Moreno Veloso lança o disco 'Coisa Boa'

Novo álbum mescla Bahia e Japão em canções contemplativas

Emanuel Bomfim, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2014 | 20h09

Moreno Veloso admite: botar as crianças para dormir dá um trabalhão. Não raro, até comum, sua estratégia se esbarra nos tortuosos caminhos da composição. Vira laboratório para melodias, testadas à beira da cama, no embalo do sono. Assim também foi criado, deitado sobre as canções e o dedilhar sereno do violão do pai, Caetano Veloso. Uma delas, inclusive, veio a público, Tudo Tudo Tudo, lançada no disco Joia, de 1975. Agora são os netos, Rosa e José, a testemunharem o acalanto reconfortante do primogênito de Caê. Um deles batiza o novo disco de Moreno, Coisa Boa.

"Tanta coisa boa/Nada é de ninguém são os dois primeiros versos da faixa-título, escritos pelo amigo de longa data, Domenico Lancellotti. Um presente que lhe deu inspiração e base conceitual suficiente para encarar o projeto como um todo. "É uma explosão libertária", define o cantor e compositor, o primeiro contemplado na banda +2, quando lançou Máquina de Escrever Música, em 2000. Os outros dois trabalhos do grupo dão protagonismo a Domenico (Sincerely Hot, 2003) e Kassin (Futurismo, 2006). "A gente não tinha experiência, nem muita força para fazer sozinhos no começo", explica.

Abandonar a chancela "+2" e abrir caminho para assinatura solo sempre fez parte dos planos do trio. O ciclo se completa justamente com Coisa Boa, depois dos elogiados Cine Privê (de Domenico) e Sonhando Devagar (de Kassin), ambos lançados em 2011. Moreno, por muito pouco, quase arrematou a trinca de lançamentos naquele ano. Em três dias, no mês de maio, gravou nove das onze faixas do disco. "Engraçado, né? Parecia até que já estava pronto", se recorda. Aquela, porém, era apenas a primeira das quatro etapas de estúdio, distribuídas aleatoriamente pelos três anos seguintes.

A confiança para encarar um repertório autoral, colhido ao longo da última década, foi dada por outro amigo, o guitarrista Pedro Sá, naturalmente incumbido pela produção. "Eu fui protelando, fazendo outros trabalhos, estava morando em Salvador, estava me sentindo meio longe da turma. O Pedro me chamou para fazer uma turnê só nós dois, no projeto Parque 72. Isso fez com que viajássemos juntos, ficássemos juntos um tempo. E foi neste período que ele me capturou", diz Moreno.

Indissociável de sua matriz geográfica, o disco representa muito o reencontro de seu autor com a terra natal, a Bahia. Um laço afetivo, nostálgico, que afasta qualquer zona de tensão das músicas. “Isso não é proposta estética, isso é um acontecimento. Aquela foto da capa acabou sendo uma imagem que abarca toda essa contemplação, daquele menino sozinho olhando o pôr do sol na beira do mar, aquela coisa vista de longe."

A imagem, clicada pelo fotógrafo Arthur Nobre, inverte a lógica de se valorizar o esplendor do horizonte no crepúsculo. Coloca-se em evidência o efeito da paisagem sobre as pessoas na praia do Porto da Barra, em Salvador. O próprio Moreno também está em cena, ao fundo, sentado com amigos na balaustrada. São destes hiatos de felicidade que versam as canções. "Existe uma alegria do riso na Bahia que não é nervosa, não é calcada em nada além da própria felicidade."

O Japão é outra morada que se faz presente em Coisa Boa. Foi lá que o compositor deu um passo importante na sua carreira, ao assumir pela primeira vez um show sem a presença dos amigos do +2. O feito virou até disco ao vivo, lançado exclusivamente para o mercado japonês em 2008. Nas constantes viagens ao oriente, ele pôde se aproximar de artistas que agora se tornaram ilustres convidados em seu álbum. São eles: a cantora japonesa Takako Minekawa e o músico e produtor Hiroshi Takano. Ela, em especial, divide os vocais em Num Galho de Acácias (versão de J. Carlos para a francesa Un Peu D’amour) e em Onaji Sora (o mesmo céu, em português), de sua autoria. Esta última, de pendor filosófico, fala do eterno estado transitório das coisas, “das pessoas serem iguais e diferentes, de todas estarem sob o mesmo céu, que nunca é igual", enfatiza o músico.

O show de lançamento de Coisa Boa será no dia 26 de junho, no Sesc Pompeia. Como o menino da foto sozinho diante do mar, Moreno Veloso espera compartilhar aquela mansidão de cor laranja e de "ondas que caminham no ar".

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