FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

Montreux Jazz Festival será realizado no Rio

Braço brasileiro de um dos mais importantes festivais de jazz do mundo será em junho, com 40 atrações no Pier Mauá e outras pela cidade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2019 | 21h08

Em meio a desmontes de patrocínios culturais, ameaças de cortes na Cultura e redução em festivais e circuito de casas de show, uma boa notícia vem do Rio de Janeiro. Depois de anos de negociação, o produtor Marco Mazzola, 68 anos, responsável por alguns dos maiores discos da música brasileira, vai realizar no Brasil o Rio Montreux Jazz Festival, um braço brasileiro do histórico Montreux Jazz Festival, que acontece desde 1967, na Suíça, com os maiores nomes do jazz do Planeta.

O Rio Montreux será entre 6 e 9 de junho e terá 40 atrações divididas em três palcos armados no Pier Mauá, nomeados com nomes de brasileiros gigantes: Ary Barroso, Tom Jobim e Villa-Lobos, com capacidade para receber até seis mil pessoas por dia de evento. Haverá ainda áreas de convivência com bares e food trucks. As vendas de ingressos começaram nesta terça, dia 16 de abril. Os preços vão de R$ 25 a R$ 187.

Há nomes grandes que Mazzola conseguiu trazer para shows exclusivos no Rio Montreux, como os guitarristas Al Di Meola, Stanley Clark e John Scofield. Steve Vai, um dos maiores do mundo na linguagem do rock fusion, quase não veio por um detalhe pessoal. O dia reservado para seu show é 6 de julho, coincidentemente, seu aniversário. “Ele então decidiu vir com a família e comemorar no festival”, diz Mazzola.

O maior palco será o Villa-Lobos, com capacidade para ter até 3,5 mil pessoas em pé, no Armazém 3. Uma das atrações confirmadas para este espaço, no dia 9 de junho, tem potencial para se tornar histórico. Às 23h30, a reunião batizada Brasil Cuba terá Ivan Lins, Chucho Valdés e seu antigo grupo cubano, o Irakere. Chucho, um dos pianistas mais impressionantes da música cubana, diz com frequência que um de seus melhores discos foi justamente o fruto desse encontro realizado em 1996, na Casa de la Música, em Havana.

No mesmo dia, o palco Tom Jobim terá como destaque, depois do encontro do saxofonista Carlos Malta com o Pife Muderno, o guitarrista John Scofield e seu Combo 66. Aos 67 anos, Scofield traz a formação de quarteto com a qual tem viajado nos últimos anos: o baterista Bill Stewart, o pianista/organista Gerald Clayton e o baixista Vicente Archer. Seu Combo 66 é quente, cativante e cria uma ambiente setentista muito graças aos timbres de teclados Hammond de Clayton, que deixam a Gibson de Scofield levantar voos. Um grande show de um dos guitarristas mais elegantes de sua geração, que tem Wes Montgomery como um de seus maiores influenciadores.

O primeiro dia terá ao menos duas belas atrações. O Quarteto Jobim terá como convidada a cantora Maria Rita para o show Chega de Saudade: 25 anos sem Tom Jobim. Às 22h, Al Di Meola, 64 anos, vem com um trio acústico para mostrar uma das linguagens mais intrigantes deste violonista meio flamenco, meio jazz que compôs nos anos 1990, com John Scofield e Paco de Lucia, o trio das cordas mais poderosas do mundo. Dentre outros nomes confirmados, estão também Stanley Clarke, Hermeto Pascoal, Yamandu Costa e Andreas Kisser.

Uma preocupação de Mazzola, como ele diz, é a de mostrar a geração que tem renovado a música instrumental brasileira. “Sempre lutei muito por essa música, e fico triste quando vejo músicos brasileiros sendo mais reconhecidos fora do País.” Seu empenho por essa divulgação no Montreux vem de anos. Mais precisamente desde 1978, quando se tornou responsável pela noite brasileira do festival de Claude Nobs. Dos nomes que levou para o evento, estão Gilberto Gil, João Gilberto, Tom Jobim, Maria Bethânia, João Bosco e um encontro que se tornaria dos mais lendários, entre Elis Regina e Hermeto Pascoal, em 1979 (leia mais ao lado).

