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Morre Régis Duprat, pesquisador da música brasileira colonial

Historiador e musicólogo construiu uma luz própria poderosa no difícil campo da pesquisa musical primária no Brasil

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

20 de dezembro de 2021 | 11h02

A morte do historiador e musicólogo Régis Duprat no domingo, 19, aos 91 anos, em São Paulo, torna nossa vida musical um pouco mais pobre. Régis, irmão mais velho de Rogério Duprat, construiu uma luz própria poderosa no difícil campo da pesquisa musical primária no Brasil.

Seu trabalho sistemático em relação à música colonial levou-o a descobertas importantes, que modificaram o modo como enxergamos nosso passado artístico. Em 1958, descobriu o àquela altura nosso manuscrito musical mais antigo, o Recitativo e Ária, de 1759, de compositor baiano anônimo. Foi recompensado pela dedicação à pesquisa primária 22 anos depois com a descoberta de outro manuscrito musical de 1730, também anônimo, que encontrou no município paulista de Mogi das Cruzes.

Possivelmente seu maior feito foi o resgate da obra do mestre-de-capela da Matriz e Sé de São Paulo colonial André da Silva Gomes. Estabeleceu o catálogo de suas obras e edição das partituras, além de gravações. Sua ação estendeu-se ainda à recuperação e catalogação da Coleção Curt Lange. Também foi o coordenador da recuperação e catalogação da Coleção Francisco Curt Lange. Alemão, Lange fixou-se em Montevidéu aos 20 anos, em 1923. Naturalizou-se uruguaio e foi um pioneiro na pesquisa da música na América Latina até sua morte, em 1997, sobretudo a do cone sul.

Duprat também foi personagem-chave do Manifesto Música Nova, de 1963, ao lado do irmão Rogério, de Gilberto Mendes e Willy Corrêa de Oliveira, entre outros. Tocou viola na Orquestra de Câmara de Sâo Paulo, fundada por um de seus mestres, Olivier Toni. Isso propiciou-lhe a mais saudável das posturas: a de alguém de sólida formação musical capaz de olhar com paixão tanto nosso passado quanto nosso presente e futuro artístico. Régis também ligou-se ao grupo concretista dos irmãos Campos e Dècio Pignatari, então almas gêmeas dos vanguardistas músicos e compositores.

Sua formação contribuiu para muitas realizações em vários campos da pesquisa e da música viva. Estudou viola com Johannes Oelsner, do Quarteto de Cordas do Teatro Municipal de Sâo Paulo; contraponto e composição com Toni e também com Cláudio Santoro. No Departamento de História da USP, estudou com Sérgio Buarque de Holanda, entre outros. Da História pulou para a Sociologia, como aluno de Florestan Fernandes; antropologia com Egon Schaden; e no Departamento de Filosofia, estudou estética com Gilda de Mello e Souza. Em Paris estudou musicologia com Jacques Chailley e História com Fernand Braudel.

De volta ao Brasil, integrou o grupo liderado por Darcy Ribeiro que em 1963 revolucionou o conceito de universidade no Brasil criando a Universidade de Brasília.  Também foi professor na USP e na Unesp.

Fiz várias entrevistas com Régis, desde os anos 1970. Sempre me impactei com sua serenidade, voz pausada e raciocínios não só certeiros e inteligentes, mas sobretudo rigorosos em relação aos seus múltiplos objetos de estudo e prática no campo musical.

Deixou-nos, enfim, um dos maiores pensadores da música no país, nos últimos 70 anos. Sempre que se pensar em música brasileira, do período colonial à música contemporânea, músicos e pesquisadores terão necessariamente de passar por suas pesquisas e obras fundamentais. Como Música no Brasil Colonial (Eduspe, vol. 1 de 1999, vol. 2 de 2019), Acervo de Manuscritos Musicais vol. 3 - Compositores Anônimos (Ed. EFMG, 2002); e Música na Sé de São Paulo Colonial (Sociedade Brasileira de Musicologia, 2002), entre outros livros, edições de partituras e incontáveis artigos acadêmicos. 

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