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Montagem polêmica de 'Il Trovatore' é lançada em DVD e Blu-Ray

O cineasta Philipp Stölzl retira a história da Espanha original e leva ao palco uma profusão de referências - do cinema aos quadrinhos

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

29 Dezembro 2014 | 18h39

O ‘regietheater’ tomou de assalto o universo da ópera no pós-guerra. O termo, cunhado na Alemanha, se refere à prática de subverter as intenções originais do compositor – período e local da ação, enredo etc – na hora de recriar sua obra. E, de um Don Giovanni de mafiosos nova-iorquinos a uma corte apresentada sentada em vasos sanitários, em O Baile de Máscaras, ela ajudou, com sucesso nem sempre unânime, a ressignificar alguns pilares do repertório. 

Também, claro, chocou plateias. Foi o que aconteceu, por exemplo, quando, em dezembro de 2013, a Staatsoper de Berlim estreou uma nova produção de Il Trovatore, de Verdi. Assinada pelo cineasta Philipp Stölzl, a montagem, que acaba de ser lançada em DVD e Blu-Ray, retira a história da Espanha original e a estabelece em um cenário atemporal – uma espécie de caixa cênica que se transforma a todo instante e sugere uma grande profusão de referências: do surrealismo ao cinema de Tim Burton, passando pelo punk rock, o universo dos quadrinhos e a evocação de Alice no País das Maravilhas.

Parece incrível que o ‘regietheater’, um senhor já sessentão, consiga ainda chocar parcelas da plateia – e isso diz muito sobre a tendência ao conservadorismo que parece inerente ao mundo da ópera. 

Por outro lado, justiça seja feita: chocar apenas pelo prazer de chocar, sem a criação de um discurso artístico coerente, já não é um ato de ruptura mas, talvez, uma tentativa de esconder, atrás de uma pretensa atitude de vanguarda, a dificuldade de lidar com as especificidades da ópera como gênero.

Porque, no fundo, depois de décadas de atualizações e adaptações de tramas, entre a vanguarda e a tradição, parece claro que o ponto de partida estético já não é garantia de qualidade. Há montagens naturalistas que, pela incapacidade de trabalhar a conexão entre texto e música, tornam-se profundamente enfadonhas, assim como uma grande sacada cênica pode se esgotar rapidamente se não nascer justamente de elementos propostos pela partitura e libreto originais.

No caso do Trovatore de Stölzl, no entanto, não é isso que acontece. Pode parecer absurda a variedade de referências das quais o diretor se aproxima – mas até que ponto ela não tem base, como quer o diretor, no caráter caleidoscópico e quase irreal da obra de Verdi e o modo como ele adapta, tomando diversas liberdades, o texto original de Antonio García Gutiérrez?

Seja como for, para além das inserções pontuais na trama, o que impressiona é a qualidade da execução, o trabalho de direção de atores, com um cuidado com a palavra e um gestual que fica entre o natural e o estilizado, assim como a música de Verdi, na ópera, flutua entre a tradição do bel canto e a busca por um tipo de canto que dê forma a uma nova proposta teatral. 

Na obra do compositor, afinal, cenários e contextos históricos não são um fim em si mesmo mas, sim, ponto de partida para a discussão entre o modo como o homem se relaciona com o meio em que vive. E esse tema não pertence exclusivamente a nenhuma época.

Não foi, no entanto, apenas a concepção cênica a chamar atenção para esta montagem na época de sua estreia. Nela, afinal, ocorreram três estreias significativas: Daniel Barenboim regeu a ópera pela primeira vez; a soprano russa Anna Netrebko fez sua primeira Leonora; e o tenor Plácido Domingo acrescentou mais um papel de barítono à sua trajetória, o Conde de Luna. 

A regência de Barenboim ressalta o que há de mais sombrio nessa história de amor entrecortada pelo ódio, em que mulheres são levadas à fogueira, jovens heróis se lançam em nome da paixão e da honra e uma cigana, à beira da histeria, enlouquece às voltas com o desejo de vingança. 

Anna Netrebko, por sua vez, encontra-se em um momento de transição em direção a papéis mais pesados – e o senso de estilo e a carga dramática que empresta a cenas como o Miserere ou a ária do quarto ato dão prova de que a decisão parece acertada. Destaque ainda para a assustadora e vocalmente sensual Azucena da meio-soprano Marina Prudenskaya e para o Manrico apaixonado e lírico do tenor Gaston Rivero.

E Plácido Domingo? Há alguns anos, quando os papéis de tenor já pareciam fora de seu alcance, ele começou a cantar o repertório de barítono. É impressionante que, aos 72 anos, ele siga no palco, com tamanho vigor. Mas é preciso dizer, ao mesmo tempo, que, do ponto de vista vocal, ele não canta como tenor ou barítono. Plácido Domingo canta como Plácido Domingo. E, se isso significa que nem todas as notas parecem estar no lugar certo, também é testemunho da sua inteligência musical – um fenômeno que sempre vale a pena ver de perto.

IL TROVATORE

Elenco: Plácido Domingo, Anna Netrebko e Daniel Barenboim

Selo: Deutsche Grammophon (R$ 130)

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