Clarissa Pivetta
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Moraes Moreira ganha homenagem em EP do filho Davi

Davi Moraes transforma o luto da perda do pai, da mãe e da avó em música no EP 'Todos Nós', que traz canções inéditas de Moraes Moreira e participações especiais

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

14 de janeiro de 2021 | 05h00

Em quase duas horas de conversa por telefone com a reportagem do Estadão, o músico Davi Moraes, 47 anos, não usou  o verbo “morrer” para se referir ao pai, o cantor e compositor Moraes Moreira, que, em 13 de abril de 2020, foi vítima de um enfarte, aos 72 anos. Ele preferiu usar “partir”. Isso não indica que ele negue o que tenha acontecido, mas mostra o quanto Moraes segue vivo dentro dele e, sobretudo, nas canções que deixou.

As ligações diárias – por vezes, até mais de uma por dia – fazem falta. Por isso, quando a saudade parece querer lhe matar, Davi pega o violão para tocar e cantar as composições do pai – sobretudo aquelas que não frequentaram as paradas de sucesso.

Essa ligação tão estreita entre pai e filho, que se encontraram, além do afeto, também na música, é celebrada no EP Todos Nós (Biscoito Fino), que Davi acaba de lançar com quatro canções – três delas inéditas. O título, sugestão da irmã mais velha, Ciça, remete ao tempo em que Moraes e a mulher, Marília Mattos – que também morreu no ano passado –, carregavam os filhos pelas frequentes turnês pelo Brasil e exterior. Também se refere à primeira composição feita por Davi e gravada pelo pai no álbum Bazar Brasileiro, de 1980.

Entre as inéditas, o samba Aquele Abraço do Gil, é uma das últimas letras que Moraes escreveu – a outra, Saudação aos Músicos, em parceria com Luiz Caldas, foi lançada em julho – e deu para a cantora e compositora carioca Joyce, de quem ele sempre se confessou fã, segundo Davi, colocar a melodia. A canção abre com versos que hoje soam premonitórios. “No meu andar de passista / A minha alma de artista / Deixa o corpo / E voa / Ao exalar-se etérea / Ali mesmo onde a matéria ainda não povoa”.

A letra foi entregue a Joyce depois de um encontro em uma padaria – hábito que Moraes tinha todos os dias: colocar o jornal debaixo do braço, de chinelo ou tênis, camiseta, e ir para a padaria tomar café e bater papo com os amigos. Depois, passava em seu escritório, perto de casa, para trabalhar. Queria saber da agenda de shows. Conversava com todos. Não era raro algum amigo de Davi dizer: “encontrei com seu pai hoje”.

Moraes Moreira colocou David no palco do Rock In Rio em 1985

“Sinto que a chegada da pandemia foi um golpe duro para a cabeça dele. Ficou aprisionado em casa, não podia dar sua voltinha, fazer shows, ver os netos que ele adorava. Ele tinha esperança de que tudo iria se resolver rapidamente. Meu pai havia feito um check-up em janeiro que não apontou problemas de saúde. Não era um exemplo de cara que se cuidava, não tinha paciência para academia, mas estava tudo bem com ele. O exercício dele era o trabalho. Não fazia esteira, mas ficava 2, 3 horas cantando em cima do trio no carnaval da Bahia. Tinha uma disposição gigante. Ele viveu a vida de verdade”, diz Davi.

A faixa, cantada por Joyce, traz a guitarra percussiva e característica de Davi – pegada que ele aprendeu com o pai, que desde cedo o incentivou. Uma das lembranças mais fortes de Davi foi quando Moraes Moreira o colocou para tocar no palco em duas noites da primeira edição do Rock in Rio, em 1985, para uma plateia ávida pelos shows de roqueiros gringos como Ozzy Osbourne.

Moraes e o Armandinho, com suas guitarras e frevos – como Coisa Acesa, Bloco do Prazer e Festa do Interior – incendiaram a massa. Fez-se carnaval na Cidade do Rock. “Meu pai não fazia música regional. Era uma música para o mundo. Ao lado de Armandinho, nosso Van Halen, aquela guitarra elétrica com distorção. Eles mostraram que também arrastavam multidão. Para mim, foi muito importante meu pai me chamar para tocar com ele naquele palco. A intenção dele não era mostrar um filho prodígio, que tocava Brasileirinho com 11 anos, era para apresentar o Waldir Azevedo para a galera, que fez parte da minha formação, pois eu comecei tocando cavaquinho e, depois, levei o ‘sotaque’ do Waldir para a minha guitarra”, diz Davi.

