Leo Souza/Estadão
Leo Souza/Estadão

Municipal terá sete óperas e outras artes em 2020

A abertura do ano será com 'Aida', de Verdi, dirigida por Bia Lessa

João Luiz Sampaio, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

16 de dezembro de 2019 | 21h00

O Teatro Municipal de São Paulo vai apresentar em sua temporada 2020 sete óperas (em seis espetáculos). A abertura da programação lírica será em março, com nova produção de Aida, de Verdi, dirigida por Bia Lessa. Dentro da série Novos Modernistas, o teatro continuará a se abrir para espetáculos de outras áreas, como o teatro. E a temporada sinfônica, com ênfase nos 250 anos de Beethoven, terá 16 programas.

As demais óperas do ano dividem-se entre um olhar a respeito do repertório tradicional e a presença de novas obras. No primeiro grupo, estão Don Giovanni, de Mozart (com direção de Livia Sabag) e O Morcego, de Strauss (com a Orquestra Experimental de Repertório, mas ainda sem diretor definido). Benjamin, ópera de 2018 do alemão Peter Rusika, e uma dobradinha inspirada em Plínio Marcos - com versões para a ópera de Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli, e Homens de Papel, de Elodie Bouny (dirigidas por Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia) - compõem o segundo grupo. Fidelio, de Beethoven, será apresentado fora do teatro, com direção de Rodolfo García Vásquez.

A divisão, no entanto, é apenas cronológica. Hugo Possolo, diretor artístico do Municipal desde fevereiro, enxerga entre as obras um diálogo à luz de uma proposta mais ampla, que se encaixa na ideia dos Novos Modernistas, projeto criado este ano com o objetivo, segundo ele, de estabelecer “um modelo de pensamento brasileiro”. “Muitas vezes, como artistas, pensamos de modo arrogante sobre nós mesmos e a sociedade, com a qual não dialogamos. Temos de nos recolocar e não nos pensar acima do que acontece na sociedade, para que esse pensamento ressurja.”

Para Possolo, isso significa um Municipal aberto a outras manifestações artísticas - com uma temporada de teatro, ainda não definida, ou a abertura para gêneros como o circo e o cinema. Mas não só. “Temos que usar os corpos estáveis também em espetáculos que possam refletir sobre nosso mundo a partir da ópera.”

A temporada traz dois exemplos: Guarani em Chamas e Carmen Desconstruída. “Vamos ter trechos da ópera do Carlos Gomes para discutir essa visão romântica do indígena à luz de um Brasil às voltas com o desmatamento. Na Carmen, a ideia é discutir a presença da mulher na ópera a partir dessa história. Uma preocupação da temporada é justamente trazer o olhar feminino para dentro do teatro.”

Segundo o Municipal, serão vendidas assinaturas para as óperas - os valores e informações sobre vendas não foram anunciados (em 2019, óperas custavam de R$ 30 a R$ 120 e os concertos, de R$ 12 a R$ 30).

DESTAQUES

Aida, de Verdi (março)

Direção de Bia Lessa e regência de Roberto Minczuk

Navalha na Carne, de Leonardo Martinelli; Homens de Papel, de Elodie Bouny (junho).

Direção de Zé Henrique de Paula e Fernanda Maia

Don Giovanni, de Mozart (agosto).

Direção de Livia Sabag e regência de Roberto Minczuk

Benjamin, de Peter Rusika (setembro)

Direção de Hugo Possolo e regência de Roberto Minczuk e Alessandro Sangiorgi

Fidelio, de Beethoven (novembro)

Direção de Rodolfo García Vásquez e regência de Roberto Minczuk

O Morcego, de Strauss  (dezembro)

Direção a definir e regência de Jamil Maluf

Concertos sinfônicos

Serão 16 programas, com destaque para os cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven; a abertura do ano é com a Sinfonia n.º 3 de Mahler

Entrevista: Hugo Possolo, diretor artístico do Teatro Municipal

As óperas Aida, Don Giovanni e Fidelio foram montadas recentemente pelo teatro. Por que voltar a elas?

Pelo significado musical delas e pela temática. Aida trata de uma separação nacional entre o Egito e a Etiópia, há a questão da escravidão e uma personagem feminina com potência muito grande. Don Giovanni já foi feito, mas precisava de uma visão feminina. Fidelio era quase uma obrigação por causa dos 250 anos do Beethoven, mas ele será feito em algum lugar da cidade que se relacione com os temas da ópera, o exílio, o autoritarismo, a ideia de liberdade.

E qual seria o tema da temporada?

Aida e Fidelio tratam de um mundo polarizado, assim como Benjamin, que mostra o filósofo alemão Walter Benjamin em meio a uma polarização entre o comunismo stalinista e o nazismo. E o Plínio Marcos traz para o palco o submundo de São Paulo. Em Homem de Papel, ele abre o olho da população para a população de rua, para uma realidade para a qual ninguém queria olhar. Recolocar essas questões em um mundo polarizado nos ajuda a redimensioná-lo, acreditando na arte como uma forma de entender e humanizar o outro. 

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