Música erudita muda perfil de São Lourenço

Um sonho ambicioso começa a ser concretizado na pequena cidade de São Lourenço da Serra, no Estado de São Paulo: o de construir um núcleo de excelência em música erudita em uma cidade de apenas 12 mil habitantes, localizada na região mais pobre do Estado onde os investimentos em cultura sempre foram ínfimos. É uma realização da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), através da Fundação para o Desenvolvimento das Artes e da Comunicação (Fundac). O projeto é fazer uma escola de música e uma oficina de luteria, ou seja, de fabricação de instrumentos de corda acústicos. O município, a 50 quilômetros de São Paulo, fica na região do Vale do Ribeira, que tem os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado, próximo aos da África do Sul e da Indonésia. O projeto tem o nome de Núcleo de Trabalho Musical do Vale do Ribeira e leva consigo o sonho de muitos profissionais diferentes. O professor Luis Milanezzi, vice-diretor da ECA, merece o mérito de unir a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP com o Departamento de Música da ECA, à prefeitura de São Lourenço da Serra, e ao Rancho Ranieri, um acampamento para crianças na cidade - o que falta agora é conseguir juntar ao grupo uma grande empresa disposta a patrocinar o projeto através da Lei Rouanet. "Quando da pobreza é explorada algum tipo de beleza, esta beleza tem que necessariamente ser transformada em riqueza", é a opinião do professor Milanezzi, e foi este ideal que o motivou a montar um programa cultural para a área.A idéia é oferecer aos adolescentes das 23 cidades da região, carentes de iniciativas culturais, uma formação musical de cinco anos para que eles possam se profissionalizar e criar em suas cidades projetos culturais semelhantes, dando aulas de canto e instrumentos. As aulas serão dadas por professores da USP pagos pela Fundac. A localização da cidade é o maior motivo para a escolha de São Lourenço. Ela é chamada de portal do Vale por ser a primeira cidade do Vale do Ribeira e a mais próxima da capital. "Seria impossível levar professores da USP para dar aula a mais de 100 quilômetros de onde vivem e trabalham", diz Milanezzi.A edificação será feita em um terreno de 2 alqueires (48 mil metros quadrados) doado pelo Acampamento Ranieri. Nele serão construídos um teatro para 367 pessoas com palco de orquestra sinfônica para 80 músicos sentados. Mais 14 salas de estudos, duas grandes de 60 metros quadrados, duas médias de 30 metros quadrados e dez pequenas de 9 metros quadrados. Uma área para armazenamento de partituras, gravações e livros de música. A oficina de luteria de 60 metros quadrados vai ficar sob a responsabilidade do luthier Rafael Sando. O projeto ainda inclui alojamentos para possibilitar que as pessoas das cidades mais distantes do Vale possam vir ter aulas e ficar na escola.O prédio vai ser concebido pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, FAU-USP, em um projeto arquitetônico sem nenhuma restrição criativa. Arnaldo Martino, presidente da Fundação para Pesquisa Ambiental (Fupam), da faculdade diz que pretende "fazer um edifício integrado com a preservação da natureza e as atividades culturais". "A idéia é usar materiais simples, mas com toda a técnica acústica que um prédio como este exige. O local é muito bonito e a construção tem que valorizar este lugar", conclui Martino.A sede do Núcleo vai ficar a 5 quilômetros da BR 116 e a 50 quilômetros do Centro de São Paulo. Pode ser que, com o RodoAnel, projeto de anel viário que circunda a cidade de São Paulo ligando as principais rodovias, facilite ainda mais o acesso, deixando o caminho para a USP ser feito em menos de 30 minutos. O único problema é que, com a proximidade da capital, o investimento feito para o Vale do Ribeira poderá ser mais aproveitado pelos paulistanos do que pela população de Cananéia, cidade do Vale que fica a quase 200 quilômetros de São Lourenço, por exemplo. A cidade tem apenas 12 mil habitantes e vê neste projeto uma grande oportunidade de trazer a lucrativa indústria do turismo para aumentar o curto orçamento do município. "A cidade tem pouca receita do ICMS, pois não tem nenhuma indústria", conta o prefeito Lener de Nascimento Ribeiro, que fechou a única indústria da cidade como seu primeiro ato de governo quando tomou posse há 4 anos. Reeleito, ele conta que era uma indústria de chumbo que vinha envenenando os mananciais de água, uma das atrações da "cidade natureza", como diz o slogan da prefeitura. "Queremos implantar na cidade um sistema de desenvolvimento sustentável para não perdermos a riqueza natural que temos com a mata Atlântica", conta. A cidade nunca teve nenhum tipo de experiência anterior nem com música nem com fabricação de instrumentos. "Temos apenas um coral infantil muito procurado pelos moradores", diz o prefeito. Ele vai aproveitar o Núcleo para colocar em prática outros projetos do município emancipado há apenas 8 anos. Junto ao Núcleo Musical será criado um parque florestal com um núcleo de ensino ambiental administrado por uma ONG, um orquidário e outros viveiros de mudas de plantas nativas da região. Por enquanto, o que aparece é apenas o grande terreno com um belo lago cercado por pinheiros, "que serão derrubados para dar lugar a plantas nativas da região", garante ele. "Com o projeto, poderemos unir a conscientização ambiental à produção cultural e ao desenvolvimento da região. Um festival de música erudita na cidade seria uma excelente fonte de renda", acredita Lener. O pianista João Carlos Martins é um dos criadores do Festival de Campos do Jordão e, através do seu irmão, José Eduardo Gandra Martins, chefe do Departamento de Música da ECA, o pianista visitou a área onde a escola será construída. João Carlos se empolgou com a idéia e começou a ajudar na corrida por investidores. "O que estou fazendo é apenas um aproximação das empresas com o projeto, apresentando-o para alguns empresários envolvidos com projetos culturais", diz João. O músico, que não se apresenta no Brasil há 20 anos, promete para março um concerto de piano com o irmão José Eduardo no aniversário da cidade. "Vai ser como na nossa infância quando tocávamos juntos o Concerto de Ravel para Mão Esquerda", lembra ele. João Carlos passou este tempo fora do Brasil gravando as obras completas de Bach pela gravadora americana Concorde. Os 21 CDs foram lançados em 98. "A escola de música em São Lourenço é uma chance de voltar às origens do Festival de Campos do Jordão que hoje já caiu para uma linha mais popularesca", afirma João Carlos.

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