Artur de Leos/ Divulgação
Artur de Leos/ Divulgação

Morrissey encanta com seus 'ais' na estreia da turnê pelo Brasil

O 'Estado' acompanhou primeiro show da série no País em Belo Horizonte, nesta quarta-feira

Roberto Nascimento - O Estado de S. Paulo,

09 de março de 2012 | 11h15

BELO HORIZONTE - Com as peças de um melancólico cancioneiro já engrenadas, lá pelos meados do show, Morrissey agradece à plateia e proclama: “Vocês me fazem feliz”. Quem não está inteiramente sob o encanto do crooner mais reverenciado da história do indie rock pode achar que é piada, afinal Morrissey acaba de navegar por algumas pepitas de um repertório que exprime de forma tão direta e elegante a angústia e a incerteza vividas em tempestades adolescentes.

O clima está reflexivo. A voz grave e seca, distante do lirismo serpentino declamado alguns segundos antes, também não ajuda: quando o inglês Morrissey agradece, suas palavras têm o calor humano de um caixa eletrônico.

 

Mas as duas ou três gerações de fãs que compareceram ao Chevrolet Hall, em Belo Horizonte, nesta quarta-feira à noite para o primeiro show da turnê de Morrissey pelo Brasil, que passa ainda pelo Rio hoje e por São Paulo, no domingo, em show com ingressos já esgotados, não estavam atrás de refrões ensolarados, e sim da melancolia comunal que a música meio amarga (mais cacau que açúcar) do ex-líder dos Smiths proporciona.

 

E semear melancolia, impulsionado pela eletricidade de uma banda de rock, ao passo que a tristeza britânica também balance, é o que Morrissey, aos 52 anos, ainda faz como ninguém.

 

Sua voz, mais encorpada com o passar dos anos, está excelente. Desliza macia pelas melodias ondulantes que moldam a sua poesia. Exprime com firmeza a catarse dos refrões. Isto é um feito notável por duas razões.

 

Primeiro, porque Morrissey poderia tranquilamente se acomodar no status divino que ocupa no panteão do rock e deixar de fazer bons discos como Years of Refusal, de 2009 (o grosso de suas set lists é feita de canções lançadas em carreira solo), e boas apresentações como a de anteontem (para se ter uma noção do seu moral na Inglaterra, o cantor foi escalado para encabeçar o megafestival Glastonbury ao lado do U2, no ano passado).

 

Segundo, porque há uma técnica considerável em sua forma de cantar, e Morrissey navega por seu cancioneiro com destreza. Há também uma teatralidade sutil que acompanha esta técnica nos momentos mais emotivos: vez ou outra, suas melodias lembram composições da Broadway, com zigue-zagues melódicos que são incomuns no cenário independente atual (certamente porque, com a derrocada das gravadoras e a ascensão da produção caseira, não é mais necessário ter talento nos moldes clássicos, do tipo que impressiona empresários da EMI, para lançar um disco).

 

O narcisismo inerente à interpretação desta ópera rock também é notável, e o equilíbrio entre os floreios e o sólido porte de leão de chácara dá uma ambiguidade instigante à sua persona.

 

 

Isto tornou as discussões sobre sua preferência sexual uma obsessão entre os fãs, principalmente depois que o cantor lançou, em 2006, a sua You Have Killed Me, a segunda do show desta quarta-feira, em que canta “nada entrou em mim até o momento em que você chegou com a chave”.

 

O ápice do show da quarta-feira foi Everyday Is Like Sunday, em que Morrissey entoa o glorioso refrão com os braços abertos e um olhar de suplício e misericórdia que lembra Jesus crucificado.

 

Mesmo assim, a progressão do show deixa a desejar. Isto não é culpa da performance de Morrissey em si, e sim de sua escolha de uma banda excessivamente profissional, que executa suas canções perfeitamente, minando a personalidade das apresentações, deixando saudade da interação levemente desengonçada dos discos dos Smiths.

 

Quando o show ganha ímpeto é porque os arranjos dão dinâmica à banda, como acontece no fim de Meat Is Murder, em que a canção envereda para um improviso coletivo mais abrangente, com sintetizadores e caos rítmico proferidos pela banda.

 

O ativismo também esteve presente, não só em canções como esta, que fala de vegetarianismo, mas no figurino.

Pouco depois das dez horas da noite, Morrissey subiu ao palco com sua camisa desabotoada (que tiraria e jogaria para a plateia depois) e os músicos, com camisas vermelhas que diziam “Assad is Shit”, referindo-se a Bashar al-Assad, presidente da Síria. 

 

Setlist:

 

First of the Gang To Die

You Have Killed Me

Black Cloud

When Last I Spoke to Carol

Alma Matters

Still Ill

Everyday Is Like Sunday

Speedway

You’re the One For Me, Fatty

I Will See You in Far-Off Places

Meat Is Murder

Ouija Board, Ouija Board

I Know It’s Over

Let Me Kiss You

There is a Light that Never Goes Out

I’m Throwing My Arms Around Paris

Please, Please, Please Let Me Get What I Want

How Soon Is Now?

One Day Goodbye Will Be Farewell 

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