Alex Silva| Estadão
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Morrissey mostra 'sangue latino' em belo retorno a São Paulo

Apresentação contou com alguns hits do Smiths e muito do novo disco do cantor britânico, que volta para novo show no sábado, 21

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2015 | 08h50

Morrissey já estava no palco por quase duas horas. Tinha cantado música do Smiths, banda com a qual se consagrou nos anos 1980 e para a qual jurou nunca mais voltar. Já havia trocado algumas (poucas) palavras com o público que ignorava as cadeiras do Teatro Renault, em São Paulo, e permanecia em pé. Mas nada se comparou ao furor causado pelo ídolo britânico - o maior deles vivos, de acordo com o jornal inglês The Guardian sacramentou em 1999 - naquele momento. Eram os versos finais de Let Me Kiss You, canção do disco solo dele, You Are The Quarry, de 2004. Ele cantava com aquele desespero grave, assombroso e tenebroso: "My heart is open to you" ("meu coração está aberto para você", em tradução para português). Quando, como uma espécie de Clark Kent às pressas para se tornar Superman, arrancou a camisa de botões que usava. Exibiu um físico razoável para alguém da sua idade. Aos 56 anos, arrancou suspiros dignos da beleza de um Alain Delon, ou outro desses galãs de Hollywood que surgiram depois. Arremessou a peça para o público, um punhado de mãos desesperadas brigou pelo item, e deixou o palco. 

Foi o fim da apresentação mais "latin lover" de Morrissey por terras brasileiras, realizada na noite desta terça-feira, 17. Com nova banda, cujos sotaques mostrados por eles ao se apresentarem indicava as origens latinas, hispânicas e italianas. Houve espaço para guitarras espanholas e acordeom nos arranjos dessa nova turnê trazida por Moz ao Brasil, dois anos depois de ter cancelado as performances por aqui por culpa de uma intoxicação alimentar. Speedway ganhou alguns versos cantados em espanhol, veja só, pelo tecladista da banda. 

Bonito de ver um artista que, por mais que às vezes se perca dentro do seu próprio ego, é capaz de se reinventar. Lançou, no ano passado, o bonito e politizado World Peace Is None of Your Business, mas que infelizmente se tornou uma raridade depois que o britânico rompeu com a gravadora por sentir que não estava recebendo o tratamento que merecia. É deste disco grande parte das canções apresentadas no palco. Dele, por exemplo, vieram: a faixa-título, Oboe Concerto, a já citada Kiss Me a Lot, The Bullfighter Dies e a tristonha Earth Is The Loneliest Planet

As duas últimas, aliás, marcaram momentos de integração entre Moz e o público. "Nunca é tarde demais para cantar sobre a maior vergonha da Espanha", disse ele antes de The Bullfighter Dies, canção que narra uma tourada na qual quem perde é o homem, não o animal.  Antes de Earth Is The Loneliest Planet, tentou discursar sobre a experiência de dirigir por São Paulo. Era tanta interação da plateia que, em algum momento, ele simplesmente desistiu de continuar a história. "A Terra é o planeta mais solitário de todos", anunciou, por fim. 

Não faltaram elogios aos brasileiros também. "Vocês são um povo muito bonito", disse ele, a certa altura. Em outro momento, esbravejou: "Lembrem-se que foram as pessoas educadas, aquelas que frequentaram universidades, que arruinaram o mundo". Em Meat Is Murder, Moz não falou, mas o telão posicionado no fundo do palco disse mais do que ele poderia colocar em palavras. Cenas de animais sofrendo aos serem abatidos ganhavam uma macabra trilha sonora de Smiths. Ao fim do vídeo, as seguintes frases surgiram no telão: "Qual é a sua desculpa agora? Carne é assassinato", em português. 

Smiths esteve no repertório, mas de maneira tímida. Dos hits, mesmo, vieram apenas How Soon Is Know? e Charming Man. As outras, caso de Meat is Murder e Queen is Dead são mais icônicas para o próprio Morrissey do que para os fãs dele. 

É verdade que, na parte final da apresentação, o britânico escorregou na escolha de repertório. Kiss Me a Lot foi seguida da morosa Meat is Murder, a solitária Everyday is Like Sunday precedeu a lenta Oboe Concerto, a bela You Have Killed Me foi assassinada por I Will See You In Far Off Places. Até o bis sofreu com falta de entusiasmo. Em I'm Throwing My Arms Around Paris, durante a execução da qual foi exibida uma bandeira da França no telão, Morrissey preferiu que seus versos enviassem seus sentimentos às vítimas do massacre ocorrido na capital francesa na última sexta-feira, 13. Queen is Dead, responsável por encerrar as quase duas horas de apresentação, trouxe a imagem da rainha Elizabeth II  para a tela. 

Morrissey, contudo, ainda sabe como poucos cantar a solidão. Não como aquelas canções de soul ardidas, hoje emuladas por Adele e sua trupe de seguidores, muito menos como aqueles rocks cheios de dor de cotovelo. O britânico é mestre em encontrar aqueles cantos escuros, nos quais escondemos os sentimentos que mais queremos evitar: medo, solidão, desespero. A voz aveludada, hoje mais rouca do que nunca, parece descobrir os caminhos por entre os cômodos dos corações de cada um. Ela vagueia como uma névoa gélida e encontra o que procura. Inevitável que, ao fim de uma performance dele, alguns corações não saiam quebrados  depois de um show de Morrissey. 

Nenhum, contudo, estará em tantos pedaços quanto aquela camisa arremessada pelo britânico. 

Morrissey volta a se apresentar em São Paulo neste sábado, 21, no Citibank Hall. 

 

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