Morte e vida do compositor austríaco Gustav Mahler

Nathalie Stutzmann fala da 'Sinfonia nº 2' de Mahler, que abre o ano da Osesp na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio,

05 de março de 2008 | 16h04

E se houvesse uma música que, em poucos minutos, conseguisse condensar toda a emoção humana, todas as nossas contradições, a crença e o desencanto, o amor e sua impossibilidade, a dor e a mais sublime das sensações? Para a contralto francesa Nathalie Stutzmann essa música existe. Está espalhada pela obra do compositor Gustav Mahler, inclusive em sua Sinfonia nº 2 - Ressurreição, que abre nesta quinta, 6, a temporada da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Nathalie, uma das mais importantes cantoras da atualidade, e a soprano americana Heidy Grant Murphy são as solistas, regidas pelo maestro John Neschling, de volta à obra com que, nove anos atrás, inaugurou a Sala São Paulo. Ouça trecho da Sinfonia n.º 2 de Mahler, com regência de Pierre Boulez e Filarmônica de Viena   "Eu me lembro da primeira vez que ouvi Mahler, na minha juventude", conta ela ao Estado na manhã de terça. "Era o último movimento da terceira sinfonia e, nossa, fiquei dias com aquela sensação na cabeça, aquele atordoamento. Anos depois, participei da interpretação da peça e, ali, sentada em frente da orquestra, sendo envolvida tão de perto por aquela música, que experiência. Após ouvir Mahler fiquei com uma sensação até mesmo de certo desespero: ‘Nossa, já imaginou se eu passasse a vida inteira sem ouvir isso?’ Tem gente que faz isso, mas, depois que você experimenta..." Ela abre os braços, balança na cadeira do camarim e sorri. "Bem, disse tudo isso mas ao mesmo tempo sei que nada disso diz muita coisa..." O começo, para se entender Mahler, está no período em que ele viveu. Na passagem do século 19 para o século 20, em um mundo que se transformava rapidamente, ele fez com sua música a transição do fim do romantismo para o surgimento da vanguarda. Hoje, em retrospecto, entendemos essa passagem como a evolução da linguagem em direção à exploração dos sentimentos mais escondidos do homem - aparecia o Expressionismo, cortesia, entre outras coisas, da psicanálise e do fervente cenário intelectual da Viena das primeiras décadas do início do século 20. Isso, claro, depois que muito tempo se passou, qualquer enciclopédia vai dizer. Agora, já imaginou como foi viver aquele período, como seria a mente de um compositor que absorve toda a tradição ao mesmo tempo em que aponta, sem saber ao certo, para uma nova música, preso entre dois mundos e, ainda assim, desesperado para encontrar voz própria?  A música de Mahler serve de pista. Nela convive toda sorte de dualidades e contradições. O amor é a redenção, mas também o caminho do sofrimento; o homem sente a natureza, mas ela o oprime, como disse um autor da época; a morte é a certeza da vida, mas a vida é o que torna a morte certa; a arte revela o homem perante o mundo, mas é a ela que se deve voltar também no momento em que, cansado, o homem se volta a si mesmo; em um turbilhão de transformações, o homem sente profundamente o mundo à sua volta mas, no final, o que fica é a certeza do desapego, do não pertencimento; a crença na reencarnação, na mística divina, vira resignação perante o desconhecido. "Mahler, como poucos, se deixou absorver pelas questões que circulam o viver, era totalmente fascinado pelos mistérios da vida. Vem daí, de alguma forma, a representação de tudo que é humano em sua música", diz Nathalie.  Em meio a esse universo, há várias fases, e preocupações, na obra de Mahler. Como encaixar a Sinfonia nº 2 nesse processo? "Como seguir vivendo, como encontrar sentido na vida? A essas perguntas, Mahler responde aqui com a presença divina, dando vazão a toda a sua mística e apostando na reencarnação, em uma vida após a vida." Em determinada parte do último movimento, diz o texto: "Com asas, que ganhei/devo soar em direção ao alto/ devo morrer, para viver!" "Sua preocupação aqui é com a alma e seus destinos e, ao mesmo tempo, a música do final da sinfonia faz com que, ao ouvi-la, não se consiga pensar em nada que não em paz, amor. Você deixa de acreditar na morte. Apenas coisas boas acontecem, sempre." Musicalmente, é esse o embate proposto também pela partitura. Mahler descreve "gritos de desespero", "vozes que nos chamam desde o mundo selvagem", adia a todo momento a conclusão, a certeza. Mais do que isso, diz Nathalie, distribui o texto de maneira a sugerir essa dualidade. "O coro e a soprano solista soam como os anjos, como os guardiães do céu que nos recebem; a minha voz, de contralto, mais grave, serve como que para relembrar o humano, o sofrimento, e a busca por um sentido que ainda não se conhece." Agora, Wagner Nathalie fala com desenvoltura sobre Mahler. É uma mahleriana convicta, diz, fã mesmo, e portanto acha difícil escolher entre seus ciclos de canções aqueles que mais a interessam. "Com certeza, o Rückert Lieder e o Kindertotenlieder são obras de que gosto demais", diz. E a Canção da Terra? Ela começa a cantar - "O nevoeiro do outono cobre de azul o lago/ as lâminas de gelo ainda cobrem a grama" - e emenda, rindo: "É lindo demais, tudo bem, pode colocar na minha lista também." Ela conta que, em 2011, aniversário de nascimento do compositor, já tem um ano cheio, o que a deixa contente. Ficaria mais ainda se conseguisse, até lá, gravar o Rückert e o Kindertotenlieder. Não há ainda nenhum contrato assinado, mas ela acredita que algum concerto de 2011 possa ser gravado ao vivo. E, hipoteticamente falando, se ela pudesse escolher, que maestro gostaria de ter ao seu lado no empreendimento? "É uma pergunta traiçoeira. Já gravei Mahler com Seiji Ozawa, já cantei com Eiji Oue e muitos outros. Acho que o importante é que ele tenha a sensibilidade de perceber os sentidos dessa música, esteja aberto a eles, que a sinta profundamente. O resto, conversamos."  Especialista no repertório barroco e de canções, ela sempre evitou a ópera, diz que não gosta da maneira como são feitas as produções e acha que sua voz se presta melhor a outros repertórios. Continua assim? "Sim, mas com ressalvas. Vou fazer este ano O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, com Simon Rattle, em Berlim, e depois em Aix-en-Provence e Salzburgo. Depois, volto às canções com uma série de recitais dedicados a Schumann. Há também mais Mahler e alguns concertos com obras de Bach. Ah, claro, ia esquecendo. Faço também O Morcego, a opereta de Strauss." Ela começa a cantar um trecho. "Vai ser bom, pela primeira vez, fazer as pessoas rirem em vez de levá-las às lágrimas."   Osesp. Sala São Paulo (1.484 lugs.). Pr. Júlio Prestes, s/n.º, 3223-3966. Quinta, 6, e sexta,7, às 21h; sáb., 16h30. R$ 28 a R$ 98

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