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Morre Jack Bruce, o baixista mais livre do rock and roll

Aos 71 anos, o lendário músico do Cream, parceiro de Eric Clapton e do baterista Ginger Baker, teve problemas relacionados ao fígado

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 18h34

Por ao menos quatro noites, deu para viver tudo de novo. Afinal, os três senhores que ressurgiam no palco do Royal Albert Hall podiam até ter os cabelos tingidos, mas as rugas já eram profundas o suficiente para contar uma história de cem anos. Eric Clapton veio do fundo de um palco ainda escuro improvisando um solo de blues sem grandes intenções. Jack Bruce fez o mesmo pegando caminhos contrários com seu baixo. E Ginger Baker, o último a sentar-se ao instrumento, passou rapidamente pelos tons da bateria. Quatro toques e tudo mudou. Clapton surpreendeu a plateia com o riff de onze notas de Sunshine Of Your Love e a plateia foi violentamente jogada em algum pub inglês de 1966.

Era 2005 quando o sonho se refez. Apenas quatro noites, tempo suficiente para se sorver o mel e abandonar o pote antes que suas sobras começassem a cheirar mal. Clapton sorrindo para Baker e Baker brincando com Bruce como se quisessem mudar o mundo outra vez. O Cream foi assim, uma viagem às estrelas de três anos, quatro discos, mil notas por improvisos, duzentos palavrões por ensaio, toneladas de ácido e um homem lendário: Jack Bruce. O baixo mais livre da história do rock, que muitos pensavam ser tocado por um jazzista, desenhou o conceito de power trio à base da completa falta de base. Apenas baixo, guitarra e bateria – e cada um fazendo o que bem entendesse. Além de sua voz de impressionante performance elástica, Bruce não se importava em segurar os graves para fazer cama enquanto Clapton solava. Sem timidez alguma, ia para os agudos solar também.

O conceito do ‘free rock’ do escocês Jack Bruce não foi fruto do acaso. Antes que suas ideias colidissem com a dos professores e ele se retirasse da vida acadêmica, estudou música a sério na Bellahouston Academy e aprendeu violoncelo na Royal Scottish Academy. O contato com o instrumento sinfônico pode explicar seu casamento com os baixos fretless (sem divisória de casas, com o braço liso). Antes do rock, foi de fato integrante de grupos de jazz. Viveu de música na Itália vendendo o almoço para pagar o jantar e, em 1962, de volta à Inglaterra, passou a fazer parte da Alex Korner's Blues Incorporation tocando em formações com Charlie Watts, o baterista que logo integraria uma banda com jeito para o negócio chamada Rolling Stones, e com um ruivo mal encarado chamado Ginger Baker.

Antes do ápice do Cream, Bruce deu mais dois passos em direção ao blues ao trocar Alexis Korner pela Graham James Bond, que tinha Graham Bond no orgão, o futuro jazzista John McLaughlin na guitarra, o mesmo Ginger Baker na bateria e, mais para frente, Dick Heckstall-Smith no sax. Bruce e Baker, dois fios desencapados, soltavam faíscas que um dia fizeram fogo. E Bruce levou a pior. Foi demitido da banda no dia em que o baterista ameaçou dividi-lo ao meio com uma faca. Mas o caminho era longo e Jack Bruce seguiu em frente, sendo convidado por Marvin Gaye para assumir o baixo de sua sessão rítmica. Os deuses intervieram e o baixista disse não. Além de não ter a linguagem da soul music falada por Gaye, a convivência de ambos tinha todos os elementos para se tornar trágica. Em 1º de abril de 1984, o pai de Marvin Gaye discutiu mais uma vez com o filho e lhe deu um tiro de calibre 12 usando a mesma arma que havia ganhado de presente do próprio Gaye.

Um tempo depois e Jack Bruce resolveu tocar com o professor John Mayall’s e seus Bluesbraker’s no mesmo dia, mês e ano em que outro inglês caladão fazia seus solos por lá, Eric Clapton. Aí foi questão de pouco tempo para que os planetas se posicionem. Clapton decidiu deixar Mayall - apesar de toda sua gratidão pelo homem que o fez voltar para a música - e, certamente influenciado pelo conceito avassalador de Jimi Hendrix, decidiu formar um trio de força. Chamou Jack Bruce, o mais ousado baixista da Inglaterra, e Ginger Baker, outro gigante em seu instrumento. Baker e Bruce fizeram as pazes, ao menos, por alguns dias.

O Cream estreou com 'Fresh Cream' em dezembro de 1966 e atingiu o sexto lugar nas paradas inglesas. Vinha com 'I Feel Free' no lado A e 'Spoonful', de Willie Dixon, no B. Um ano depois, o torpedo saiu mais lisérgico, com 'Strange Brew', 'Sunshine of Your Love' e 'S.W.L.A.B.R' no álbum 'Disraeli Gears'. O fôlego de mergulhador se comprovou em 1968, com 'Wheels of Fire', um álbum que receberia disco de platina e deixaria para a posteridade pelo menos mais três temas, a monumental 'White Room', a versão de 'Sitting on Top of the World' e 'Politician'. O último disco, 'Goodbye', produzido em meio às relações rompidas, juntou três faixas recauchutadas ao vivo com outras três inéditas para dar o adeus melancólico do maior power trio do rock and roll.

Se para Eric Clapton o Cream era um dos pontos de evolução em sua linha do tempo, para Jack Bruce era o fim. A história de Bruce, por mais dignos que sejam seus shows e suas criações pós Cream, jamais voltariam a ter a mesma força que tiveram ao lado dos dois amigos. O álcool e as drogas, os mesmos que tentaram levar Clapton por mais de duas vezes, deixaram sequelas e problemas irreversíveis na saúde do baixista. Seu fígado começou a apresentar problemas até quem, em 2003, Bruce passou por um delicado transplante. “Só digo que tenho muita sorte de ter sobrevivido. Não me tornei mais espiritual ou menos espiritual por causa disso. Não mudou muito na minha forma de ver o mundo. Só acho que é maravilhoso estar vivo, mas ainda sou a mesma pessoa”, disse ele ao 'Estado' em 2012, quando veio a São Paulo para um show solo. Na manhã deste sábado, seus familiares se reuniram para redigir a notícia que não esperou por um novo encontro do Cream: “É com grande tristeza que nós anunciamos a morte de nosso querido Jack: o marido, o pai, o avô e a lenda”.

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