no bolso. Houve uma pulverização."

 

Mas é por causa dessa retomada que ele comemora, no Auditório Ibirapuera no domingo, 40 anos de carreira, aproveitando para lançar o segundo volume da série batizada de Intemporal/Timeless, com músicas gravadas de 1971 até 2008 e que nunca foram lançadas, apesar de seus 12 discos lançados até hoje. "O show domingo terá só músicas inéditas", conta, lembrando que haverá uma homenagem a Johnny Alf, com a participação especial de Sizão Machado e Laudir de Oliveira.

 

"Agora, que estão redescobrindo a música instrumental, faço o show para mostrar que estamos vivos, e que tem jovens músicos participando disso. E, a homenagem ao Johnny Alf, eu não deixo de falar nele desde quando o conheci, quando eu era garoto. Ele meu deu muito autoestima e é um dos únicos que tem capacidade poética tanto na palavra como na melodia e na harmonia. É um músico completo."

 

Público cai à medida que música se afasta da dança, diz Leo Gandelman

 

Quando as grandes orquestras da era do swing nos Estados Unidos, que levavam ao delírio o público nas pistas de dança nas décadas de 40 e 50, cedeu espaço para o bebop houve uma redução do público do jazz. O mesmo pode se aplicar ao que vem acontecendo no Brasil na música instrumental. A avaliação é do saxofonista e compositor Leo Gandelman, um dos maiores músicos da música instrumental brasileira, com a versatilidade de ir do jazz à música clássica. "Eu costumo dizer que musica instrumental é terreno grande, mas fica no deserto do Saara. Tem que ser trabalhado com muito ideal e sonho."

 

Para ele, o jazz americano e o jazz com sotaque brasileiro, mais intelectual, e a música clássica, têm um público fiel que forma um nicho de mercado, para o qual "é difícil pensar em crescimento de espaço". "O Brasil é muito monofásico, a mídia insiste em moda, na música do momento. É difícil que qualquer outra corrente de música alternativa consiga mais público", diz ele, que acha que até a MPB hoje já pode ser considerada hoje como música alternativa . Segundo ele, até músicos americanos buscam o mercado europeu para conseguir sobreviver.

 

"Na década de 80, houve um pequeno aumento no jazz. Eu experimentei isso no meu trabalho. Mas hoje eu sinto que toco muitas vezes para nichos, onde a música é entendia", diz o músico que acabou de chegar de um festival de jazz na Rússia, se apresentou nesta semana em São Paulo num duo clássico com a pianista Estela Caldi, e estará em 9 de dezembro em Caracas (Venezuela), num concerto da peça "Fantasia", de Villa Lobos, com a Orquestra Simon Bolívar, sob regência de Isaac Karabtchevsky.

 

Mas, por outro lado, ele vê um crescimento do chorinho, do samba-jazz e, até, do frevo, que trazem os dançarinos de volta ao centro do salão. "A diversidade da música brasileira é muito grande, com o choro, o frevo, o samba. E vejo que tem feito muito sucesso. Na Lapa, no Rio, tem mil grupos fazendo choro e samba, que na música instrumental se mistura com o samba-jazz. No frevo, tem o Spok Frevo Orquestra, que é a renovação do frevo", conta ele, que participou do show da banda no Carnaval em Olinda.

 

Para divulgar o jazz, e também todo o seu trabalho na música instrumental, ele pessoalmente recebe as mensagens de fãs em seu site na web (www.leogandelman.com.br) e, às terças-feiras, entra no ar com um programa de música instrumental na Rádio MPB FM, do Rio. "Eu também gosto muito dessa coisa do jazz intelectualizado, torço para que cresça o interesse. Quem trabalha nessa área da música alternativa, faz isso com muito sonho. E tocamos com muito amor, independentemente das circunstâncias."

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