Jörg Baumann
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Música erudita em 2017: investir em formação pode ser saída para driblar a crise

Em meio a dúvidas, cortes e caos, projeto oferece um novo caminho

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

24 Dezembro 2017 | 06h00

Orquestras e teatros de ópera nem sempre se comportam assim, mas são instituições que funcionam no longo prazo. É por isso que não dá para pensar em uma retrospectiva 2017 sem levar em consideração o fato de que em muitos sentidos o ano não termina no dia 31 de dezembro. Uma realidade que persiste desde 2015, quando tiveram início cortes de verbas na área, que não pouparam nenhum projeto, levando a indefinições e compassos de espera que enchem o setor de incógnitas.

No Teatro São Pedro, a chegada da Santa Marcelina Cultura à gestão trouxe uma nova proposta de programação – da qual a produção de Pulcinella e Arlecchino, de Stravinski e Busoni, foi exemplar, sob o comando de Ira Levin e William Pereira. Ela permanece? Tudo indica que sim, mas não é detalhe pequeno o congelamento de verbas proposto pelo governo do Estado para os próximos cinco anos.

No Teatro Municipal de São Paulo, a temporada 2017 teve espetáculos de ópera – Nabucco e Os Pescadores de Pérolas – aquém daquilo que vinha sendo feito, o que é resultado, na verdade, de uma indefinição a respeito de como se entende o papel do teatro na vida musical da cidade. Resolvê-la é missão agora do Instituto Odeon, que precisa mostrar ser capaz de transformar em ação o que tem sido apenas discurso – encarando, acima de tudo, o caos institucional em que o Municipal se meteu.

A Osesp teve grandes momentos, com destaque para as participações de Nathalie Stutzmann, como regente e cantora, e da violinista Isabelle Faust. E informou que não renovará o contrato de Marin Alsop como regente titular e diretora musical ao final de 2019. Quem assumirá a Osesp? Especulações sobre o nome devem tornar-se cada vez maiores, mas ele é tão importante quanto a disposição da Fundação Osesp de repensar o modo como se comunica com a sociedade, em busca de uma presença mais ampla.

Fora de São Paulo, os festivais de Manaus e Belém mantiveram-se vivos em meio à redução de verbas. Mas nenhuma situação é tão dramática quanto a do Teatro Municipal do Rio, no qual a qualidade de espetáculos como Jenufa (Marcelo de Jesus/André Heller-Lopes) empalidece perante a realidade dos artistas, que ficaram meses sem receber por conta da crise no funcionalismo estadual.

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Boas notícias, no entanto: os dez anos do Neojiba (Núcleos estaduais de orquestras juvenis e infantis da Bahia), dirigido por Ricardo Castro, se somam à atividade de projetos como a Emesp e o Instituto Baccarelli para reforçar a importância, ainda mais em um momento de crise, do investimento em formação como caminho para um mundo musical diferente.

Da mesma forma, foi especial ver Antonio Meneses completar 60 anos no auge de seu talento, no palco e em CDs; o Quarteto Carlos Gomes jogar luz sobre a música romântica brasileira; o Ensemble Modern revisitar a obra de Walter Smetak; e o talento de instrumentistas, de Nelson Freire, com seu disco dedicado a Brahms, a Neymar Dias e sua reinvenção de Bach pela viola caipira.

 

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