Outra composição inédita, assinada por Mu Carvalho, instrumentista da banda A Cor do Som, que acompanhou Moraes Moreira em seus primeiros discos solos, e Tuca de Oliveira, chama-se O Cantor das Multidões, de caráter biográfico, fala de um “povo sofrido que se encanta no frescor dos carnavais” e de um compositor que cantou “coisas lindas do Brasil”. A faixa tem participação do baixista Dadi Carvalho, outro participante de A Cor do Som.

Dos Novos Baianos ao trio elétrico

O epíteto “cantor das multidões” é originalmente atribuído a Orlando Silva (1915-1978), mas não é exagero emprestá-lo ao compositor baiano, nascido Antonio Carlos Moreira Pires em Ituaçu, no interior da Bahia. Do rádio falante da praça, ele escutava os cantores do rádio e sonhava em ser músico. Ao migrar para o Sudeste, alcançou o sucesso ao lado de Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Pepeu Gomes e Baby Consuelo no Novos Baianos, que misturou rock ao samba, bossa nova e chorinho.

Em carreira solo, a partir de 1975, emplacou Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, Pombo Correio, Guitarra Baiana, Chão da Praça, Meninas do Brasil, Sintonia, Santa Fé, A Lua e o Mar, além de fornecer repertório para outros cantores. No carnaval baiano,  levou o afoxé,  ritmo que marca os cortejos dos terreiros de candomblé pelas ruas durante a folia, para cima do trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, algo que, mais tarde,  já com contornos pop, se transformou no que é chamado de axé music, pelas mãos de Luiz Caldas.

“Meu pai tinha noção de tudo o que fez, que foi gigante. Porém, nunca se gabou por isso. Se ele tivesse feito só os Novos Baianos, uma das maiores bandas de todos os tempos, já seria muito. Mas, depois, foi o primeiro cantor de trio elétrico e emplacou grandes sucessos. Na carreira solo, era um hit atrás do outro. Ele dizia que o canto dele era fora de padrão, era um jeito de cantar de forma percussiva – e fazia boleros e canções românticas com a mesma paixão que fazia frevos, afoxés e maracatus. Teve uma relação bonita com os grandes maestros e arranjadores como Lincoln Olivetti, Sivuca, Francis Hime e Cesar Camargo Mariano, que adoravam trabalhar com ele por conta do inesperado que ele trazia para as músicas”, diz Davi, emocionado.

Davi perdeu pai, mãe e avó no mesmo ano

A terceira música inédita de Todos Nós é um bolero que Davi compôs, com letra de Carlinhos Brown e o título de Aos Santos. Os versos parecem ilustrar o que Davi sente após dez meses da partida de Moraes e como ele lida com isso. “Eu mereço o fim desse sentimento/ Esse sofrimento determina as horas (...) Não sou de gritar/estou lamentando”.

A única regravação é Davilicença, de 1977, na voz de Marina Lima, que a canta acompanhada apenas pelo violão de Davi. A escolha é sentimental. A cantora era prima de Marília, mãe de Davi, que morreu em novembro de 2020, aos 69 anos, também vítima de enfarte, sete meses após Moraes.

 

Entre as perdas do pai e da mãe, Davi também enfrentou a morte da avó materna, dona Cândida, vítima de covid-19 aos 97 anos, de quem Davi guarda inúmeros bons momentos. Era ela que cuidava dele e da irmã mais velha, Ciça, enquanto Moraes caía na estrada, quase sempre acompanhado da mulher. “Minha avó nos levava para passear, fazia o dever de casa conosco. Só faltou me levar para o Maracanã ver o Mengo jogar”, brinca Davi, flamenguista roxo, assim como o pai. Da mãe, Marília, ele guarda a imagem de uma mulher forte e companheira de Moraes, mesmo depois que o casamento de mais de vinte anos chegou ao fim. “Ela era lindíssima, da turma do Arpoador. Reunia as pessoas. Foi uma partida parecida. De repente, é aquilo que dizem... eles queriam ficar juntos também no outro plano”, diz.

