Morre o baixista Charlie Haden, um dos nomes-chave do free jazz

Com Ron Carter e o inglês Dave Holland, formava uma espécie de tríade quase sagrada do contrabaixo acústico

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2014 | 19h12

Morreu nesta sexta, 11, em Los Angeles, após uma enfermidade prolongada (síndrome de pós-pólio), o contrabaixista Charlie Haden, aos 76 anos (faria 77 anos no dia 6 de agosto). Com Ron Carter e o inglês Dave Holland, formava uma espécie de tríade quase sagrada do contrabaixo acústico.

Ele tinha acabado de lançar, ao lado do pianista Keith Jarrett, o disco Last Dance (ECM Records). Nele, gravaram baladas de Cole Porter, Bud Powell e outras, como My Ship (Kurt Weill e Ira Gerswhin) e It Might As Well Be Spring (Rodgers e Hammerstein). Eles tinham iniciado essa colaboração alguns anos antes, no estúdio de Jarrett, em 2007, com Jasmine, que foi indicado ao Grammy em 2010.

Nascido em Shenandoah, Iowa, ele tinha ao seu lado, ao morrer, a mulher e colaboradora, Ruth Cameron (que fora sua companheira pelos últimos 30 anos), e os filhos Josh, Tanya, Rachel e Petra.

"Charlie Parker seria um dos músicos mais importantes da História, mesmo se tivesse nascido em Marte", disse o contrabaixista ao Estado, em 2006, durante entrevista na Cidade do Cabo, África do Sul. Haden começou a tocar ainda criança, era criança-prodígio em programas de uma estação de rádio especializada em música country. Mudou-se para Los Angeles e começou a tocar baixo com o Bley Trio, de Paul Bley - e que contava com a mulher deste, a pianista Carla Bley, com quem ele fundaria depois o grupo mais engajado do jazz, a Liberation Music Orchestra.

Nesse ponto da sua vida, ele conheceu Ornette Coleman, que passou a acompanhar a partir de 1959 como baixista. Em 1966, ele integrou a Jazz Composers' Orchestra Association, de Coleman. Em 1987, formou o Quartet West, que desfrutou de grande sucesso comercial (dentro das perspectivas do jazz). Em 1989, gravou Silence, com Chet Baker, que morreria alguns meses depois. De ideias libertárias e francamente esquerdista, Haden chegou a ser preso em Portugal, após fazer um concerto pela independência das então colônias Angola, Moçambique e Guiné.

Haden, apesar de um tanto esquivo, era frenético ativista e tinha grande paixão ao discorrer sobre política internacional, tema sobre o qual era foi incisivo. "Em busca de dinheiro, as grandes corporações perpetuam e glorificam a violência, o cinismo, a brutalidade e a insensatez. Nós estamos todos sofrendo cultural e espiritualmente com isso. Acredite em mim: muitos de nós nos Estados Unidos estamos extremamente infelizes com isso, tentando existir fora da cultura mainstream", avaliou. "Mas você também usou o termo Terceiro Mundo. Nós não aceitamos esses termos - 'primeiro, segundo, terceiro mundo". Eles têm implicações de arrogância e racismo.

O som de Haden era de uma precisão absurda, como se fosse um João Gilberto do contrabaixo. Foi um dos inventores do free jazz, mas nas últimas performances parecia se aproximar mais da música erudita. "Não considero a música em termos de superioridade, mas de significado", ele dizia.

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