Fabiana Stig
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Morte de Euclides da Cunha é transformada na ópera 'Piedade'

'Piedade', de João Guilherme Ripper, ganha estreia paulistana nesta sexta e sábado, dias 20 e 21, em apresentações em versão de concerto no Teatro Municipal

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

20 Julho 2018 | 06h00

Uma tragédia grega, uma trama tecida pelos deuses. Foi assim que o cronista João do Rio definiu a morte do escritor Euclides da Cunha – história de amor, ciúmes, vingança e traição, ingredientes que fizeram o compositor João Guilherme Ripper transformá-la em ópera, Piedade, que ganha estreia paulistana nesta sexta e sábado, dias 20 e 21, em apresentações em versão de concerto no Teatro Municipal.

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“Gosto de transformar personagens reais em personagens de ópera”, diz Ripper, que já havia escrito Domitila a partir da vida da Marquesa de Santos. “Naturalmente, isso impõe um limite ético na condução do drama, pois o ponto de partida é a existência real e documentada. Mas o que me interessa é o que esses personagens têm de humano, suas personalidades, contradições, sentimentos e emoções que marcam suas vidas e a dos outros.”

Euclides da Cunha entrou para a história ao escrever o livro Os Sertões, um dos clássicos da escrita nacional, sobre a Guerra de Canudos, que acompanhou como enviado especial do Estado. A tragédia de Piedade, no entanto, também ficaria associada a sua biografia: em 1909, foi até a casa em que vivia o militar Dilermando de Assis, com quem sua mulher Anna mantinha um caso. Tentou matá-lo, mas acabou morto. 

Ripper põe no palco os três personagens: Euclides, Anna e Dilermando, vividos pelo barítono Homero Velho, a soprano Laura Pisani e o tenor Eric Herrero. Mas evita o que chama de “ópera-documentário”. Sua Piedade, de 2012, prefere um olhar poético, dividida em quatro cenas: na primeira, Euclides escreve Os Sertões; na segunda, Anna conhece Dilermando; na terceira, escritor e soldado se encontram; a quarta foi batizada de Tragédia.

“Ao escrever o texto, tive o cuidado de não jogar sobre qualquer um deles a culpa pelos acontecimentos”, afirma o compositor. “Dias depois da primeira récita fui surpreendido por um e-mail de Dirce de Assis, filha do segundo casamento de Dilermando, agradecendo a forma cuidadosa com que tratei os personagens, todos vítimas de uma circunstância infeliz.”

Poemas do escritor e jornalista funcionam bem para abrir cada uma das cenas do  espetáculo

Ao fim de um dos ensaios de Piedade, o maestro Luiz Fernando Malheiro voltou-se ao compositor João Guilherme Ripper e perguntou: o que estava acontecendo na sua vida enquanto você escrevia a ópera? “É uma obra muito forte, uma grande ópera, verdadeiramente inspirada no modo como narra musicalmente e constrói os personagens”, explica o regente, que é diretor do Festival Amazonas de Ópera. 

Para Malheiro, um dos aspectos que mais chamam a atenção é a coesão do drama, o senso de arquitetura e desenvolvimento da história – o que levou o maestro a recusar a presença de um intervalo. “Há um discurso musical único, e ainda assim variado internamente, que perpassa toda a narrativa e que precisa ser mantido por conta de sua fluência”, diz ainda. 

Um dos elementos a dar essa coesão é a presença do violão, que nas récitas de São Paulo estará a cargo de Edelton Gloeden. “Piedade é uma ópera brasileira e não poderia faltar esse instrumento tão marcante para a nossa música”, conta Ripper. “A última cena começa com Dilermando, violão ao colo, cantando a canção que acabou de compor para Anna. É uma ária seresteira cujo tema vai ser, logo em seguida, retomado pela orquestra para acompanhar as brincadeiras apaixonadas dos dois amantes. Depois de escrever a ária, decidi criar Prólogos para Violão Solo e utilizar poemas de Euclides da Cunha para abrir cada uma das cenas.”

Para Malheiro, o uso que Ripper faz do instrumento funciona muito bem dramaticamente. “E a sonoridade melancólica do violão já nos insere no drama das relações humanas”, conclui o regente. 

PIEDADE 

Teatro Municipal.

Praça Ramos de Azevedo, s/nº, tel. 3397-0327.  6ª (20), às 20h; sáb. (21), às 16h30.  

R$ 12 a R$ 40. 

 

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