Davi planeja trabalhar com outras músicas inéditas e poemas do pai

Pouco antes da pandemia impor o isolamento social, Moraes se apresentou com o show Elogio à Inveja, no Rio de Janeiro. Nele, cantava composições que dizia que gostaria de ter feito, como Quem Há de Dizer, de Lupicínio Rodrigues. O último disco ele havia gravado dois anos antes, Ser Tão, inspirado na literatura de cordel. Moraes gostava do novo. “Quando um fã o parava na rua e falava de músicas antigas, ele dizia, brincando: legal, mas eu ainda não me aposentei não, viu? Tenho músicas novas. Ele ficava um pouco chateado quando um contratante não queria o show do trabalho novo e pedia uma apresentação de sucessos. Ele tinha aquela vontade de fazer o novo, como um menino que estava começando a carreira”, conta Davi.

Davi diz que ele e a irmã encontraram algumas músicas inéditas nos guardados do pai. Moraes também deixou 15 poemas que escreveu quando a pandemia começou e que planejava entregar para o filho fazer uma trilha para que ele pudesse declamá-los. Com calma, Davi vai trabalhar nesse material.

Davi também prepara um novo álbum – que ele pretende lançar ainda no primeiro semestre – com músicas inéditas feitas em parcerias com nomes como Fausto Nilo, Luiz Caldas, Chico Brown, Rodrigo Maranhão e Gerônimo. 

Sem cobranças, Davi observa sua única filha, Alice, de 8 anos, do seu casamento com a cantora Maria Rita – neta, portanto, de Moraes, Elis Regina e Cesar Camargo Mariano –  se interessar pelo piano. “Ela é fã de Alicia Keys. Também canta o repertório dos Novos Baianos de maneira muito certa, como A Menina Dança, com divisão perfeita e com os improvisos que a Baby (do Brasil) faz”, conta, orgulhoso.

ELES CANTAM MORAES

Com quase 600 músicas, o músico foi gravado por grandes nomes da música brasileira

Gal Costa – A cantora deu voz aos frevos Festa do Interior, com Abel Silva, e Bloco do Prazer, parceria com Fausto Nilo, que se tornaram hits do carnaval brasileiro. Ela também gravou Dê um Rolê, parceria com Luiz Galvão, o emblemático álbum Fa-tal.

Maria Bethânia – No álbum A Beira e o Mar, está Caso de Polícia. Bethânia também cantou o frevo De Noite e de Dia, parceria de Moraes e Fausto Nilo, e Sonhei Que Estava em Portugal.

Caetano Veloso – O baiano é um dos convidados do disco Quando Fevereiro Chegar, com composições de Fausto Nilo, parceiro de Moraes em Coisa Acesa. Caetano também a cantou sem sua primeira live, em uma versão voz e violão. No show Cê Ao Vivo, ele registrou Chão da Praça.

Nana Caymmi - Acompanhada por Cesar Camargo Mariano ao piano, ela interpretou a música Sede, composta apenas por Moraes. A letra diz “sou feliz quando enfim componho”.

Angela Maria – Fã da cantora, Moraes escreveu Sempre Angela especialmente para ela. A faixa acabou por batizar o disco que a artista lançou em 1984 e traz o compositor em participação especial.

Ney Matrogrosso – Ao lado de Zeca Barreto e Paulo Leminski, Moraes deu a Ney um grande sucesso em 1982, Promessas Demais, tema de abertura da novela Paraíso.

Simone – Em 1981, em fase de grande popularidade, a cantora emplacou nas rádios Pão e Poesia, de Moraes e Nilo. 

Zizi Possi – Ela abre seu disco Pedaço de Mim, de 1979, com duas composições de Moraes: Fruto Maduro, gravada com a participação do grupo A Cor do Som, e Acordei. A primeira já havia sido gravada anteriormente por Wanderlea.

Luiz Melodia – O cantor e compositor carioca deu uma interpretação bem pessoal para Mistério do Planeta, de Moraes e, no disco Pintando o Sete, de 1991.

Maria Rita – Em 2018, ela batizou seu sexto álbum com o nome da canção Amor e Música, parceria com Luiz Paiva, e fez duas versões para ela: uma em ritmo de bolero e outra em samba. O disco teve participação de Davi Moraes.

 

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