Morre Jair do Cavaquinho, sambista da Portela

O compositor Jair do Cavaquinho, o mais antigo integrante da Velha Guarda da Portela, sócio número um da escola, morreu hoje, aos 83 anos, em decorrência de problemas cardíacos. Jair de Araújo Costa estava internado havia nove dias na Casa de Saúde Nossa Senhora do Carmo, em Campo Grande, zona oeste do Rio. O velório está sendo realizado na tarde desta quinta-feira na quadra azul-e-branca, em Oswaldo Cruz, na zona norte, e o enterro será amanhã. As complicações no coração eram preocupação antiga. Seu Jair fazia tratamento à base de remédios, mas não tomava todos os cuidados que devia. "Ele tomava os remédios direitinho, mas abusava. Não largava o cigarro e gostava de uma cervejinha", contou, ontem, sua filha Ruth (ele tinha mais sete filhos com a mulher, Teresa Costa Pinto). Sempre que podia, Paulo Figueiredo, produtor da Velha Guarda, tentava impedi-lo de cometer excessos. "Brincando, ele me pedia permissão para tomar uma cachacinha. Eu proibia", disse Figueiredo. "Ele estava animado, cheio de shows para fazer." O músico chegou à casa de saúde no dia 29, já com lesões no coração provocadas por um infarto. Na noite anterior, havia bebido cerveja e fumado, contrariando ordens médicas. Chegou a desmaiar em casa. Foi internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) e, na última terça-feira, foi submetido a um procedimento de desobstrução da principal artéria do coração, que estava bloqueada. Na quarta, teve alta do CTI e foi para uma unidade semi-intensiva. A saída do hospital estava prevista para segunda-feira. Mas, hoje de manhã, ele sofreu uma arritmia cardíaca fatal. Simpático, galanteador e solícito, o sambista conquistou as enfermeiras e médicos do hospital. "Era muito simpático e ficou lúcido o tempo todo. Disse que levaria todo mundo para ver o show da Marisa Monte, quando tivesse alta", contou o cardiologista Adriano Marçal Nogueira Junior, que o atendeu. A Portela fez questão de providenciar a despedida ao ilustre componente. Seu Jair e seu cavaquinho chegaram à escola quando ele ainda era um menino. Foi levado pela mãe. Aos 15 anos, ele já era o primeiro cavaquinista do grupo de músicos - um grande feito, já que ele aprendeu a tocar o instrumento sozinho, observando os mais velhos. Ele também manejava com intimidade o tamborim. "Não sei dizer quando cheguei à Portela. Eu vi a Portela nascer. A Portela é tudo para mim, em matéria de samba, de carnaval,d de música", declarou seu Jair, numa entrevista dada em 2001 e publicada na página da escola na internet. Da Portela, foi presidente da ala dos compositores e da harmonia. Ser o "sócio número um" era motivo de muito orgulho. "É uma grande emoção. As pessoas passam a te considerar mais." O compositor era, sim, muito respeitado. Por sua vida de dedicação à escola, seus sambas, sua carreira. O músico aparece em 14 discos - o primeiro, gravado em 1965; o último, em 2002, pelo selo Phonomotor, de Marisa Monte. Dois anos antes, Marisa havia sido produtora de Tudo azul, que reuniu a Velha Guarda. Aquele era seu primeiro CD solo - feito só alcançado aos 79 anos. Três de seus discos foram com o grupo Os cinco crioulos, formado, nos anos 60, por Jair, Elton Medeiros, Nelson Sargento, Anescarzinho do Salgueiro e Paulinho da Viola, então um jovenzinho. Entre as composições mais famosas - há cerca de cem, entre elas sambas-enredo -, está Vou partir ("Vou partir/não sei se voltarei/tu não me queiras mal/hoje é carnaval") e Pecadora ("Vai, pecadora arrependida/vai tratar da tua vida/por favor, me deixe em paz/tu me deste um grande desgosto/eu não quero ver teu rosto/ palavra de rei não volta atrás"). As duas entraram no disco Elizeth sobe o morro, de Elizeth Cardoso, de 1965 - assim como Meu viver e Ela deixou. Entre os parceiros mais constantes, estava Nelson Cavaquinho (parceiro em Vou partir, Eu e as flores e Enquanto a cidade dorme. Seus sambas foram gravados por Jamelão, Nara Leão, Zeca Pagodinho, pela Velha Guarda, naturalmente, e por Marisa. Seu "miudinho", samba dançado em passos curtos, cheios de charme, era famoso - e foi registrado no documentário Da Terra, de Janaína Diniz, lançado em 2005. Ele ensinou a técnica a Marisa Monte e a Paulinho da Viola, que o considera um excelente cozinheiro, além de grande sapateador. Janaína guardou muitas imagens e busca financiamento para um documentário só sobre o mestre portelense. Seu Jair, que foi funcionário da Secretaria de Obras por décadas, faria 84 anos no próximo dia 26 e seria homenageado no Carioca da Gema - ao som de samba, naturalmente. O corpo será enterrado amanhã, às 10 horas, no cemitério do Irajá, na zona norte.Matéria alterada às 14h20 e às 15h25

Agencia Estado,

06 de abril de 2006 | 11h43

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