JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Monsters of Rock encerra sexta edição com força maior do que dois anos atrás

Festival reuniu nomes como Ozzy Osbourne, Kiss e Judas Priest

Pedro Antunes, O Estado de S. Paulo

27 de abril de 2015 | 00h21

Difícil um fã de heavy metal ter saído desapontado ao fim da jornada de dois dias do festival Monsters of Rock, realizado neste fim de semana, na Arena Anhembi, na zona norte de São Paulo. Entre rostos pintados e sujeitos vestidos de viking, o que se viu ali foi um mar de camisetas pretas e cabelos compridos sacolejando para todos os lados, seja com Ozzy Osbourne, encerrando a noite de sábado, seja com o Kiss, domingo.

A banda de Paul Stanley, Gene Simmons e companhia foi encarregada de criar o desfecho dourado para dois dias de festival. Entregou o mesmo show da turnê, sim, mas isso não significa algo ruim em termos práticos. O Kiss, como uma banda-empresa, aprendeu os atalhos em quatro décadas de estrada e não se faz de rogada ao usá-los. Fogos de artifício, conversas com o público e demonstrações de amor eterno – como o grito de “vocês são demais”, de Stanley – funcionam bem na arena. Os hits históricos, evidentemente, ajudam a turma de maquiados. 

Detroit Rock City, Creatures of the Night, Psycho Circus e I Love it Loud são descarregados na sequência. Arrebatador, mesmo depois de mais de 12 horas de festival. Canções novas, do disco Monster, de 2012, obviamente não têm o mesmo poder das composições antigas. Hell or Hallelujah, por exemplo, foi anunciada como “um futuro clássico” por Stanley. Mas, aparentemente, esse futuro ainda está distante. Mesmo que isso não tire a força do Kiss no palco. Renovação, mesmo homeopática, é sempre bem-vinda. 

Única atração ao se apresentar nos dois dias de evento, o Judas Priest executou com perfeição a função de reunir diferentes tipos de fãs de heavy metal e suas quase infinitas vertentes. Afinal, quem não quer juntar a Rob Halford nos urros de Breaking the Law? Ou ainda com outros clássicos, tais como Victim of Changes ou a sempre infalível Metal Gods

Como no sábado, o Priest fez aquilo que se espera de um show de metal pesado e não poupou esforços para encarar os fãs paulistanos pela segunda noite seguida. 

Diante de uma plateia menos convidativa e com uma performance estendida, a banda talvez tenha ficado abaixo do que se poderia esperar – e do que mostrou em shows anteriores no País. No domingo, foi igual, mas diferente. Banda e público entraram em comunhão e a tal magia do heavy metal funcionou melhor. 

O segundo dia do festival abriu com a única atração completamente brasileira, Doctor Pheabes – alguns outros brasileiros subiram no palco, é bom lembrar, caso de Andreas Kisser, guitarrista de Sepultura e De La Tierra, e o baterista Aquiles Priester, no comando das baquetas do Primal Fear. 

A sequência mostrou a farofa em estado puro, brilhantemente encenada pelo Steel Panther. Exagerados, escatológicos, excessivamente cênicos, eles encarnam todo o glam e hard rock oitentista. São toneladas de laquê e ventiladores próximos ao palco, com letras capazes de deixar ruborizado até o mais assanhado fã de heavy metal. Cada verso zomba, esculacha e sacaneia. São propositalmente machistas, cantam a mulher objeto e o amor livre. 

Na sequência, um virtuosismo chocante de Yngwie Malmsteen. Chega a ser chato ver um sujeito esmiuçando a guitarra, em um duelo contra o tempo, na busca de quebrar o recorde de maior quantidade de notas executadas por minuto. O fim da apresentação, com destruição das guitarras, deram algum ânimo. Mas, convenhamos, depois que Jimi Hendrix queimou uma guitarra no palco, nada mais parece ser tão inovador assim. 

Já o Unisonic emula a velocidade. Speed metal – sim isso existe – de classe, com herança direta do Helloween. Michael Kiske, vocalista da famosa banda alemã, fundou o Unisonic, em 2009. Embora as canções da nova safra sejam interessantes, são os hits do Helloween que fizeram a Arena do Anhembi vibrar de verdade. 

Os níveis de testosterona subiram a níveis altíssimos com Manowar. Talvez a segunda banda mais esperada da noite, numa contagem superficial de logos em camisetas escuras. São canções sobre heróis, vitórias e tradições nórdicas. Ainda tem algo de farofa, como o Steel Panther, mas eles, neste caso, se levam a sério. “Prometemos que viríamos e aqui estamos. Já prometo que vamos voltar de novo”, disse Eric Adams, em um português pausado, porém assustadoramente bom. 

Filas são comuns em festivais, mas ainda há uma clara necessidade de reinvenção de festivais de grande porte. O Monsters of Rock mantém apenas um palco e isso gera atraso e um grande fluxo de pessoas indo e vindo a cada início de show. Caminhar não era um problema, mas todos os serviços, nos intervalos ficam abarrotados. 

O Monsters of Rock encerrou a sexta edição com uma força muito maior do que dois anos atrás. Heavy metal puro, sem pender para facilidades pop. Se as atrações principais são velhos conhecidos nos palcos brasileiros, como Ozzy, Judas Priest e Kiss, isso é um reflexo da renovação deficitária de um gênero que precisa de novidades fortes o bastante para encabeçar um festival gigante como esse. 

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