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Motown - O motor que nunca para

A casa de madeira que abrigou a maior e mais importante gravadora da música negra norte-americana, em Detroit (EUA), guarda a alma de uma geração que redirecionou os rumos da cultura pop mundial

Eduardo Vessoni, Especial para o Estado,

23 de março de 2013 | 07h00

DETROIT - A cena era quase sempre a mesma. Jovens negros evocavam o amor em letras de refrão fácil; grupos vocais de garotas elegantes com penteados sólidos soltavam sons de profundidade tocante quase sem fazer nenhum esforço; e passinhos bem ensaiados faziam os pés deslizarem sobre o chão e os braços flutuarem.

Em uma época em que garotos pediam uma nova chance para ter suas amadas de volta, o som da Motown ganhava o mundo na voz de artistas negros como Barrett Strong, Stevie Wonder, Marvin Gaye e grupos femininos como Supremes, Marvelettes e Vandellas. Hoje, as paredes históricas do estúdio Motown, localizado em Detroit, no distante e gelado nordeste dos Estados Unidos, abrigam o Motown Museum, espaço de exposição criado por Esther Gordy Edwards, irmã do fundador do local, o artista negro Berry Gordy. Desde que foi aberto em 1985, o local é uma das atrações mais visitadas do sudeste de Michigan.

O sobrado restaurado ainda guarda móveis da época, como o sofá do segundo andar reservado aos artistas notívagos, que viravam a noite em busca do melhor som, e a mesa onde eram feitas as seleções dos discos que seriam enviados para serem tocados nas rádios. Nos primeiros anos de vida da empresa, Berry Gordy e sua família também utilizaram a casa como residência, reforçando o clima familiar pelo qual o estúdio ficou conhecido.

A Motown Records se tornou o ícone de uma geração não só em território americano. Essa mina de ouro foi fundada em 1959 por Gordy, um artista americano de origem africana que, com apenas US$ 800 emprestados pela família, criava uma empresa que, em menos de dez anos de existência, se tornaria a maior gravadora independente de músicas em 45 rpm e ocuparia o Top 100 da Billboard com cinco posições conquistadas, entre elas o primeiro, segundo e terceiro lugares, em dezembro de 1968.

Nem mesmo os garotos de Liverpool deixaram de se render àquele som. Os Beatles chegaram a gravar sucessos nascidos em Detroit como Money, versão na voz de John Lennon lançada no álbum With the Beatles, de 1963, e Please, Mr. Postman, hit da banda The Marvelettes.

A história da gravadora é contada em uma extensa exposição de fotos da infância do fundador, gravações históricas no estúdio e imagens de bastidores, uma galeria com as primeiras capas de discos, os figurinos brilhantes e impecáveis dos grupos femininos; e objetos pessoais como o chapéu Fedora doado por Michael Jackson acompanhado de um cheque de US$ 125 mil.

Diante do alcance que o estúdio assumiu ao longo dos anos, a dimensão reduzida da exposição chega a frustrar o visitante mais eufórico, mas o que conta mesmo é a experiência de poder pisar sobre aquele assoalho desgastado carregado de detalhes da história da música.

Em uma das poucas salas abertas, o visitante assiste a um breve documentário com depoimentos de artistas e profissionais em um ambiente decorado com pôsteres de filmes produzidos pela empresa após sua mudança para Los Angeles, como O Ocaso da Estrela (Lady Sings the Blues, filme biográfico sobre a vida de Billie Holiday); Mahagony com Diana Ross como protagonista; e The Wiz com Michael Jackson e Diana Ross.

Em outra sala, a máquina autosserviço de guloseimas ainda guarda o chocolate Baby Ruth, cujas alavancas de compra eram tateadas por Stevie Wonder até a terceira posição. Esta era a marca preferida do cantor.

A sala de controle tem até hoje o chão de madeira danificado pelas batidas empolgadas dos pés de Berry Gordy durante as gravações dos futuros hits da Motown. Outro segredo revelado durante a visita é o buraco no teto do segundo andar, que servia como uma espécie de estúdio alternativo onde palmas, estalar de dedos e vozes eram captadas e inseridas, posteriormente, nas músicas gravadas no Estúdio A, o nome oficial da sala de gravação localizada no porão da casa. O estilo único dos artistas da Motown também tem espaço. Seus cantores eram conhecidos pelo guarda-roupa impecável, figurino discreto e coreografias bem ensaiadas que alucinavam as plateias.

