Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Moraes Moreira morre aos 72 anos

Causa da morte do autor de 'Preta Pretinha' foi um enfarte; confira trecho do último show do artista

Julio Maria e Renato Vieira, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 11h59
Atualizado 13 de abril de 2020 | 18h13

O cantor e compositor Moraes Moreira morreu na madrugada desta segunda-feira, 13, aos 72 anos. A causa da morte foi um enfarte. Ele estava dormindo e o corpo foi encontrado pela manhã em sua casa no Rio de Janeiro.

Moraes estava em plena atividade. O último show dele ocorreu em 13 de março, na intimista casa carioca Manouche. O set list tinha mais de 20 canções, incluindo composições de Gilberto Gil e Dorival Caymmi. O vídeo abaixo é trecho desta apresentação do artista, que interpreta Canta Brasil, sucesso de Francisco Alves nos anos 1940. 

Nascido em 1947 na cidade de Ituaçu, na Bahia, ele se mudou para Salvador em meados dos anos 1960. Por meio de Tom Zé, ele conheceu o poeta Luiz Galvão. A dupla passou a compor e este encontro foi o embrião dos Novos Baianos. Baby do Brasil, Pepeu Gomes e Paulinho Boca de Cantor também integravam o grupo de espírito hippie. 

Depois de participar do festival da TV Record em São Paulo em 1969, a banda grava o primeiro disco, É Ferro na Boneca (1970), bem ao espírito do rock da época. Mas um encontro com João Gilberto foi definitivo. Galvão, que conhecia o papa da bossa nova de Juazeiro, onde os dois nasceram, o convidou a visitar o apartamento que eles dividiam no bairro carioca de Botafogo.

Quando João chegou, de terno e gravata, todos pararam para tocar músicas de Assis Valente e outros autores do período pré-bossa nova. "Vocês precisam olhar mais para dentro de si mesmos", disse o intérprete de Chega de Saudade. Era um recado para que os Novos Baianos buscassem referências na cultura brasileira.

Esta aproximação foi o estopim de um álbum clássico da música brasileira, Acabou Chorare (1972). Preta Pretinha, Besta é Tu e Mistério do Planeta, os hits do álbumrevelavam uma nova faceta do grupo, já radicado em um sítio em Jacarepaguá. Moraes ainda gravaria com o grupo os discos Novos Baianos F.C. (1973) e Novos Baianos (1974).

Casado e com dois filhos, Moraes quis deixar o sítio em que vivia com os Novos Baianos, mas permanecendo no grupo. Os outros integrantes não permitiram. Segundo eles, para estar na banda era preciso morar junto. Em 1974, ele decidiu sair. "Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida", disse o artista em uma entrevista para o Canal Brasil.

Imediatamente contratado pela Som Livre, Moraes ocupou as paradas de sucesso no fim dos anos 1970 com Pombo Correio (originalmente um tema instrumental dos reis do trio elétrico Dodô e Osmar chamado Double Morse), Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira e Chão da Praça.

A popularização do carnaval baiano também se deve a Moraes. Em plena Praça Castro Alves, em Salvador, ele participou do trio de Dodô e Osmar e se sagrou como o primeiro cantor a se apresentar em um trio elétrico. Coisa AcesaFesta do Interior e Bloco do Prazer estão entre as composições dele que animam folias há quase 40 anos. 

Ao longo da carreira, que totaliza 27 discos solo e outros divididos com o amigo Pepeu Gomes e com o filho Davi Moraes, Moraes teve canções gravadas por grandes intérpretes como Ney Matogrosso, Maria Bethânia, Gal Costa e Simone.

Nos anos 1990, o cantor lançou álbuns celebrados, caso de O Brasil Tem Conserto (1994), no qual misturou os sons da Bahia com a música erudita, e Acústico MTV (1995), em que fazia uma revisão da carreira. 

Desde 2016, o artista estava de volta aos palcos com os Novos Baianos e havia a perspectiva de um álbum de inéditas do grupo. "Ele me falava que os Novos Baianos deviam um álbum novo à Som Livre. Só depois ele poderia conversar sobre uns shows dos NB da fase 70-74 que eu queria lançar. Na carreira solo, ele estava querendo lançar singles nas plataformas por ora", explica o produtor Marcelo Fróes, do selo Discobertas, por onde Moraes lançou o disco Ser Tão (2018).

Em 18 de março, Moraes postou no Facebook um poema sobre a quarentena. Afirmou que estava resguardado, mas cantando e compondo. "Eu temo o coronavirus/E zelo por minha vida/Mas tenho medo de tiros/Também de bala perdida/A nossa fé é vacina/O professor que me ensina/Será minha própria lida", dizem os primeiros versos.

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