Morre no Rio o ator, músico e escritor Mário Lago

Morreu no início da noite de quinta-feira, no Rio de Janeiro, o escritor, ator e compositor Mário Lago, aos 90 anos, de insuficiência respiratória. Ele passou quase um mês internado por causa de infecção urinária e desidratação aguda, tendo recebido alta no dia 12 de março. Desde então, seu tratamento, que não foi coberto pelo plano de saúde, gerou cerca de R$ 30 mil de dívidas para sua família. Amigos, colegas e até políticos haviam iniciado uma mobilizaçõa para angariar fundos para que Mário Lago fosse tratado. Mário Lago - autor de clássicos da música popular brasileira como Amélia - recebia aposentadoria especial da União por ter sido cassado durante a ditadura militar, em 1964, e ter ficado dois anos sem conseguir emprego. Na época o ator era produtor-executivo da RádioNacional. Anistiado em 1979, teve suas perdas reconhecidas pelo governo, que fixou a aposentadoria em R$ 8 mil. A filha Graça Lago, no entanto, afirma que o pai jamais recebeu esse valor. De acordo com ela, numa primeira revisão o Ministério da Previdência Social arbitrou aaposentadoria em R$ 3 mil, equiparados ao salário pago pela Radiobrás para cargo semelhante. ?Essa decisão é indevida porque a Radiobrás não é sucessora da Rádio Nacional, que ainda existe?, diz. Mário Lago, porém, há mais de um ano recebia R$ 1.500 porque o INSS obrigou o ator a devolver todo mês R$ 600 pelo tempo que recebeu a mais do que deveria.O estado de saúde de Mário Lago piorou depois de sua última internação, em janeiro. Voltou para casa e nunca mais saiu da cama. Sua última (e rápida) aparição da TV foi na novela O Clone. Mesmo doente, ainda escreveu 200 páginas de sua biografia Meus tempos de moleque. Desde segunda-feira passada, ele perdeu a lucidez. Graça Lago explica que seu pai tinha contrato com a TV Globo até 2003 e nem mesmo o salário que ele recebia da emissora é suficiente para cobrir as despesas commédicos e remédios.Graça Lago conta que na época da repressão, os executivos das rádios e TVs eram pressionados para não contratá-lo. ?A primeira pessoa que nos ajudou foi Dercy Gonçalves, que o chamou para trabalhar a seu lado em um programa de TV?. Graça lembra apenas que era um programa de humor. Em uma das cenas, Dercy empurrava Lago, que caía sentado num sofá. Naprimeira vez que a cena foi feita, Lago botou a mão no bolso e tirou um bolo de dinheiro para mostrar à família que Dercy Gonçalves tinha pagoo cachê na hora.Quando era perguntado sobre o medo da velhice e da morte, Mário Lago tinha uma resposta pronta: "Eu fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me persegue e nem eu fujo dele. Qualquer dia a gente se encontra". Assim era sua relação com o tempo. No mesmo ano em que se formava como advogado, 1933, o autor de Amélia e Nada Além, assinavaa sua primeira peça teatral, a revista Flores à Acuña. A partir daí, 68 anos foram poucos para o exercício de tantas e brilhantes carreiras. O ator, compositor, radialista, militante político, escritor e diretor manteve até os 90 anos uma criação invejável.Viajou, em 1998, com seu show Causos e canções de Mário Lago, teve sua vida registrada em livro pela jornalista Mônica Velloso, ganhou um personagem na minisérie Hilda Furacão e foi gravado pelos parceiros Elton Medeiros e João Nogueira há três anos. O velório de Mário Lago será realizado no Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, região central do Rio, a partir das 23h desta quinta-feira.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.