Oswaldo Jurno
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Musa da bossa nova, a encantadora Nara Leão foi uma intérprete versátil

Afinadíssima, com seu charme e carisma, revelou-se uma cantora de ponta; ela completaria 75 anos nesta quinta, 19

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2017 | 11h42

Neste 19 de janeiro, Nara Leão faria 75 anos. Nascida em Vitória, em 19 de janeiro de 1942, foi a mais carioca das cantoras. Numa época de grandes intérpretes, simbolizou como nenhuma outra o canto quase falado da bossa nova.

Aliás, diz a história (ou a lenda), que a bossa teria nascido no famoso apartamento de Nara, em frente ao Posto 4 em Copacabana. A moça, que havia estudado na escola de violão de Roberto Menescal e Carlos Lyra, costumava reunir a rapaziada que bolava a nova música, sob os olhares complacentes do pai, o médico Jairo Leão, e a mãe, Altina.

Há muito mito sobre a origem da bossa nova, por exemplo que a bossa teria como característica o canto discreto, acompanhado do igualmente sóbrio violão, justamente para não causar reclamação dos vizinhos. Era música de apartamento e tinha de ser cantada baixinho. Mas essa é apenas uma explicação singela para um movimento que revolucionou a harmonia do samba, alterou-lhe o fraseado, propôs novos temas para as letras e, a partir da batida de violão de João Gilberto, tornou-se algo de fato original. E assim, saiu do Rio para ganhar o mundo.

De todas, a voz de Nara era a que melhor vestia esse canto em registro baixo. Elis Regina (de quem não era bom ser inimiga) a ironizava dizendo que não sabia cantar, não tinha volume sonoro. Que nada. Nara era afinadíssima, em sua voz reduzida. E, com seu charme e carisma, revelou-se uma intérprete de ponta.

Estreou na comédia Pobre Menina Rica ao lado de Vinicius de Morais e Carlinhos Lyra, em 1963. Ficou famosa após o golpe militar de 1964, quando o espetáculo Opinião formou uma espécie de ritual da resistência civil. A intelectual Heloísa Buarque de Holanda escreveu que naquele tempo se ia ao Opinião como quem comparece a uma missa cívica. Mas Nara, que se apresentava ao lado de João do Vale e Zé Kéti, teve um problema de afonia e foi substituída no segundo ano por Maria Bethânia, uma jovem que então ninguém conhecia e abafou com sua interpretação de Carcará (o tal do "Pega, mata e come!").

Mas, como se vê pela própria experiência do Opinião, Nara era uma intérprete versátil. Musa da bossa nova - "título" dado pelo jornalista Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), cantou o barquinho, a tardinha e o azul do mar, mas não voltou as costas ao samba, ao velho samba de morro. Tornou-se uma cantora de protesto logo que o regime instaurado em 1964 mostrou sua carantonha. Nesse sentido era muito próxima do CPC da UNE (os Centros de Cultura Popular da União Brasileira dos Estudantes), o que seria previsível dada sua antiga amizade com Carlinhos Lyra, cepecista de carteirinha. Atingiu o auge da fama ao interpretar a singela A Banda, de Chico Buarque.

O fato é que Nara interpretava de tudo - e bem. Da música cool da bossa nova pura, ao sambão, canção de protesto e até o tropicalismo que, segundo muitos, vinha para se opor à então decadente bossa nova.

Ela participa do disco manifesto do grupo, Tropicália - ou Panis et Circensis, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee, Os Mutantes, Rogério Duprat, Tom Zé, Gal e Torquato Neto. Na capa do LP, Nara está "presente" no retrato segurado por Caetano. Interpreta uma das faixas, Lindoneia. Outro retrato é o de Capinan, em traje de formatura, na não de Gil.

Isso apenas para dizer que Nara jogava nas onze. Ao longo da carreira gravou samba, bossa e até Jovem Guarda. Mas a imagem que fica - a eterna - é cantando bossa nova no banquinho, acompanhando-se ao violão e com os magníficos joelhos à mostra. Voz contida, afinadíssima, boa divisão rítmica, charme - era um encanto. Um logotipo de um tempo que se não era de todo feliz (havia a ditadura), sabia produzir figuras deslumbrantes como ela.

Gravou 28 discos. O primeiro, Nara, em 1964; o último, My Foolish Heart, em 1989, com versão de standards americanos. Todos foram relançados em duas caixas de CDs. Morreu nesse mesmo ano, com apenas 47 anos. Quem a viu ou ouviu não a esquece.

 

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