Mudhoney faz turnê no Brasil

Trata-se, desde já, de uma das melhores turnês internacionais a passar pelo Brasil em 2001- e, diga-se lá, nos últimos 20 anos. O grupo norte-americano Mudhoney desembarca por essas pradarias para uma série de apresentações que começam nessa quarta-feira em Porto Alegre. Vai a Curitiba na quinta-feira. Estará em Belo Horizonte na sexta-feira. Em Goiânia no sábado. No Rio de Janeiro no domingo. Os paulistanos verão a banda no Olympia, no dia 21, com abertura de uma das instituições do underground nacional, os Pin Ups, em nova formação. E o gran finale será no festival RecBeat, em Recife, no dia 24.Mark Mclaughin, nome de batismo do insano guitarrista e vocalista do grupo, que chama a si mesmo de Mark Arm (algo que pode soar tanto como braço quanto como poder ou arma), tem uma idéia singular do que seja o País que ele conhecerá nessa semana. "Pode parecer ridículo, mas imagino o Brasil como um grande Mardi Gras´´, disse ele à reportagem, referindo-se ao ponto alto do carnaval jazzístico de New Orleans, a chamada Terça-Feira Gorda. A tradicional folia gringa dura 12 dias e data dos idos de 1857. Mardi Gras? Você já participou de algum? "Não, nunca fui à New Orleans, é muito longe de onde eu moro, talvez seja por isso mesmo que imagino as coisas por aí assim. Sei do carnaval brasileiro, que é bem mais famoso que o Mardi Gras´´, comenta Arm, nascido e criado em Seattle, Washington. "Realmente não sei o que esperar das platéias brasileiras, estou bastante curioso.´´Seattle já era tímida referência rocker quando biógrafos e fãs lembravam de um seus filhos mais ilustres, o guitarrista Jimi Hendrix. Mas a cidade deixou marcas definitivas na cultura pop quando o mundo descobriu, e consumiu até gastar, o som das bandas que tinham alguma relação com a região. Foi uma revolução estética e musical que tomou o início dos anos 90 de assalto. O grunge, com suas indefectíveis camisas de flanela, calças poídas e cabelos desgrenhados, era o que havia de mais empolgante, novo e ruidoso na época. O impacto foi tão grande que o gênero influenciou desde a moda até as regras mercadológicas mais engessadas - tocando basicamente punk rock, o Nirvana desbancou o pop de Michael Jackson nas paradas da Billboard. Só os marcianos não notaram.Mark Arm é um dos responsáveis pelo surgimento da revolução. Nos anos 80, ele formou com o amigo de escola e guitarrista Steve Turner, o Green River (grupo gênese que trazia em sua formação Stone Gossard e Jeff Ament, que mais tarde iriam para o Pearl Jam). Os garotos amavam os riffs fantasmagóricos do Black Sabbath, mas as limitações técnicas os aproximavam mais dos três acordes dos Ramones.Mais tarde, com a saída dos futuros companheiros de Eddie Vedder, Arm e Turner recrutaram o baixista Matt Lukin e o baterista Dan Peters e, inspirados pelo filme Mudhoney (1965), de Russ Meyer, os músicos do Green River passaram a atender por um novo nome. Em 1988, o grupo saiu de um estúdio barato com o single Touch Me I´m Sick, indiscutivelmente o primeiro grande hino grunge (Smells Like Teen Spirit só apareceria em 1991). Nessa toada, invadem as college radios e assinam contrato com a gravadora símbolo do gênero, a lendária Sub Pop, de Bruce Pavitt e Jonathan Ponemann. Não por acaso, o álbum de estréia, Superfuzz Bigmuff, estoura na parada alternativa inglesa.Apesar do pioneirismo grunge e do respeito que o grupo conquistou em anos de serviços prestados ao underground, o Mudhoney nunca teve o sucesso comercial dos conterrâneos Nirvana Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains. "Nós nunca nos preocupamos com isso. Bandas clássicas como The Stooges, 13th Floor Elevators e Blue Cheer nunca foram grandes vendedoras de disco´´, continua. "Me sinto confortável nesse sentido. Temos fãs em vários lugares do mundo e, mesmo assim, somos livres o bastante para não levar nada a sério. Não gosto de pressões da indústria e quero mesmo é me divertir com a história toda ´´, diz ele, com o bom humor que faltou ao amigo Kurt Cobain, líder do Nirvana, que suicidou-se em 1994. Quando a turnê brasileira do Mudhoney começou a ser anunciada, o boato de uma inacreditável participação especial cresceu feito capim. Boas línguas juravam que o ex-guitarrista do MC5, Wayne Kramer, tocaria contra-baixo durante a excursão pelos trópicos. ´´Nós tocamos, sim, com Kramer, mas no estúdio, para gravar a música Inside Job que colocamos de graça na Internet (www.musicblitz.com). Foi incrível, pois tocar com ele foi como realizar um sonho de infância, o cara era de uma das bandas mais geniais de todos os tempos; Wayne Kramer é um dos meus heróis´´, diz o fã Arm.Outro boato, este motivo de lamentações, era o de que a banda havia acabado no ano passado. "O Matt alegou cansaço e saiu, por isso gravamos a música com o Kramer. Mas o Mudhoney não acabou, só demos um tempo, pois não queríamos substituí-lo. Depois, Matt voltou, tocou conosco em uma recente excursão pelos Estados Unidos, mas não irá ao Brasil. Ele já não se diverte tanto com essas viagens todas´´, conta, lembrando que o baixista Steve Dukicn virá no lugar de Matt Lukin. "Ele é nosso amigo e conhece todas as músicas."Se no início dos anos 90 a cena de Seattle era saudada como a redenção do rock e o britpop inglês seria ainda alçado às estrelas do mainstream, hoje o foco está voltado para grupos da chamada nova explosão do rock norte-americano. Grupos como os onipresentes nas capas e páginas das publicações musicais At The Drive In e Queens of The Stone Age. Não raro, esses nomes são acompanhados pelo subtítulo "O novo Nirvana". "Conheço os caras do Queens, já os vi ao vivo algumas vezes e o disco Rated R é um dos melhores do ano passado, o Joshua Homme (guitarrista e vocalista) é incrível´´, continua. "Mas essa história de novo Nirvana é uma grande bobagem". E por falar em QOTSA, o baixista Nick Oliveri teve problemas com a Justiça brasileira e foi preso por alguns minutos por tocar nu no Palco Mundo no Rock in Rio 3. "É sério isso? Você deve estar brincando! Nick preso no Brasil por tocar sem roupa. E as garotas na praia e o carnaval? Vocês não têm também o carnaval?´´, surpreende-se.Mudhoney. Dia 21, às 22 horas. De R$ 30,00 a R$ 60,00. Olympia. Rua Clélia, 1.517, tel. 3675-3999

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2001 | 17h19

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