Divulgação
Divulgação

Morre o compositor Henri Dutilleux

Francês era um dos artistas contemporâneos mais tocados no mundo

João Marcos Coelho - Especial para o Estado,

22 de maio de 2013 | 17h38

Morreu nesta quarta-feira, 22, aos 97 anos, o compositor francês Henri Dutilleux. Muitos o definiram como um dos compositores mais tocados no mundo, um clássico moderno e um dos poucos a conseguir alcançar um público insensível à música contemporânea. As afirmações são corretas, mas é preciso acrescentar uma outra: ele era um peixe fora d’água na música francesa atual. A maioria das encomendas-chaves de sua longa carreira de compositor, desde a primeira, nos anos 50 do século passado, veio dos EUA. Teve pouquíssimo apoio oficial em seu país.

O radical establishment contemporâneo comandado por Pierre Boulez e o Ircam jamais viu com bons olhos sua música acessível. O musicólogo Celestin Deliège diz que Dutilleux inverteu a equação normal de todo compositor jovem, que rejeita o passado e parte para o novo, só retornando aos poucos ao passado no decorrer de sua vida, até a maturidade plena. Formou-se no Conservatório de Paris nos anos 30, quando a tríade Bizet-Fauré-Ravel predominava, enquanto a geração pós-1945 cresceu sob as asas de outra tríade Berlioz-Debussy-Messiaen. Por aí já se vê que Dutilleux passou ao largo da Escola de Viena de Schoenberg, enquanto Boulez mergulhava nela de cabeça.

O opus 1 de Dutilleux é uma bela "Sonata" para piano, tonalmente tão comportada quanto a Primeira Sinfonia, de 1951. A partir da Segunda Sinfonia, de 1959, ele inicia uma interessante pesquisa de timbres (nesta obra, um grupo de doze instrumentos solistas fica à frente da massa sinfônica e funciona como espelho/memória).

Por que gostamos da música de Dutilleux já na primeira vez que a ouvimos? Deliège dá a chave: 99,99% dos compositores do século 20 privilegiaram inicialmente o novo e aos poucos se domesticaram - como Stravinsky, o guru dos que não rezaram pela cartilha de Schoenberg. Dutilleux partiu do passado bem comportado e o complicou progressivamente, até a plena maturidade. Mantém uma nota-matriz como centrífuga tonal velada de sua música; mas refina cada vez mais a pesquisa de timbres. É só ouvir obras mais recentes, como Ainsi la Nuit, quarteto de cordas de 1977 ou o concerto para violoncelo Tout un Monde Lontain (1970). A obra crucial da maturidade, Timbres, Espace, Mouvement ou la Nuit Étoilée (1978), foi tocada no concerto de encerramento do 41º. Festival de Inverno de Campos do Jordão, em 2009. Inspira-se metafisicamente" na tela A Noite Estrelada, de Van Gogh de 1889. Remete à alquimia do jogo de timbres, contrapostos a uma textura sonora escura devido à ausência deliberada dos violinos e violas.

A Amazon lista 205 CDs com obras de Dutilleux. Uma boa introdução à sua música é o duplo da EMI Orchestral Works com os concertos para cello e violino, a segunda sinfonia e Metaboles; e o essencial da obra para piano com Robert Levin (ECM, 2010). Em janeiro deste ano foi lançado o CD Correspondances pela Deutsche Grammophon, com a primeira gravação mundial da obra de 2003 sobre poema de Baudelaire, com a soprano Barbara Hannigan, Orquestra da Radio France e regência de Esa-Pekka Salonen.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.