Música, batuque e saudade na despedida de Naná Vasconcelos no Recife

Corpo do músico foi sepultado nesta quinta-feira, 10

Monica Bernardes, Especial para o Estado

10 de março de 2016 | 15h37

RECIFE - Diversidade. Uma das palavras mais defendidas pelo músico pernambucano Naná Vasconcelos durante seus 71 anos de vida serviu também para traduzir a união de sentimentos e pessoas em sua despedida. Lado a lado, admiradores, amigos e parentes - das mais diversas religiões, raças e gêneros - cantaram e dançaram ao som de centenas de tambores e outros instrumentos de percussão, durante o sepultamento do artista, às 11 da manhã desta quinta-feira, 10, no cemitério de Santo Amaro, na região central do Recife.

Naná, que morreu na última quarta-feira, vítima de um ataque cardíaco – durante uma recaída no tratamento de um câncer de pulmão - era apontado pela crítica internacional como um dos maiores percussionistas do mundo. Um cortejo com mais de 200 batuqueiros e outras dezenas de instrumentistas acompanhou o corpo do músico no trajeto iniciado no local do velório, na Assembleia Legislativa de Pernambuco, até o cemitério.

Na porta do cemitério, a multidão fez uma parada para ouvir as palavras de representantes de várias religiões. Pais e mães de santo, padres, pastores e até um monge budista fizeram rápidos pronunciamentos enfatizando o caráter, a humildade e a dignidade do músico. “Naná era um destes seres iluminados, que estava aqui para espalhar luz e amor. Nos conhecíamos há 25 anos. Ele praticava a caridade da forma mais incrível, através do exemplo e sem falar nada a ninguém. Era, aliás, a única coisa que ele fazia em silêncio, porque se tinha alguém que amava o barulho e transforma tudo em batuque era esse homem, esse grande amigo”, destacou a mãe de santo Hilda Fraga.

Durante o sepultamento, a musicista Íris Vieira, da Orquestra Sinfônica de Pernambuco, tocou a música Trenzinho Caipira, do compositor Villa-Lobos, acompanhada pelo grupo de percussão Batucafro. Na sequência, o poeta cearense Israel Batista – amigo de Naná há quase 30 anos - declamou o poema que fez em tributo ao percussionista, intitulado “Louvor a Naná”.

Pouco antes da descida do caixão, representantes das mais de 20 nações de Maracatus presentes fizeram uma saudação especial, tocando por cinco minutos, toares de baque solto, um dos ritmos preferidos de Naná.

O cantor pernambucano Otto também fez questão de lembrar a generosidade do músico. “Não tem como falar de Naná e não pensar no que ele fez por milhares de crianças, atendidas em uma das dezenas de projetos que ele desenvolveu ao longo da vida. Com a música, ele deu chance de muitas crianças não só aprenderem uma profissão, mas de aprenderem o seu valor e o valor da arte”, destacou.

Muito emocionada, a viúva de Naná, Patrícia Vasconcelos, não parava de agradecer as inúmeras homenagens, que chegavam sob a forma de músicas, poemas, cartas, fotos, flores e abraços. Torcedores do Santa Cruz, time de coração de Naná, entoaram o hino do clube no ritmo do Maracatu no momento em que o caixão era colocado na sepultura. “Naná era amor. Ele transpirava amor, passava amor em tudo o que fazia. E é essa lição que fica. A música, a arte que ele tanto amava, segue com quem aprendeu com ele e o admirava. Naná está em todos nós e seguirá conosco”, afirmou.

Aos 78 anos, a aposentada Nilza Silva fez questão de ir ao sepultamento do ídolo. “Eu não podia deixar ele ir sem fazer minha pequena homenagem. O que Naná fez pelos negros de Pernambuco e do Brasil não tem como agradecer. Vim de uma família de escravos, sou negra e pobre. Mas graças ao Maracatu que ele tanto amava e valorizava eu consegui viver tantas alegrias que jamais conseguirei esquecer. Queria dizer obrigada e consegui”, contou Nilza.

INTERNAÇÃO - O músico pernambucano estava internado em um hospital particular do Recife desde o último dia 29 de fevereiro. Ele foi trazido às pressas a capital pernambucana, vindo de Salvador, onde passou mal após um show realizado ao lado de Carlinhos Brown. Naná descobriu o câncer em agosto de 2015. Durante o tratamento, apesar da saúde debilitada, chegou a produzir um último trabalho com Zeca Baleiro e Paulo Lepetit, o Café no Bule.

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