Música brasileira é estrela no Cubadisco

A capital cubana foi sede, entre os dias 16 e 20, da quinta edição do Cubadisco, feira internacional da indústria fonográfica dedicada principalmente à produção musical dos países da América Latina e de outros mercados, como o africano e o oriental, que não se enquadram nos padrões de produção das grandes multinaconais do setor.O Cubadisco 2001 homenageou o Brasil, partindo do princípio - de resto aceito por especialistas de todo o mundo - de que as duas músicas mais ricas dos tempos que correm são a brasileira e a cubana. A delegação brasileira, que fez shows, participou de palestras e aulas, era formada por Ivan Lins, Guinga, Nei Lopes, Rosa Passos, Lúcia Helena, quarteto Jobim-Morelenbaum, grupo Toque de Prima, Mestre Zé Paulo e pelos bailarinos Carlinhos de Jesus e Sheila Ferreira. O estudioso Zuza Homem de Melo apresentou, na manhã do dia 17, uma quinta-feira, palestra sobre a canção brasileira.Foram, ao todo, ao longo dos cinco dias, mais de 200 espetáculos musicais: artistas cubanos também se apresentaram, em alguns momentos ao lado dos brasileiros ou participando das apresentações desses - o pianista Chucho Valdez, ganhador de um Grammy, neste ano, tocou com Ivan Lins; o saxofonista Cesar López solou um choro de Guinga, numa formação que tinha ainda o clarinetista e saxofonista Paulo Sérgio Santos e o violonista Lula Galvão, além de Guinga, naturalmente, tocando também violão.Fenômeno recente da música cubana, muito popular na ilha o flautista Orlando Maraca - músico de extraordinárias qualidades técnicas, dono de um sopro que faz às vezes lembrar o de Altamiro Carrilho - combinou os metais e congas de seu grupo com os sopros, bateria e pandeiro da turma do cavaquinista Mestre Zé Paulo. O Toque de Prima, formado pela nata dos músicos do samba carioca - Carlinhos Sete Cordas, Ovídio, Vanderson, Ari Bispo, Marcelinho Moreira e Dininho - incorporou à formação o percussionista Pancho Terry.Esses foram encontros formais, vistos e ouvidos durante os shows no Teatro Nacional, no Teatro Amadeo Roldán, no Teatro América, na casa noturna El Gato Tuerto, nos palcos ao ar livre do Círculo Juvenil José A. Echeverria - ou simplesmente Echeverria, como se diz por lá -, alguns dos espaços ocupados pela música ao vivo.No Pavilhão de Exposições estava montada a feira, propriamente dito. Por força das leis cubanas, companhias estrangeiras - do Brasil estavam lá a Velas e a CPC-Umes - não podiam vender seus produtos. Nos estandes, negociavam-se licenciamentos. Discos cubanos estavam à venda.O mercado fonográfico cubano é rico, mas tem uma peculiaridade que atrapalha o recebimento de produtos estrangeiros. É que a indústria, no mundo inteiro, fabrica quase que exclusivamente CDs. E há pouquíssimos aparelhos de reprodução de CD em Cuba. Ouve-se música em fitas - e fitas quase não são mais fabricadas. Essa foi uma das questões que o Cubadisco discutiu.Em paralelo à feira e aos espetáculos, o Cubadisco premiou os melhores do disco local do ano passado, em 31 categorias, abrangendo música infantil, ópera, trilha sonora para cinema, música eletroacústica, música de câmara e sinfônica jazz latino, fusão (o vencedor nessa categoria foi o mencionado Orlando Maraca), música popular tradicional, música dançável contemporânea. A compositora e cantora Marta Valdés venceu o prêmio de canção com o disco Nestra Canción, lançado pelo selo Unicornio, que pertence ao novo-trovador Sílvio Rodríguez. Até há poucos anos, apenas a gravadora estatal Egrem podia lançar discos, em Cuba. Agora, existem outros selos, particulares (mas em sociedade com o Estado), como o Unicornio, o Ahía Namá, que lançou o disco de Orlando Maraca, o Casa de las Américas, o Bis Music, entre outros.Além do prêmio de canção, Marta Valdés recebeu também o Grande Prêmio, que dividiu com a edição (pela Egrem) dos oito volumes da Obra Guitarrística de Leo Brouwer. Os prêmios de honra foram para os representantes músicos jovens e representantes da Nova Trova, movimento surgido nos anos 70: Silvio Rodriguez, Pablo Milanés, muito conhecidos aqui (e lá, Yolanda, a famosa canção de Pablo, é tocada pelo menos uma vez por noite por cada orquestra de teatro, cada formação de boate, cada grupo de bares e restaurantes), Frank Fernández, Chucho Valdez, Juan Formell e para o compositor e cantor espanhol Juan Manuel Serrat, que também se apresentou durante o Cubadisco.A cada encontro entre brasileiros e cubanos, salientava-se o parentesco entre as músicas dos dois países, expressão afro-latina de origem comum. Uma roda de rumba de tambores no Hurón Azul ou no Gran Pelenque - a primeira comandada pelo poeta Elói Machado, dito El Ambio - é extremamente parecida com a música dos terreiros de candomblé. A rumba, em seu feitio primário, tem função ritual e não utiliza instrumentos melódicos ou harmônicos: tudo é tambor, canto e dança.Parentesco - Num outro extremo, o sofisticado danzón, com seu formato camerístico e movimentos bem definidos, remete à produção camerística brasileira da virada para o século passado.A estratégia de mercado proposta pelo Cubadisco tem a finalidade de mostrar as produções dos diversos países (mormente os do Terceiro Mundo) em sua diversidade e peculiaridades. A tendência do mercado multinacional é escolher um modelo internacionalmente palatável, aplicar-lhe um rótulo e vendê-lo como produto único. Assiste-se, nesse momento, a uma estratégia assim com relação à música cubana (depois do fenômeno popular que foi o filme Buena Vista Social Club): foi toda ela reduzida ao rótulo "salsa" e como tal é vendida. Salsa, entretanto, não é ritmo ou gênero que exista em Cuba. Ouve-se danzón, rumba, son jazz, folclore, concertos - nunca salsa. A música nacional é o son, como a nacional brasileira é o samba - que a indústria transfigurou em "pagode", com o catastrófico resultado conhecido.

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