Além da programação de shows no Pier Mauá, outros cinco pontos do Rio terão apresentações gratuitas nos dias do evento. O Parque Madureira terá o Palco Pixinguinha, com área com capacidade para receber um público de até 5 mil pessoas. Outros locais terão os palcos chamados Montreux Urbano. O projeto pode se tornar um dos últimos a serem realizados sob a já considerada ‘velha’ Lei Rouanet, já que iniciativas que custem mais de R$ 1 milhão, como é o caso do festival, não terão mais captação aprovada pelo Governo Federal, como quer o presidente Jair Bolsonaro.

O potencial do Brasil em produzir uma das renovações mais relevantes do novo jazz é reconhecida pelo exterior. Artistas relativamente novos como o gaitista Gabriel Grossi e o contrabaixista Michael Pipoquinha terão espaço em uma programação com uma série de homenagens. Os novos fazendo leituras de mestres como Luiz Gonzaga, Egberto Gismonti, Pixinguinha e Paulo Moura. “É muito gratificante poder trazer um evento de grande representatividade da Suíça para o Rio”, diz Rudolf Wyss, cônsul-geral da Suíça no Brasil, em um comunicado. “O Rio trata-se de uma cidade conhecida mundialmente por sua musicalidade. Com tantos talentos nacionais e internacionais, temos certeza de que esse será o primeiro de muitos.”

Se o rock conseguiu sua justa posição em um festival economicamente saudável como o Rock in Rio, o que impediria o jazz e a música instrumental, resguardadas as diferenças de posicionamento, de ter um encontro anual? O Montreux pode ser um teste para responder a essa pergunta. Com preços bem mais praticáveis, resta saber como a marca será não só respeitada em sua licença brasileira como também terá explorado seu potencial para atrair anunciantes.

Um projeto que se tornou a marca mais famosa do jazz

O Festival de Jazz de Montreux foi fundado em 1967 pelo trio Claude Nobs, Géo Voumard e René Langel. Em pouco tempo, passou a ser considerado o mais famoso festival de jazz do mundo. Sua primeira edição foi realizada no Montreux Casino e durou três dias, em uma época em que todos os músicos eram de jazz puro. Só anos mais tarde outros estilos seriam aceitos e a noite brasileira ganharia um espaço fixo. Muitos álbuns antológicos sairiam também das apresentações feitas naqueles palcos.

Um dos encontros históricos aconteceu em 1979, quando Hermeto Pascoal acabou dividindo a cena com a cantora Elis Regina. A reunião foi no improviso, cada um estava ali para fazer seu próprio show, mas Hermeto e Elis acabaram armando tudo no palco. Ao tocar a harmonia de músicas como Garota de Ipanema (que Elis jurava que jamais cantaria) e Asa Branca, Hermeto fez o que sempre gostou de fazer: entortou as sonoridades a ponto de levá-las ao limite da identificação. Em suas mãos, era como se se tornassem outras músicas. Elis sorria, respirava fundo, batia no tampo do piano de Hermeto e não deixava a bola cair mesmo nos momentos em que não sentia mais o chão. Hermeto responderia, anos mais tarde, que jamais quis derrubar Elis Regina, como muitos acreditam até hoje. “Eu só puder fazer aquilo porque era com a Elis. Outra cantora não conseguiria fazer o que ela fez.” Seu conceito de improviso não é o mesmo dos jazzistas. Ele acredita que o susto, a surpresa, tem de ser real, e não falsa, como é ensinada em escolas de jazz renomadas.

Destaques

6 de junho

Al Di Meola Acoustic Trio

Steve Vai

7 de junho

Yamandu Costa com Camerata Jovem do Rio

The Stanley Clarke Band

8 de junho

Hamilton de Holanda convida Paulinho Costa

Hermeto Pascoal

9 de junho

John Scofield Combo 66

Brasil Cuba: Ivan Lins, Chucho Valdés e Irakere

SERVIÇO

Duração de cada show: Aproximadamente 1h15min

Ingressos: A partir de R$ 25,00 (ver tabela)

Classificação etária: 16 anos. Menores de 16 anos somente acompanhados dos pais ou responsáveis legais.

Abertura do Pier Mauá: 18h

Abertura dos armazéns: 30 minutos antes do início do show 

Acesso para deficientes: sim 

Venda de ingressos no site: https://riomontreuxjazzfestival.uhuu.com

Venda a grupos: negocios@uhuu.com 

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