Natália Russo/AE
Natália Russo/AE

Muddy Waters Jr. faz show em São Paulo nesta quarta

Filho de um dos mestres de Chicago, Mud Morganfield se apresentou em festival na Galeria do Rock e canta hoje no Bourbon Street ao lado da Igor Prado Blues Band

Gabriel Vituri - Estadão.com.br ,

27 Abril 2011 | 07h00

SÃO PAULO - A alma de Muddy Waters e o autêntico blues de Chicago estavam lá. A espera de mais de três horas - em plena segunda-feira, 25 - para a atração principal da noite não espantou o público, que ocupava uma pequena parte do segundo andar da Galeria do Rock, no centro da capital paulista. Larry Williams, ou Mud Morganfield, como é conhecido, encerrou o 1º Galeria do Rock Fest com a classe e a elegância de um autêntico bluesman, tal qual foi seu velho pai, Muddy Waters (1915-1983).

 

Dois anos depois da última visita ao Brasil (em 2009, quando veio divulgar o lançamento do disco Fall Water Fall), Mud Morganfield volta ao País para duas apresentações. Nesta quarta-feira, 27, o bluesman de Chicago e os brasileiros da Igor Prado Blues Band fazem o segundo e último show durante a rápida passagem por São Paulo, no Bourbon Street, em Moema. O pianista Donny Nichilo, que já acompanhou Buddy Guy e Stevie Ray Vaughan, completa o time.

 

Hoochie Coochie Man, Got My Mojo Working ou Mannish Boy. As canções eternizadas na voz de Muddy Waters levaram o público ao delírio no show de anteontem. A semelhança de Muddy Jr. com o pai - voz, gestos e porte físico - fez a plateia uivar. Aos 56 anos e com dez filhos, Larry Williams esteve com o blues a vida toda.

 

Quando tinha mais ou menos 12 anos, ganhou do pai uma bateria no Natal, que durou até ele descobrir o contrabaixo, instrumento que usa até hoje para escrever parte de suas composições. Depois de ter trabalhado como caminhoneiro durante um tempo, "algo entre cinco e dez anos, não sei exatamente", Williams voltou a se dedicar à música - mais precisamente ao blues e, dentro dele, à obra do pai Muddy Waters.

 

"Nem todos os irmãos quiseram seguir a carreira de blues", disse em entrevista ao estadão.com.br (veja mais abaixo). Um dos irmãos, o guitarrista Big Bill Morganfield, ajuda a dar continuidade ao legado do 'chefe de Chicago'. "Eu lembro que papai ficava pouco em casa, sempre na estrada, e às vezes bravo. Hoje eu vejo que era tudo por nós, ele fazia do blues o nosso sustento", relata Mud Morganfield.

 

Galeria do Rock. Além da estrela internacional, o 1º Galeria do Rock Fest promoveu quatro bandas escolhidas - via twitter e facebook - pelo público. Apresentadas pelo DJ e músico Theo Werneck, cada uma teve direito a pouco mais de 20 minutos de show.

 

Entre uma banda e outra, Ana Paula Lopes, a única representante do jazz no festival, subiu ao palco acompanhada por um trio formado por piano, baixo acústico e bateria. A apresentação inspirada em Billie Holiday dispersou o público por alguns momentos, em parte pela duração do show - de aproximadamente uma hora - e um pouco pelo repertório pretensioso, cuja interpretação poderia ter sido mais consistente. Entre os iniciantes, a boa surpresa veio com o power trio The Suman Brothers - o blues mais pegado, com riffs de guitarra já evoluídos para o rock empolgaram a plateia na segunda metade do festival, ansiosa para a chegada de Muddy Waters Jr.

 

 

A transmissão ao vivo pela internet, prometida no cartaz de divulgação do evento, não pôde ser cumprida devido a um problema de conexão. Segundo a assessoria da Galeria, não foi possível conseguir internet com conexão superior a 4MB para a região, o mínimo requerido para o bom funcionamento do streaming. Apesar do espaço pouco convencional para o show, a acústica e a regulagem do som não deixaram a desejar, e foram elogiadas por Mud Morganfield: "Estava fantástico. Dava pra ouvir tudo com uma limpeza cristalina".

 

Segundo os organizadores do Galeria do Rock Fest, a ideia é levar adiante os festivais, com diferentes gêneros a cada edição. Antonio de Souza Neto, o Toninho da Galeria, torce para que existam mesmo "próximas vezes". O problema, porém, é financeiro: "Nós mostramos bons resultados. Agora, precisamos de um retorno, alguém que invista no projeto", ressaltou.

 

***

Hoje à noite, Mud Morganfield, Donny Nichilo e a Igor Prado Blues Band se apresentam na casa de shows Bourbon Street, em Moema. Muddy Jr. e Igor Prado conversaram com a reportagem do estadão.com.br sobre as apresentações em São Paulo, o blues de Chicago e o blues do Brasil. Veja abaixo alguns trechos da entrevista.

 

Como foi se apresentar em um lugar como a Galeria?

Diferente! Estou acostumado a tocar para um público mais velho. Lá, as pessoas eram muito mais novas, e responderam bem ao som. O blues de Chicago, que nós tocamos, é dos anos 40, 50, nem um pouco moderno. Eles estavam todos empolgados com as bandas anteriores, mais puxadas para o rock'n'roll. Fiquei preocupado em chegar com aquele som tradicional, 'não vai haver tanta empolgação', pensei. Mas foi realmente demais.

 

Quando você toca as canções do seu pai, o público enlouquece.

Eu tenho minhas músicas, que gravei com grandes caras de Chicago. Mas, antes de vir pra cá, perguntei ao Igor (Prado) o que o público gostaria de ouvir. Ele me disse que certamente os clássicos de Muddy Waters. Foi o que trouxemos. E todos amaram.

 

Qual é a sua relação com a música dele hoje?

Para quem já viu meu pai vivo, ouvir a mim é uma tentativa de voltar àqueles tempos. Mas o ponto principal é fazer aqueles que só ouviram falar de Muddy Waters imaginar como seria se ele estivesse aqui.

 

Você foi criado pela sua mãe?

É, basicamente, sim. Porque meu pai era...'a hoochie coochie man', 'a rolling stone', sabe? Sempre que precisei de algo, ele esteve ali, nunca me deixou na mão. Mas, naturalmente, ele vivia o blues, ficava fora por tempos. E quando aparecia, precisava descansar, é claro.

 

E sua banda aqui no Brasil, como está?

Mud: A Igor Prado Blues Band é fantástica. Você pede e eles tocam - samba, jazz, swing e, definitivamente, eles sabem tocar o blues.

Igor: É um prazer enorme. Não apenas tocar, mas também o bate-papo, a troca de experiências com Mud.

Mud: Eles são meus amigos. Qualquer hora que for chamado, contanto que eu não tenha shows marcados, pode ter certeza que venho ao Brasil de novo.

 

 

SERVIÇO:

Mud Morganfield, Igor Prado Blues Band e Donny Nichilo

Bourbon Street - Rua dos Chanés, 127 - Moema

R$ 38 (serviço de manobrista: R$ 13)

Tel.: (11) 5095-6100

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