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Morto em 1997, Jeff Buckley ganha CD produzido pela mãe, 'You and I'

Mary Guibert assumiu o papel de curadora de sua obra, ao lançar, em 1998, o CD duplo Sketches

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2016 | 04h00

Com apenas um disco oficialmente lançado em vida, Grace (1994), Jeff Buckley (1966-1997), que morreu afogado, aos 30 anos, no rio Wolf, afluente do Mississippi, já concorre com o pai, o também cantor Tim Buckley (1947-1975), em número de registros. Tim, cantor folk morto de uma overdose de heroína e morfina, aos 28 anos, deixou nove discos como legado. Os álbuns póstumos do filho estão perto disso, desde que sua mãe, Mary Guibert, assumiu o papel de curadora de sua obra, ao lançar, em 1998, o CD duplo Sketches (For My Sweetheart the Drunk). O mais recente tributo ao filho Jeff Buckley acaba de sair no Brasil, You and I, pela Sony Music. É um breve, mas denso, resumo da vida trágica desse James Dean do rock.

São dez canções que definem o perfil um poeta melancólico com grandes ambições literárias, duas delas compostas por ele (Grace e Dream of You and I) e oito covers – entre outros, de Bob Dylan (Just Like a Woman), Sly and the Family Stone (Everyday People), Led Zeppelin (Night Flight) e The Smiths (The Boy with the Torn in His Side e I Know it’s Over). Cover não é uma palavra que defina com exatidão o que Buckley fazia com a música dos outros. De Edith Piaf a Nina Simone, passando por Van Morrison e Elvis Costello, ele recriou de um modo muito particular canções que poucos arriscariam interpretar depois de seus autores -- quem ousaria, por exemplo, cantar If You Knew, de Nina Simone, como ela fazia no Sin-é, o pequeno café nova-iorquino onde sua carreira começou?

Como no CD duplo Live at Sin-é (lançamento póstumo de 2003), Buckley enfrenta sozinho seus demônios interiores em You and I, cantando e tocando sua guitarra nas solitárias sessões de gravação no estúdio Shelter Island. Não há a grandiloquência do coral religioso de Corpus Christi Carol, recriação de Benjamin Britten em Grace, seu disco seminal, mas Grace ganha uma dimensão ainda mais dramática na gravação de You and I, considerando que esse registro, de fevereiro de 1993, dispensa efeitos instrumentais para se concentrar no vocal – e é impossível não pensar no músico paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan (1948-1997), seu modelo, coincidentemente morto quatro meses depois de Buckley, quando ele canta “minha hora chegou, não estou com medo de morrer”.

 

Há sempre um sentimento de urgência, e não só em Grace, que permite detectar traços premonitórios em cada canção escolhida de seu repertório – aí incluída uma composta pelo ídolo Nusrat Fateh Ali Khan, Yeh Jo Halka Halka Saroor Hai, incluída no CD Live at Sin-é, até hoje seu melhor disco póstumo – ou, pelo menos, o mais revelador por sua seleção. Nenhum outro, além de Buckley, conseguiria cantar em urdu um hino de devoção da fé islâmica no canto escuro de um café nova-iorquino, o Sin-é, que nem palco tinha. Foi esse espírito cosmopolita que fez o cantor enfrentar tanto o urdu como o francês (cantando, em 1995, um sucesso de Edith Piaf no Olympia, Je n’en Connais pas La Fin). Ou ousar fazer o registro definitivo de Hallelujah, de Leonard Cohen, ainda mais comovente que o do próprio compositor.

A tessitura de um tenor com uma extensão vocal comparável ao lírico Jussi Björling fez de Jeff Buckley um intérprete tão refinado que grandes produtores (Hal Willner, entre eles) iam ao Sin-é apenas para ouvir o garoto. Andy Wallace, outro produtor, dizia dele que tinha uma memória musical capaz tanto de mimetizar solos de Mingus como as letras quilométricas de Morrisey – como a de I Know it’s Over, última faixa do CD agora lançado, que, na interpretação de Buckley, soa como autobiografia precoce de um solitário consciente da finitude de sua beleza e juventude.

Pós-beat, ele prestou homenagem a Jack Kerouac no álbum coletivo Angel Mine (1997), tocando guitarra, cítara e sax ao lado do Morphine e cantores como Eddie Veder e Patti Smith. Jeff Buckley tinha, enfim, vocação para o experimental. Talvez seu desajuste se explique pela problemática relação com o pai Tim, músico também ecléticol mas mentalmente desequilibrado, que o abandonou aos seis meses e só o reencontrou oito anos depois. Muitas da canções de Jeff falam dessa relação inexistente. Ele não compareceu ao funeral do pai. Prestou seu tributo cantando I Never Asked to be Your Mountain. Um réquiem e, ao mesmo tempo, um acerto de contas.

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