Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

Morre, aos 71 anos, o guitarrista Lou Reed

Músico morreu de complicações hepáticas; ele havia passado por transplante de fígado em maio

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

27 Outubro 2013 | 16h28

Atualizado às 19h30

Um mito da música pop à altura do que representou Andy Warhol para as artes visuais, o cantor e compositor norte-americano Lou Reed morreu ontem, aos 71 anos, de complicações relacionadas ao transplante de fígado a que foi submetido em abril deste ano. Usuário de drogas e bebidas alcoólicas por muitos anos, Reed cancelou shows programados na Califórnia naquele mês. Sua última aparição pública foi em junho, no Cannes Lions Festival Internacional de Criatividade. Na ocasião, ele revelou seu choque diante das revelações de Edward Snowden sobre a NSA (National Security Agency) e a omissão do presidente Barack Obama sobre a interceptação de telefonemas e mensagens eletrônicas de países estrangeiros pelo órgão de segurança nacional dos EUA.

No mesmo mês, em seu site, Reed disse que se considerava "um triunfo da medicina moderna" por ter sobrevivido ao transplante, anunciando aos fãs que continuava a compor e pretendia voltar aos palcos. Depois disso, o silêncio. Ontem, nem mesmo a imprensa estrangeira acreditava que ele havia morrido. Vale lembrar que, em 2001, uma rádio americana espalhou a notícia de sua morte por overdose. Quem primeiro noticiou sua morte foi o site da revista Rolling Stone. Seu empresário Andy Wooliscroft inicialmente negou, mas logo foi obrigado a admitir sua morte, resumindo sua fala a "Estou muito triste". O certo é que, desde abril, Reed apenas sobrevivia com o fígado transplantado, surpreendendo até mesmo sua mulher, a cantora e também compositora Laurie Anderson, um dos grandes nomes da arte de vanguarda nos EUA.

Desde cedo frequentador da Factory, a fábrica de arte, música e cinema do artista pop mais célebre do mundo, Andy Warhol, Reed formou, em 1964, a Velvet Underground, a mais influente banda experimental nova-iorquina. Não era exatamente um êxito comercial, mas influenciou muitos grupos americanos e ingleses da cena punk com seu visual dark e uma cantora imposta pelo mentor da banda, Warhol. Seus integrantes não pareciam contentes com a modelo alemã Nico, mas ganharam de presente do pai da arte pop uma banana desenhada para a capa do primeiro disco, de 1967, The Velvet Underground and Nico.

Os temas que marcariam as canções de Reed já estavam todos no disco inaugural da banda: drogas (Heroin, sobre a experiência de John Cale com a heroína), sexualidade fora dos padrões (Venus in Furs, sobre relações sadomasoquistas) e comportamento marginal (There She Goes Again, a saga de uma prostituta de rua). Um dos sustentáculos musicais do Velvet Underground, John Cale, que tocou viola elétrica, piano e celesta no primeiro disco, saiu da banda logo no começo. Nico praticamente foi expulsa.

O Velvet sobreviveu sem os dois e gravou cinco discos até 1973, com canções menos provocativas. Em 1972, no segundo álbum solo de Reed, Transformer, ele emplacou seu maior sucesso, Walk on the Wild Side, que descrevia os tipos que circulavam pela Factory de Andy Warhol, mas, na verdade, era mesmo uma transposição musical dos temas do romance homônimo de Nelson Algren publicado em 1956. Algren (1909-1981) foi amante de Simone de Beauvoir e um militante vigiado pelo FBI por seu apego à classe operária e aos marginalizados (é dele o romance O Homem do Braço de Ouro, sobre um baterista e crupiê viciado em heroína, que, no cinema, foi interpretado por Frank Sinatra). Reed, um intelectual, lia tudo sobre o submundo americano. Adorava os escritores da beat generation. Era particularmente fascinado por William Burroughs. Nesse passeio pelo lado "selvagem", ele topa com  transsexuais, drogados, prostitutas e prostitutos. A RCA lançou o disco nos EUA sem referência ao sexo oral que fez da canção uma peça de escândalo.

 

Lou Reed era um adolescente de 15 anos quando On the Road, a bíblia da geração beat, foi publicado. Sua admiração por Jack Kerouac fez com que ele imitasse não só o estilo beat de ser (blusão de couro, óculos escuros), como de viver. Bissexual, ele foi submetido pelos pais a uma violenta terapia de eletrochoque em 1956, para "curar" sua orientação erótica, um ano antes de On the Road (a traumática experiência é descrita na canção Kill Your Sons).

O cantor não deixou, claro, de ser bissexual. Foi uma grande influência para o andrógino David Bowie, um dos produtores de Transformer, que fez com ele um show inesquecível no Madison Square Garden, quando Lou Reed completou 50 anos. Culto, talentoso, embora antipático e por vezes grosseiro, ele esteve no Brasil em algumas ocasiões, entre elas para o lançamento de um livro. Além de músico, Reed colaborou com grandes diretores de teatro (Bob Wilson) e cinema (Wim Wenders) e lançou, no ano passado, o livro Rhymes (Rimas). No Brasil, a Companhia das Letras lançou em 2010 o livro Atravessar o Fogo, com mais de 300 letras suas.

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