Morre o maestro inglês Frank Shipway

Um dos principais regentes convidados da Osesp, ele voltaria a São Paulo em setembro para concertos

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Agosto 2014 | 11h04

Atualizada às 18h35.

Era um final de tarde de março de 2012. No auditório de uma escola no centro da cidade, o maestro sisudo comandava os músicos da Orquestra Jovem do Estado durante um ensaio. “Não vou mais guiá-los desta vez. Eu insisto que vocês façam por conta própria, insisto”, dizia, bravo, para, em seguida, descer do pódio e pegar a partitura de um dos violinistas do grupo. “Sejam mais gentis, cantem com o instrumento, acariciem-no, mas não berrem: isto é Schubert, não Tchaikovski.”

No intervalo do ensaio, a pergunta era inevitável. Funciona ser assim tão duro com uma orquestra de jovens músicos, que estão dando ainda seus primeiros passos? “E o que você queria? Não levaria a nada tratá-los como jovens. Eu os trato como profissionais. É uma forma de respeito”, respondeu o maestro Frank Shipway. “Trabalho sempre com o conceito de que a orquestra merece o melhor. É direito deles. E um dever também. Quando subir ao palco, essa orquestra precisa aspirar a ser a melhor. Ela tem que ser a melhor. É para isso que estou aqui.”

O respeito aos músicos foi a principal qualidade relembrada nas redes sociais por artistas que, chocados, receberam nesta quinta-feira, 7, a notícia da morte do maestro. Aos 79 anos, Shipway sofreu um acidente de carro no interior da Inglaterra na tarde de terça. Levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos. As autoridades levaram cerca de um dia para confirmar a identidade do maestro.

Shipway foi aluno de John Barbirolli, Herbert Von Karajan e Lorin Maazel. Com Karajan, contou certa vez, aprendeu a importância do profundo conhecimento da orquestra e da partitura, “o que dá ao maestro e aos músicos uma liberdade fundamental no ato de fazer música”. Ele foi assistente de Maazel na Deutsche Oper de Berlim, na qual deu os primeiros passos como regente de ópera – mais tarde, desenvolveria uma relação próxima com a English National Opera. Atuou à frente de orquestras como a Philharmonia e a Royal Philharmonic, com quem fez suas principais gravações, em especial da Sinfonia n.º 5 de Gustav Mahler.

Nos últimos anos, Shipway criou um laço especial com o Brasil. Além de ter regido a Orquestra Jovem e dado masterclasses na Escola de Música do Estado de São Paulo, foi um dos principais regentes convidados da Osesp. Chegou a ser cotado para comandar o grupo na época da demissão do maestro John Neschling. Mas, mesmo que não tenha ocupado nenhum cargo à frente da orquestra, era um dos maestros mais queridos pelos músicos, com quem fez concertos memoráveis. Mais do que isso: era frequentemente consultado pelo conselho da Fundação Osesp a respeito dos rumos do grupo, defendendo, como chegou a fazer em uma extensa carta enviada à presidência da fundação em janeiro, uma melhor relação da direção da orquestra com os músicos e suas reivindicações artísticas, entre outros princípios.

“Frank Shipway foi um dos maiores maestros que conheci”, declarou o violonista Fábio Zanon, coordenador pedagógico e artístico do Festival de Inverno de Campos do Jordão. “Cada concerto que regeu com a Osesp foi memorável.” Em nota, a Osesp disse que ele era “um maestro com larga experiência e muito respeitado”, que “tinha uma longa e produtiva relação” com a orquestra. Na internet, o diretor executivo da fundação, Marcelo Lopes, foi menos protocolar, afirmando que, “por uma década, seus concertos foram os momentos mais procurados da nossa temporada”.

Na noite desta quinta-feira, o concerto do grupo é dedicado à memória de Shipway, que voltaria a São Paulo este ano para apresentações com a Osesp. A primeira delas seria em setembro, quando regeria um programa dedicado a peças de Beethoven e Richard Wagner, com a violinista Isabelle Faust. Segundo a Osesp, ele será substituído por Giancarlo Guerrero e Sir Richard Armstrong.

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