Moreira da Silva morre no Rio aos 98 anos

Foi-se o último malandro. O cantor e compositor Moreira da Silva morreu hoje de manhã, no Hospital dos Servidores do Estado, onde estava há duas semanas. A causa da morte foi falência múltipla dos órgãos. Em 29 de abril, ele caiu em casa e foi internado numa clínica particular, mas transferido para o hopital público dias depois. A família não tinha como pagar os R$ 4mil de diária do Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Músicos cariocas estavam programando um show para a semana que vem, em benefício dele. Moreira tinha completado 98 anos no dia 1º de abril . Até o ano passado ainda fazia shows e deixou determinações para ser cremado.Apesar da fama de malandro, ele trabalhou desde cedo. Carioca da Tijuca, perdeu o pai aos 13 anos e parou de estudar para ajudar no sustento da família. Do pai, um trombonista da banda da Polícia Militar, herdou apenas o gosto pela música, mas até se tornar profissional, foi operário, chofer de praça e motorista de ambulância de hospitais públicos. Estava aposentado do serviço público desde 1959 e se orgulhava de não ter faltado ao trabalho nem um dia devido à boemia, mesmo dividindo-se entre programas de rádio e shows nos anos 40 e 50.Gostava de cantar em serenatas e festas, mas só gravou seu primeiro disco, onde interpretava dois pontos de macumba, em 1928. O sucesso veio logo depois, em 1931, com o samba Arrasta a Sandália (de Aurélio Gomes e Gaiaco) e, com ele, o personagem do malandro de terno branco, sapato bicolor e chapéu de palha. A partir do fim dos anos 30, tornou popular seu personagem, gravando músicas que viraram clássicos: os sambas Amigo Urso (de Henrique Gonçalves), que ele regravou no ano passado, no disco de Gabriel Pensador, Acertei no Milhar (de Geraldo Pereira e Wilson Batista) e Na Subida do Morro (dele e Ribeiro Cunha), verdadeiras crônicas sociais da vida carioca.Moreira criou um jeito muito particular de cantar samba sincopado, improvisando comentários entre os compassos, que depois passaram a ser escritas pelos compositores. Estava criado o samba de breque que se tornou sua marca, por combinar com a imagem do malandro, tendo sido copiado por vários outros cantores. Com seu jeito gingado, gostava de incluir essas frases espirituosas também em suas entrevistas e conversar com o público em shows.Em 1962, nascia outro personagem, o Kid Morengueira, caubói de filmes imaginários narrados em sambas que Moreira cantava, a maioria deles do compositor Miguel Gustavo. O maior sucesso dessa série é O Rei do Gatilho, de 1962. Nascia aí o personagem Kid Morengueira, que reapareceu em vários sambas de breque. A partir dos anos 70, no entanto, seu sucesso diminuiu e ele chegou a cantar em circo para sobreviver. Nos anos 90, fez anualmente o show do Seis e Meia, no Teatro João Caetano, e ganhou uma biografia, Moreira da Silva, o Último Malandro, de Alexandre Augusto.

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