Soeren Stache/AP
Soeren Stache/AP

Morto aos 84 anos, Harry Kupfer reinventou a forma de se interpretar ópera

Alemão teve sua trajetória profissional bastante associada à criação do compositor Richard Wagner

João Luiz Sampaio, Especial para o Estado

01 de janeiro de 2020 | 20h34

Em março de 1979, o jornal The New York Times trazia em sua seção cultural a manchete “Wagner em um novo e audacioso estilo”. O crítico Joseph Horowitz retornara de Bayreuth, onde anualmente se realiza um festival dedicado a óperas do compositor. E, após assistir a outros espetáculos, anotava, escrevendo sobre O Navio Fantasma dirigido por Harry Kupfer: “teatral, com realismo e riqueza de detalhes; moldado por uma interpretação racional que explicitamente busca modernizar os temas à sua frente”.

É uma definição concisa e precisa do trabalho de Kupfer, que morreu na terça-feira, 31, aos 84 anos, após uma longa doença, segundo sua agência de comunicação. O diretor começou sua carreira em Stralsund, na Alemanha Oriental. Passou por Weimar e Dresden e, em 1981, assumiu a Komische Oper, em Berlim, onde ficou durante 21 anos.

O Navio Fantasma a que se referia Horowitz estreou em 1978. Ao lado do Anel do Nibelungo encenado dois anos antes por Patrice Chereau, a montagem propunha um outro olhar para a obra de Wagner. O francês imaginou a tetralogia, ambientada em tempos mitológicos, como um comentário sobre as relações sociais do século 19. E Kupfer fez da história de redenção por amor do Navio um retrato de personagens fraturadas, entendidas à luz das ideias de Sigmund Freud. Dez anos mais tarde, ele próprio dirigiria o Anel, ao lado do maestro Daniel Barenboim, que se tornaria um de seus principais colaboradores nas décadas seguintes.

Kupfer foi aluno de Walter Felsenstein, cuja trajetória remonta às experimentações que, no início do século 20, cunhara o termo “regietheater”, um teatro no qual a interpretação do diretor torna-se fundamental, relendo à luz de novas ideias e épocas as questões propostas pelo compositor. Foi um movimento decisivo na história da interpretação da ópera no século 20 e não é exagero dizer que Kupfer pertencia, assim, a uma geração que, do barroco à ópera contemporânea, ensinou o público a ver a ópera de outra forma.

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