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Morto vivo

Enquanto Beatles e Pink Floyd repassam seu catálogo de forma digna, o legado de Jimi Hendrix continua intrigante. Afinal, por que continuam lançando ‘discos novos’ do guitarrista 42 anos depois de sua morte?

Bento Araújo, Especial para o Estado,

16 Fevereiro 2013 | 07h00

O dia 12 de fevereiro de 1968 foi muito especial para Jimi Hendrix. Sua banda Experience tocou pela primeira vez em Seattle. A data marcava uma volta à sua cidade natal depois de mais de cinco anos afastado. Após a avassaladora apresentação, Jimi foi para a casa de seu pai, Al Hendrix, onde passou o restante da noite conversando com familiares e amigos. A reunião foi amável e calorosa; o garoto era motivo de orgulho para toda a sua família.

Aquela data foi especial também para uma garotinha de 6 anos chamada Janie Hendrix. Irmã mais jovem do guitarrista, Janie é presidente de uma companhia chamada Experience Hendrix LLC. Assim que conheceu o irmão naquela noite, ouviu dele uma promessa: "Vou cuidar de você pra sempre". A garotinha respondeu que, quando crescesse, ela é que tomaria conta do irmão.

Um diálogo bucólico que faria sentido. Para o bem ou para o mal, as palavras daquela menina ganharam tom de profecia. Hoje, 45 anos depois, é Janie quem cuida do precioso legado musical de seu irmão guitarrista. Legado esse que se faz presente novamente em mais um de seus discos póstumos, People, Hell And Angels, lançado pela Sony Music.

People, Hell And Angels é, na verdade, um arremedo de demos tardias pós-Experience, registradas pelo guitarrista e por companheiros como Buddy Miles, Billy Cox, Mitch Mitchell e até Stephen Stills. Traçando um paralelo com uma alta dose de boa vontade, pode ser considerado uma espécie de continuação do disco anterior, lançado há três anos por Janie, Valleys Of Neptune, vendido como um "catadão" das derradeiras sessões de Hendrix com o Experience original. Como é de costume, People, Hell And Angels foi novamente restaurado pelo produtor Eddie Kramer e pelo arquivista John McDermott, parceiros de Janie na Experience Hendrix.

O que vale a pena. O primeiro single do novo álbum é Somewhere, lançado em formato digital, vinil e CD. Gravada em março de 1968, a faixa mostra Hendrix completamente à vontade em estúdio, tocando com Buddy Miles na bateria e o amigo Stephen Stills no baixo. Outro acerto do novo disco é Mojo Man, em que Hendrix fez questão de dar uma força ao grupo vocal Ghetto Fighters, formado pelos seus amigos do Harlem, Albert e Arthur Allen. O restante são solos e mais solos. Para quem toca, ou se contenta em ser apenas mais um entusiasta das seis cordas, o disco satisfaz. O pecado é ter mais solos do que canções consistentes.

Desde 1995, quando era liderada por Al Hendrix e adquiriu o direito de manusear o catálogo do guitarrista, a Experience Hendrix vem lutando para controlar tudo o que é lançado envolvendo seu ilustre protagonista: discos, DVDs, relançamentos de álbuns originais e póstumos, excursões de bandas e artistas tocando seu repertório e muitas outras bugigangas. Uma rápida passada pelo catálogo da empresa impulsiona uma constatação, a de que Hendrix foi explorado tanto em vida quanto em morte, seja por empresários espertalhões, ou até pela própria família.

A primeira safra de discos póstumos de Hendrix surgiu logo após a sua morte, em 1970. No ano seguinte foi lançado The Cry Of Love, contando com excelentes músicas que o guitarrista vinha trabalhando na época de sua morte, como Ezy Rider, Freedom e Angel. Eddie Kramer, produtor de confiança de Hendrix, continuou trabalhando em material póstumo do guitarrista naquela primeira década de 1970, quando álbuns como a trilha sonora do filme Rainbow Bridge, War Heroes e Loose Ends foram lançados.

A qualidade do material ia ficando cada vez mais escassa e sem o ímpeto de outrora. Foi assim que, em 1974, Kramer abandonou o projeto. Para seu lugar a Warner/Reprise contratou o produtor Alan Douglas, amigo de confiança de Miles Davis. Hendrix havia dito a Douglas que sua presença era extremamente necessária e crucial, pois ele é quem cuidaria de suas fitas de rolo com horas e mais horas de gravações, solos e jams.

Douglas começou a pisar na bola a partir de 1975, quando cuidou do lançamento de Crash Landing, onde, na maior tranquilidade, limou trechos das gravações originais e contratou músicos de estúdio para reparar alguns desses trechos "impróprios" das músicas. Midnight Lighting e Nine To The Universe vieram na sequência, porém novamente com faixas mutiladas por Douglas.

Mania de gravar tudo. Já a abordagem da Experience Hendrix parece ser completamente distinta. Para eles, o que conta é a autenticidade do projeto. O primeiro lançamento da família, em 1997, pareceu correto e apropriado. First Rays Of The New Rising Sun seria o disco que Hendrix estava trabalhando quando morreu. Por intermédio de anotações do próprio, o trabalho final supostamente ficou bem próximo do que "poderia ter sido".

Dos males o menor, pelo menos parece que existe alguma curadoria amparando esse precioso material escavado pela Experience Hendrix. São mais de 1.500 horas de gravação arquivadas rigorosamente num apartamento com temperatura controlada. Jimi tinha a obsessiva mania de praticamente gravar tudo. Ao contrário dos Beatles ou de Bob Dylan, era dono das próprias matrizes, podia gravá-las em qualquer estúdio independente e depois levá-las para casa.

O lançamento de parte desse material visa a reparar os erros do passado, cometidos em nome de Jimi, inclusive. Por outro lado, estaria Janie Hendrix minando o legado de seu talentoso irmão ao lançar álbuns de jams e demos deixadas de lado como o "novo e imperdível álbum inédito de Jimi Hendrix"? Tudo o que você precisa, de fato, são dos quatro discos clássicos lançados por Jimi Hendrix em vida. No mais, é mera curiosidade.

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