A visita é uma viagem na qual fica impossível não conhecer ao menos uma meia dúzia de músicas que os divertidos guias costumam conduzir com os visitantes em um tour por fotografias, figurinos e capas de álbuns. "Todo mundo já ouviu, né?", pergunta um guia antes de puxar o coro. O ponto mais aguardado da visita é a antiga garagem transformada em estúdio e a cozinha que virou sala de controle de som. É ali que estão as instalações do antológico Studio A.

No início, a Motown realizava suas gravações em uma mesa de dois canais, um para os cantores e outro para os músicos. Porém, em 1965, os próprios engenheiros locais desenvolveram a mesa de oito canais, o que garantiu à casa o título de primeira gravadora a contar com tal tecnologia.

O equipamento dos anos 60 que gravou sucessos como Shop Around e Please, Mr. Postman ainda se encontra na Sala de Controle, partituras seguem ali como se estivessem à espera de uma nova gravação, assim como todos os instrumentos originais de 1959 a 1972 que ficam em exposição.

O museu abriga também exposições temporárias com temáticas relacionadas ao local, como a interessante mostra Girl Groups. O enfoque são grupos femininos como Supremes, Vandellas, Marvelettes e Velvelettes.

Berry queria música com boas histórias e acabou dando alma ao que, anos mais tarde, seria chamado de o Som da América Jovem, a soul music que saía do estúdio subterrâneo da casa azul e branca no subúrbio da cidade, a Hitsville USA. Sua lista de artistas dispensa descrições demoradas: Stevie Wonder, Marvin Gaye, Lionel Richie, Michael Jackson (Jackson 5), Diana Ross (The Supremes), Smokey Robinson (The Miracles) e Martha Reeves and the Vandellas. Enquanto Berry esteve no comando do Studio A, mais de 180 títulos encabeçaram a primeira posição na lista de hits, como My Girl, dos Temptations; Money (That’s What I Want), letra de Berry Gordy interpretada por Barrett Strong que se tornou o primeiro sucesso de Motown, nos anos 60; I Heard It Through The Grapevine, na voz de Marvin Gaye; e sucessos do Jackson 5, como I Want You Back e ABC.

Aos poucos, Berry criava um império que incluiria a construção de nove diferentes edifícios adquiridos a partir de 1961 para abrigar outras áreas da empresa, como os departamentos financeiro e de vendas. Sua experiência como funcionário da área de linha de montagem da automobilística Lincoln-Mercury serviu de inspiração para a alucinada rotina que ficaria famosa entre as quatro paredes do Studio A, ou o ‘ninho de cobras’, como era conhecido. Berry desenvolveu o controle de qualidade que permitia apenas o lançamento de produtos de alto nível. Reuniões semanais eram realizadas para a votação do material que seria enviado para divulgação e as instalações da Motown eram como uma fábrica de hits que funcionava 24 horas por dia.

A empresa só fecharia suas portas com a mudança definitiva da sede para Hollywood, na Califórnia, em 1972. A primeira assinatura de contrato foi com Smokey Robinson & The Miracles, em 1959. Porém, o primeiro hit foi protagonizado por Barrett Strong com a canção Money (That’s What I Want), que chegou a assumir a segunda posição na categoria R&B da Billboard, em 1960. Neste ano, o grupo The Miracles vendia o primeiro milhão da empresa com Shop Around.

Mais do que uma mudança de hábitos culturais, a Motown alterou as regras sociais em uma época em que os Estados Unidos ainda se dividiam com suas leis de segregação racial. Embora as primeiras capas dos álbuns de sucesso fossem ilustradas apenas com desenhos, a fim de evitar a exposição de artistas negros, suas músicas de sucesso não tinham cor, raça ou ideologia. Eram boas canções de batidas exclusivas que uniam brancos e negros onde quer que fossem tocadas.

O nome Motown é um trocadilho que Berry fez com o apelido pelo qual Detroit é conhecida (a cidade é chamada de ‘Motor City’ por ser considerada o berço do automobilismo americano) e pela substituição de ‘town’ por ‘city’ usada pelas pessoas com quem Berry convivia. Surgia então a contração Motor Town: a ‘cidade do motor’ (e também sinônimo da música negra local, o Motown Sound). Dizem que a música popular negra nunca mais foi a mesma, depois daqueles tons vibrantes de notas viscerais gravados nos porões da casa de madeira do subúrbio de Detroit. E quem passa pelas salas apertadas da Motown também não.

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