Motomix traz o punk indie de Art Brut

Uma banda que não se leva demasiado asério, mas que é suficientemente inteligente para ironizar todasos pressupostos que fazem a fama dos roqueiros contemporâneos:atitude fake, clichês de bad boys, letras "eruditas",temperamento adolescente. Alegremente ineptos, é como eles jáforam descritos. Há um sem-número de motivos para isso. Oprimeiro foi definido pelo próprio vocalista, Eddie Argos, oassimétrico líder da banda inglesa Art Brut, em entrevista háalguns dias. "Honestamente, eu não sei cantar. Sou o tipo de cara que quando canta ´Feliz Aniversário´, os cachorros da vizinhançadisparam a latir", diz Argos. Eles vêm do sul de Londres, de Bournemouth, e sãoatualmente um dos mais cultuados atos do punk indie do planeta.Lançaram seu primeiro single, "Formed a Band", em março de 2004,e desde então se tornaram uma ponte entre o restrito mundo dasgalerias de arte e museus (tocaram no aniversário da TateModern) e das guerrilla gigs. São sem dúvida a mais quenteatração do festival Motomix Art Music, que começa nesta quinta-feira etermina na madrugada de domingo, trazendo ainda os consagradosescoceses do Franz Ferdinand e os nova-iorquinos do Radio 4,entre outras atrações. Eddie concorda: ficaram famosos muito rapidamente.Apenas dois anos de carreira e já estão viajando pelo mundo todoa bordo de sua estrela. "Sou fascinado pela fama. Adoro asrevistas de celebridades, acho tudo aquilo muito divertido. Mastambém há um lado preguiçoso naquilo, muita besteira", diz Argos que ficou famoso por temperar músicas de apelo adolescente,como "Emily Kane" e "My Little Brother", com referênciassofisticadas da arte mundial, como a corrente que dá nome à suabanda - Art Brut é um termo cunhado por Jean Dubuffet paradesignar a arte dos mentalmente perturbados, loucos,esquizofrênicos. "É um tipo de arte pela qual sou fascinado. Estive emParis e vi mostras de art brut, e como não sei cantar, pensei emcriar uma banda cujos pressupostos fossem o de criar atmosferas,mais do que música, e 100% honesta", diz ele. As canções são uma delícia de refinado sarcasmo (que elenega, chama de "excesso de entusiasmo" confundido com ironia)."Emily Kane", por exemplo, é feita para uma ex-namoradinha deArgos. "Não a vejo há 10 anos, 9 meses, 3 semanas, 4 dias, 6horas, 13 minutos, 5 segundos", ele canta. Ainda assim, ele nãoa esquece, e faz a canção para que "garotos em ônibus escolarescantem seu nome" em coro. Eddie conseguiu. Garotos do mundo inteiro cantam aplenos pulmões os versos toscos e imitam seu estilo de cantofalado com forte sotaque britânico. Ele diz que sua apresentação não pode ser confundida como happening artístico dos anos 70, aqueles que os artistas dacontracultura faziam. "Eu adoraria. Mas não sei se é corretocomparar. É claro, gosto de bandas como a Plastic Ono Band, deYoko Ono, centrada num esquema de improvisação. Mas o nosso éainda só música, é muito básico, não é a mesma coisa." Mas Eddie Argos não está alheio às quedas-de-braço dointrigante mundo do rock inglês, muito pelo contrário. Outro dia ele alfinetou o garoto-problema mais amado do rock britânico, ocantor Pete Doherty, da banda Babyshambles (ex-Libertines). Eledisse: "Garotos, tomem cuidado com o crack. E tomem cuidado comPete Doherty, ele é um menino mau." Argos não é um intrigante, ele garante. "Eu só disseisso porque queria alertar para os abusos com drogas. Não gostodisso. Mas gosto das bandas, gostava dos Libertines. Tambémgosto de Rakes, Ciccone, Futureheads, Franz Ferdinand. Vai serum prazer tocar com eles no Brasil", afirmou. Ele falou também de arte moderna, seu hobby preferido."Fui ver outro dia uma exposição maravilhosa de Basquiat naÁustria. Gosto de Vang Gogh, dos impressionistas. Ando por aípelas galerias, sempre à cata de novos artistas. Vou ver seconsigo visitar algumas em São Paulo", disse.

Agencia Estado,

13 de setembro de 2006 | 18h42

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.