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Muse lança novo disco com cenário sombrio e  apocalíptico

Trio britânico decide ‘voltar às origens’ com novo disco e se prepara para nova visita ao País

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2015 | 05h00

O futuro não é ensolarado. Pelo contrário. Para o Muse, ele traz elementos de filmes como Robocop, Os Vingadores e até Chappie. A sociedade é castigada por grandes organizações, pessoas sob efeitos de lavagem cerebral e pastoreadas por robôs. Com Drones, sétimo álbum do trio de Teignmouth, cidadezinha de 15 mil habitantes que integra o condado de Doven, na Inglaterra, Matthew Bellamy (voz e guitarra), Christopher Wolstenholme (baixo) e Dominic Howard (bateria) não escondem suas ambições e seu preciosismo. Soam pretensiosos, sim, mas e daí? “Em se tratando de conceito, eu concordo, sim. É o nosso disco mais ambicioso porque tínhamos uma ideia muito formada do que queríamos tratar nesse disco e, partindo disso, como deveríamos soar”, explica o baixista Wolstenholme, ao telefone, da Inglaterra. 

Assim como o Muse projeta um olhar para o futuro, bastante apocalíptico, neste novo álbum, o trio preferiu regredir e extrair os excessos para criar as 12 canções do disco que chega às lojas de todo o mundo, inclusive no Brasil, no dia 8 de junho. The Resistance (2009) e The 2nd Law (2012), os dois trabalhos anteriores, foram produzidos pelos próprios integrantes da banda. Para Drones, eles entenderam que era o momento de deixar outra pessoa responsável pela sala de comando do estúdio, enquanto os três se dedicariam apenas ao aspecto musical e conceitual do álbum. 

Ouça Dead Inside:

O escolhido para “pilotar” Drones foi Robert John “Mutt” Lange, um produtor de renome tanto no rock, com trabalho em discos clássicos como Back in Black (AC/DC), 4 (Foreigner) e High ‘N’ Dry (Def Leppard), como no pop – o nome dele está nos créditos de Born This Way, segundo álbum de estúdio de Lady Gaga. Lange, curiosamente, ainda é uma daquelas figuras excêntricas, quase avessas a qualquer exposição. “Quando pensávamos na forma como queríamos soar e em discos incríveis que ele já produziu, como Back in Black, do AC/DC, foi muito fácil chegar a essa escolha”, explica o baixista. 

A sugestão de chamar Lange foi da equipe que empresaria a banda e, para conseguir entrar em contato com o produtor, o próprio Matt Bellamy precisou pegar um avião até a Suíça. A questão principal era saber se ele seria capaz de caminhar lado a lado com o trio na construção desse conceito. Lange, contudo, surpreendeu a todos por aceitar o projeto e fugir de qualquer ideia comercial, de singles e canções fáceis. 

“Decididamente, queríamos nos afastar da música eletrônica, deixar o álbum o mais rock possível”, conta Wolstenholme. Há três anos, com o disco The 2nd Law, o Muse embarcava sem medo na onda do então novíssimo movimento de dubstep liderado pelo DJ e produtor Skrillex – para quem não conhece esse subgênero da música eletrônica, imagine, de maneira geral, o som de um ferro de passar dentro de um liquidificador ligado. O direcionamento sonoro foi ousado, marcado pela ótima Madness, mas a ideia do novo álbum era fugir disso. “Lembro que quando estávamos lá gravando The 2nd Law, passamos tempo demais na sala de controle do estúdio, decidindo tudo, em vez de estarmos lá embaixo, com os nossos instrumentos. A presença de Lange nos ajudou a explorar a parte musical do disco, sem nos preocuparmos com o restante”, lembra o baixista.

O Muse sempre teve uma predisposição para uma sonoridade pretensiosa. Sete discos depois e aclamados, eles não precisam mais se limitar. Drones é a prova disso. Por mais que o trio busque uma volta às raízes neste trabalho, nada mais é como Showbiz (1999) e Origin of Symmetry (2001), os dois primeiros discos, por exemplo. A prova é a nova turnê mundial pela qual o grupo acabou de embarcar. São todos shows para multidões, estádios, arenas e festivais gigantescos. No Brasil, a banda passará pelo HSBC Arena, no Rio, no dia 22 de outubro, e estreará no Allianz Parque, em São Paulo, no dia 24 do mesmo mês. O trio volta à capital paulista um ano depois de se apresentar no Lollapalooza Brasil, para os 80 mil presentes. Drones, com um conceito tão redondo, entra aos poucos no setlist da banda. “Temos muitas possibilidades, desde tocar o álbum inteiro ou algumas canções”, disse o baixista. 

A banda, reconhecida pelos shows explosivos e por soar como se seis ou sete pessoas estivessem sobre o palco, quer as atenções do público voltadas ao disco. “É para ouvi-lo como uma obra de arte”, sugere Wolstenholme. De uma forma discreta, o Muse luta contra o próprio apocalipse musical atormentado pelo fácil acesso à informação. “Não basta escutar um single ou outro.” 

CRÍTICA: Preciosismo escancarado

O Muse prometeu voltar às raízes, disse que estaria de volta ao som cru do garage rock. Queriam a pureza e pólvora roqueira do power trio, apenas com guitarra, baixo e bateria. Drones, contudo, é exatamente o oposto a isso tudo. O preciosismo do grupo está escancarado a partir da capa do trabalho, uma ilustração assinada por Matt Mahurin e claramente inspirada nos trabalhos de Storm Thorgerson. O inglês, que morreu em 2013, assinou capas de álbuns clássicos do Pink Floyd e do próprio Muse. 

Ouça Psyco:

A relação entre as duas bandas, contudo, não parece ser por acaso. Trata-se do disco mais floydiano do trio liderado por Matt Bellamy. Dezesseis anos depois do primeiro álbum, Showbiz (1999), eles entregam sua obra-prima regida pelo máximo do antipop. Vão-se embora os singles e hits fáceis, chegam as canções que podem ter 10 minutos de duração, como The Globalist. Escorregam, contudo, em algumas letras, principalmente em Psycho.

Os outros seis discos do Muse já apontavam para algo cada vez mais grandioso, com seus flertes experimentais e ideias de álbuns completamente conceituais. Drones leva tudo ao pé da letra. Parte para aquele rock progressivo que Roger Waters tanto gosta. Dentro das devidas proporções, veja bem, este é o The Wall do Muse – se o disco do Floyd é peso pesado demais para o seu gosto, que seja, o The Pros and Cons of Hitch Hiking (1984), primeiro solo de Waters. São, contudo, dois discos perturbados pela percepção do mundo, pessimistas com relação ao futuro e narrativos. 

Não seria surpresa se uma animação fosse criada para narrar a trajetória do protagonista de Drones. Muse canta a batalha final contra o controle das grandes corporações e das máquinas. É uma versão atualizada daquela de derrubar o Grande Irmão, do livro 1984 de George Orwell. Bellamy encontrou seu Winston Smith. Renovado, sim, mas igualmente perdido. / P.A.

Ouça Mercy:

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