Montagem de "Don Carlo" atualiza ópera de Verdi

Uma daquelas grandes óperas dorepertório mundial, Don Carlo, de Verdi, volta nesta quinta-feiraapós 80 anos ao palco do Teatro Municipal de São Paulo. Quandoas cortinas subirem, porém, não espere ver retratada a Espanhado século 16, os salões imponentes do Escurial, um dos maiorespalácios imperiais europeus, ou as sedas e o ouro da cortefrancesa. Na concepção do diretor teatral Gabriel Villela, quefaz sua segunda incursão pela ópera, a trama de amor, traição eguerra é ambientada na Grécia antiga e ganha o adicionalatualíssimo da crítica ao governo Bush e à guerra no Iraque.Parece estranho? Não é à toa que a volta do ´Don Carlo´ reacendea discussão sobre o estágio atual das montagens operísticas. "A ópera é uma arte estagnada no tempo", provoca oencenador. "Atualizá-la é uma obrigação, já que seu grau deinverossimilhança chegou a um nível insuportável." Villelatambém não poupa de críticas o sistema de produção do Municipal."Fazemos tudo sem dinheiro, é inacreditável. Não devia serassim. Está sendo uma das experiências mais difíceis da minhacarreira." O enredo de Don Carlo é um emaranhado de tramas ehistórias paralelas. O ponto de partida é o seguinte: em umacordo para que a paz seja selada, Elisabetta, filha do reifrancês, é prometida a Carlo, filho do rei espanhol. Os dois seapaixonam mas Felipe II, na época o grande monarca europeu,resolve que é ele próprio quem deve se casar com Elisabetta. Daíem diante, a história se desenrola a partir das motivações decada um dos protagonistas: Carlo (o tenor Octavio Arevalo),perdido entre a paixão pela madrasta e a decisão de lutar contrao exército do pai; Felipe II (o baixo Julian Konstantinov), umrei que descobre a solidão do poder e sua impotência perante aIgreja (encarnada na figura do Inquisidor, o baixo Luis OtavioFaria); Elisabetta (a soprano Laura de Sousa), dividida entre oamor e a honra; Eboli (a meio-soprano Mariana Cioromilla),princesa que apaixonada - e rejeitada - por Carlo, quase provocasua morte; e o marquês de Posa (o barítono Rodrigo Esteves),amigo do príncipe, herói de guerra que defende o fim do conflitoe um bando de idéias liberais. Até pela trama, tirada da peça de mesmo nome do alemãoFriedrich Schiller, Don Carlo é uma das mais sombrias óperasdo repertório italiano. Estreada em 1867, tem uma série deinovações musicais que mostram Verdi repensando a tradiçãoitaliana. Isso significa na prática, entre outras coisas, ummaior poder dramático, que vem da relação mais direta daorquestra com o canto, ou seja, da música com o texto, comoressalta o maestro Ira Levin. Outro aspecto importante é aexcelência como Verdi une dramas pessoais e suas conseqüênciaspolíticas. Verdi sempre se preocupou com o aspecto teatral, cênico,de suas obras. Don Carlo é símbolo dessa preocupação. E essapremissa está no centro da concepção de Gabriel Villela para aópera. Se Verdi busca o teatro na concepção da peça, volta àsorigens do gênero - o teatro grego. Daí, portanto, o cenário deJ.C. Serroni, que recria uma espécie de arena grega. E Bush, aguerra, onde entram? Felipe II promove conflitos e mortes emnome da Santa Igreja. "O homem de hoje rompeu com Deus, masainda usa seu nome como pretexto para guerrear", diz Villela. Nopapel, a idéia funciona. O que o público espera é ver como issose traduz na prática do palco - no termômetro do ensaio geral deterça-feira, um misto de aplausos e vaias.PRESTE ATENÇÃO"...na ária Io l?ho perduta, de Carlo, no 1.º ato. Ela relembra ao público o que aconteceu antes do início da ópera: o dia em que Carlo e Elisabetta se conhecem e trocam juras de amor, antes da decisão de Felipe II de se casar, ele próprio, com ela. Ouça a ária. ...na primeira cena entre Carlo e Elisabetta. No dueto, a música, de caráter ora lírico ora exitante, realça dramaticamente a presença e a impossibilidade do amor dos dois. Repare também no outro dueto, no fim da ópera. A tensão aqui também é forte mas se resolve musicalmente, com uma das mais belas melodias escritas por Verdi, quando eles aceitam que devem seguir caminhos distintos e, um dia, se encontrar no céu, em ?um mundo melhor?....na cena de confronto entre o rei e o marquês. Além de mostrar o talento de Verdi para escrever para vozes mais baixas, ao opor um baixo e um barítono, ela é significativa também dramaticamente: revela que o rei sente falta de alguém em quem confiar; e, ainda, o caráter libertário de Posa, que tanto vai influenciar a história. Clique para ouvir. ...nas árias de Eboli, que mostram musicalmente a evolução da personagem. Na primeira, Nei giardin del bello, exige-se da intérprete mais leveza, quando ela diverte com seu canto a corte. Na segunda, O don fatale!, o tom é mais pesado: após ser exilada, ela agora se pune por ter tramado contra o príncipe e a rainha....nas duas grandes árias Ella giammai m?amo, em que o rei descobre a solidão do poder pouco antes de ser confrontado pelo Inquisidor, e Tu che le vanità, o momento mais forte da soprano em toda a ópera, um grande desabafo de quem até então se manteve resignada em sua condição. Don Carlo. 240 minutos (com intervalo). TeatroMunicipal (1.464 lugares). Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, centrode São Paulo, 222-8698. Quinta, sábado, terça e sexta,20h30; domingo, 17 horas. De R$ 30 a R$ 100. Até 29/8

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