Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Morre Jerry Adriani, aos 70 anos, o mais roqueiro da Jovem Guarda

Não julgar Jerry Adriani apenas por suas primeiras canções é um ato de justiça com sua memória

Julio Maria, Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2017 | 16h22

O cantor Jerry Adriani, um dos ídolos da Jovem Guarda no anos 1960, morreu no domingo, 23, no Rio. Adriani, que completara 70 anos em janeiro, estava internado no Hospital Vitória, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, para se tratar de um câncer. A morte foi anunciada pela família em um dos perfis do cantor no Facebook.

“A família de Jerry Adriani tem o doloroso dever de comunicar aos seus amigos o seu falecimento. Agradecemos a todos pelo enorme carinho”, diz o post publicado ontem à tarde. 

O velório será às 8h desta segunda-feira, 24, no Cemitério de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro. O sepultamento está marcado para ocorrer às 16h30, no mesmo local.  

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Desde o início de março, o cantor vinha relatando, por meio das redes sociais, seus problemas de saúde. Ele foi internado logo após o carnaval. Em 4 de março, publicou um vídeo em que afirmou ter sentido “problemas físicos” no final do período carnavalesco. Por isso, consultou seu médico e foi orientado a se internar. Submetido a uma pequena intervenção, que não detalhou, o cantor disse que a situação estava sob controle.

Após a primeira internação, ainda em março, o diagnóstico era de trombose nas pernas. Em 14 de março, Adriani voltou a se manifestar no Facebook, desta vez por um texto: “Como muitos sabem, fui surpreendido por problemas de saúde que me levaram a uma internação e à constatação de que havia passado por uma trombose profunda que acabou provocando embolia pulmonar”, dizia o post. Na ocasião, Adriani teve que cancelar shows, o que também anunciou em seu Facebook.

O cantor voltaria a ser internado no último dia 7. No dia 10, publicou uma nota em suas redes sociais anunciando que estava com câncer, sem mais detalhes. Segundo o post, o câncer foi diagnosticado após “uma série de exames”. “Jerry está começando tratamento para controle desta patologia. Pedimos a todos que, independentemente de seus credos, solicitem força e pronto restabelecimento ao querido amigo e cantor”, dizia a nota.

Após o anúncio da morte ontem, os perfis de Adriani no Facebook receberam várias manifestações de pesar, de fãs e músicos. O guitarrista Rick Ferreira, que integrou bandas de Raul Seixas e Erasmo Carlos, publicou uma foto ao lado de Adriani em 2001, em Liverpool, na Inglaterra, em que os dois se apresentavam durante a “Beatle Week”.

Formação de um ídolo 

O sangue rock and roll de Jerry Adriani possuía um comprometimento maior com a gênese do estilo do que algumas de suas próprias canções demonstraram. Reconhecê lo por apenas Doce Doce Amor ou Tarde Demais é conhecê-lo pela metade, reduzir sua importância.

Jerry não sofria por fazer o jogo do mercado. Era bonito, tinha charme e tinha voz. Uma tríade que nem Roberto, Erasmo ou Wanderléa conseguiam reunir individualmente. E lá se foi o garoto nascido no Brás, com uma banda de rock no currículo chamada Os Rebeldes, se meter a cantar como galã italiano. Italianíssimo, o disco, fez sua estreia em 1964, ajudando a regar a terra na qual nasceria a Jovem Guarda.

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O ano em que a juventude brasileira foi descoberta, 1965, foi também o que confirmou Jerry como um quadro viável no novo mundo da música pop. Gravando agora em português, Um Grande Amor faria sua estreia como ídolo de massa, preparando-o ainda mais para 1967, quando sairia um de seus discos mais vitoriosos, Vivendo Sem Você.

Jerry Alves de Sousa foi o homem que descobriu Raul Seixas na Bahia, selando seu faro e sua determinação. Raul era Raulzito, que fazia bailes grã finos de Salvador com seu grupo, Os Panteras, quando Jerry passou com seu show pela cidade. Ao saber de Raul (uma das versões diz que Raul não estava nesse dia com o grupo, que só viria a ser conhecido por Jerry depois), o cantor encafifou-se com a ideia de que aquele baiano deveria não só ir para o Rio de Janeiro como também se tornar produtor de seus discos. Saiu-se cheio de argumentos pra cima do poderoso Evandro Ribeiro, da gravadora CBS, e o convenceu: de 1969 a 1971, os discos de Jerry seriam produzidos por Raul, e com muitas músicas de sua autoria.

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Jerry se foi no ano em que passaria todas as suas histórias a limpo. Ajudado pelo amigo, o pesquisador Marcelo Fróes (que escreve o texto abaixo), ele previa uma biografia de muitos causos e o lançamento de um disco cantando músicas de Raul. A bio será lançada por Fróes, que já colheu os depoimentos de Jerry. O disco, que teria 22 músicas feitas por Raulzito, não chegou a ser gravado.

A última entrevista de Jerry Adriani foi concedida ao Estado e publicada em janeiro passado. Ele estava feliz, estava vibrante abria o coração para falar do passado. Lembrou de histórias saborosas, como a do dia em que Elis Regina o esnobou, ignorando-o na fila do cachê da TV Record. Era a ira da cantora se impondo contra os representantes do iê-iê-iê, que Elis considerava inimigos da música brasileira. Foi nessa entrevista também que Jerry levantou uma lebre inédita. Ele acreditava que o fim do programa Jovem Guarda, em 1968, havia sido orquestrado nos bastidores por forças políticas contrárias ao movimento. “Nós estávamos contestando os costumes sociais da época.” Jerry leu a entrevista, se emocionou e ligou para seu produtor, Marcelo Fróes. Aos 70 anos, sentia-se justiçado por um espaço generoso na grande mídia.

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