Yannick Falisse
Yannick Falisse

Moons expande a sua intimidade em novo disco

Projeto iniciado por André Travassos agora passou a ser um sexteto com nomes do indie de Belo Horizonte

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 06h00

Dois anos antes da sua antiga banda Câmera anunciar a entrada em um hiato por tempo indeterminado, o músico mineiro André Travassos já estava só diante do público armado somente de seu violão. Para o show que integrava a programação do festival Mostra Cantautores, realizada em Belo Horizonte, em 2014, ele remoeu suas lembranças, reviveu canções antigas, composições que não imaginava serem cantadas ao microfone. Quando ainda era vocalista do Câmera, André Travassos também já era Moons.

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Afinal, em outubro daquele ano de 2014, o Câmera também lançaria seu disco de estreia, depois de dois EPs, chamado Mountain Tops (pelo selo paulistano Balaclava Records). A banda ainda giraria pelo mundo até o anunciado fim, em 2016. Sozinho, dessa vez para valer, Travassos seguiu - até mesmo a música não era mais prioridade. “Eu brinco que aquele show em 2014 foi o embrião de tudo, porque me fez pensar que eu, um dia, gostaria de ter um grupo cujas músicas focassem mais na canção, nesse formato, na voz e no violão”, conta. “Mas quando a banda entrou naquele hiato, eu realmente não me via nesse meio da música de novo. Precisava de um tempo.”

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O tempo veio. Nele, Travassos se fechou no seu quarto, no seu universo particular. Ele e o tal violão. Dali, aos poucos, com canções novas e antigas, surgia o Moons, o projeto que praticamente se impôs a ele. O Moons é guiado de versos que tratam do íntimo, acompanhados primeiramente pelo instrumento acústico - as outras camadas chegam depois, mas elas apenas gravitam em torno dos dois principais elementos dessa estética sonora. Saiu, gravado no estúdio Ilha do do Corvo, com produção de Leonardo Marques - o mesmo que, ano passado, ajudou a Maglore a burilar seu melhor álbum, o quarto disco deles, Todas as Bandeiras -, Songs of Wood and Fire, em outubro de 2016. “É quando eu considero início do Moons. Quando sai o primeiro disco”, explica Travassos, a revirar suas memórias recentes com o novo projeto.

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O motivo da entrevista é outro. É a nova camada sonora que o Moons ganhou, encorpando-se com novos músicos. O que era um projeto solo, íntimo, se expandiu e abraçou novos músicos. Com um novo disco lançado recentemente, chamado Thinking Out Loud (não confundir com a música de mesmo nome de Ed Sheeran, vencedora do Grammy), novamente pela Balaclava Records, Travassos viu que é possível ser íntimo e expandido, ao mesmo tempo. Agora, o Moons é Travassos, Bernardo Bauer (voz e baixo), Digo Leite (voz, gaita, banjo e violão), Felipe D’Angelo (voz, teclado, piano e guitarra), Jennifer Souza (voz e guitarra), Tiago Eiras (bateria e percussão) e Victor Magalhães (teclado, piano e synths), todos integrantes de uma interessante cena de música independente de Belo Horizonte.

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O Moons não perdeu seu bucolismo, não sanou suas questões existenciais, também não tem o coração curado e em paz. Ainda corre nas veias do projeto o mesmo lirismo de Travassos e sua intenção de se livrar dos próprios fantasmas ao sussurrar ao microfone e acariciar as cordas do seu violão. Acompanhado, agora, ele incorpora novas ideias estéticas e opções sonoras que, sozinho, jamais teria.

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Gestado em duas imersões criativas em 2017, em Brumadinho, município localizado na região metropolitana de Belo Horizonte, Thinking Out Loud soa, mesmo, como o passo seguinte a ser dado pelo agora grupo. Não tropeça no erro de se repetir os que deu certo, as mesmas fórmulas.

Evolui, progressivamente, para criar um ambiente mais acolhedor para tais versos. É como se, em Songs of Wood and Fire, o ouvinte estivesse diante de um quarto ainda vazio, de alguém que mudou de vida recentemente: um colchão, uma janela, uma escrivaninha e um violão. Mais nada.

Com Thinking Out Loud, dois anos se passaram desde a mudança. O espaço é aconchegante, o criado-mudo posicionado ao lado da cama nova traz um livro de poemas lido todas as noites, a janela ganhou cortinas e até um vaso de planta, a escrivaninha agora é tomada de papéis, anotações e mais livros. O violão, é claro, segue ali, dois anos mais gasto, dois anos mais macio de se tocar. As metáforas funcionam porque Thinking Out Loud é imagético, cinematográfico, quase. Tem clima, como se fosse um rolo de um filme perdido de Jean-Luc Godard, montado por David Lynch e sonorizado com artistas como Bob Dylan, Nick Drake e Wilco. “Eu realmente estava disposto a me afastar do mercado da música, mas era maior do que eu, saca?”, diz Travassos. “Mas percebi que era uma boa maneira de colocar um monte de coisa para fora, exorcizar uns demônios” - e para aproveitar que o quarto imaginário, agora, tem lugar e espaço para mais gente. 

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