Morre a soprano sueca Astrid Varnay

Primeiro foi a soprano sueca Birgit Nilsson; meses depois, sua colega austríaca Elisabeth Schwarzkopf. Entre elas, o tenor norte-americano James King. Não foram apenas grandes cantores. Fizeram parte de uma época que criou referências de interpretação com as quais se dialoga ainda hoje. Foi a geração que nos ensinou a ouvir Wagner - e que perde agora mais um de seus pilares, a soprano sueca Astrid Varnay, que morreu nesta terça-feira, aos 88 anos, em um hospital de Munique.Foi com Wagner que Astrid Ibolyka Maria Varnay deu os primeiros passos da carreira. Nascida em Estocolmo, em abril de 1918, filha de um tenor e de uma soprano húngaros, ela começou os estudos com a mãe nos anos 30, quando a família se mudou para os Estados Unidos. E foi lá que teve sua primeira chance, no Metropolitan Opera, de Nova York. Em dezembro de 1941, fez sua estréia profissional, substituindo, sem ensaios, a soprano Lotte Lehmann em uma récita de "A Valquíria", interpretando, sob regência de Erich Leinsdorff, sua primeira Sieglinde.Mesmo 60 anos depois, mesmo depois de ver tudo que Varnay eventualmente faria ao longo da carreira, ainda soa impensável enfrentar assim no susto um papel das proporções de Sieglinde. O que dizer, então, de substituir Helen Traubel, apenas seis dias depois, no papel de Brünhilde, um dos mais temidos do repertório para soprano. Detalhe: Lotte Lehmann e Helen Traubel eram as grandes intérpretes wagnerianas da época no Metropolitan. Substituí-las não deve ter sido fácil. Mas o risco valeu a pena. "A soprano sueca atuou com a técnica e a graça que são possíveis apenas àqueles com um talento natural", escreveu o crítico do "New York Times" após a apresentação. E, nos anos seguintes, Varnay faria cerca de 200 apresentações no teatro.A seqüência seria interrompida apenas por uma rusga com o diretor do Met nos anos 50, Rudolf Bing. E ela partiria, então, para a Europa, assinando contratos com o Covent Garden, a ópera real inglesa, e a Ópera de Munique. De 1951 a 1968, participou do Festival de Bayreuth, interpretando Brünhilde e Isolda. Muitas de suas atuações no festival wagneriano foram gravadas e estão disponíveis em CD. Há, por exemplo, uma Isolda de 1963, regida por Eugen Jochum (selo Melodram). Do "Anel", há algumas opções, mais notadamente os ciclos de Clemens Krauss (selo Naxos) e Hans Knappertsbusch (selo Testament). Em Strauss, dois entre muitos registros preciosos: a "Elektra" gravada com Richard Krauss na Alemanha (o mesmo disco, lançado pelo selo Gala, tem trechos de um "Cavaleiro da Rosa" gravado com Fritz Reiner em Nova York). Da "Jenufa", de Janacek, vale a pena ouvir a sua Kostelnicka na gravação de Rafael Kubelik (Myto Records). No repertório italiano, dois belos exemplos: "Macbeth" (regência de Vittorio Gui, selo Great Opera) e "Cavalleria Rusticana" (regência de Wolfgang Sawallisch, selo Myto). Uma outra opção é a coletânea "Opera Scenes and Orchestral Songs", caixa recente da Deutsche Grammophon. É um começo, que vai fazer seus ouvidos saírem à cata de mais e mais gravações.De Mozart a StravinskiNo dia 24 de agosto morreu o tenor canadense Léopold Simoneau, grande intérprete de Mozart e do repertório francês. Era uma voz de timbre muito bonito, marcada pela elegância do fraseado, o que fez dele um dos mais importantes mozartianos do período pós-2.ª Guerra Mundial - seu Don Ottavio, em "Don Giovanni", permanece para muitos como referência. E foi com esse papel que fez sua estréia em alguns dos principais teatros do mundo. Há apenas uma exceção - no festival de Glyndebourne, sua primeira aparição foi como Idamente, no Idomeneo: recentemente, esse registro dos anos 50 foi lançado em DVD exaltado pela crítica inglesa. Mas a descrição das suas aventuras com Mozart não estariam completas, porém, sem lembrar do Ferrando na soberba gravação do Cosi Fan Tutte feita por Karajan nos anos 60; ou seu Belmonte na gravação de O Rapto do Serralho regida por sir Thomas Beecham.Mas o repertório de Simoneau não se limitou a Mozart. É particularmente importante lembrar, pensando em sua versatilidade, que foi ele o primeiro a interpretar Tom nas primeiras execuções na França da ópera The Rake´s Progress, de Igor Stravinski, compositor de quem havia estreado, um ano antes, Édipo Rei, em célebre apresentação regida pelo próprio Stravinski e narrada por Jean Cocteau. Recitalista, trabalhou muito com canções francesas, em especial de Duparc. No palco, foi um Nadir exemplar em Os Pescadores de Pérolas, de Bizet, e um Frederic irreparável na Lakmé de Delibes.

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