Mombojó e Bonsucesso Samba Club no Sesc Pompéia

Diz a letra de O mais Vendido, faixa de abertura de Homem-Espuma (Trama), o segundo álbum do festejado Mombojó: "Não quero ser o mais vendido/ Nem quero falar só com seu ouvido/ Eu quero entrar no seu coração/ Nem quero falar só de amor." Com essa declaração de princípios, o grupo pernambucano faz um paralelo com o promissor trabalho de estréia. Se musicalmente há uma visível evolução, eles amadureceram mantendo uma de suas principais características sonoras (ao variar de ritmos e andamento dentro de uma mesma canção) e a "ojeriza à prática publicitária", como diz o trompetista e violonista Marcelo Campello. A exemplo de Nadadenovo (2004), o septeto também disponibilizou todas as faixas do segundo CD para serem baixadas de graça em MP3. "O grande marketing da banda sempre foi o copyleft. Essa postura gerou a maior discussão interna na hora de assinar o contrato, mas a gravadora aceitou essa cláusula porque também vem estudando novas possibilidades de mercado", diz Campello. Trabalhando a imagem da banda nesse sentido, ele diz que a colheita da divulgação na internet não poderia ter sido melhor. "O retorno financeiro vem da renda dos shows. Disco vende muito pouco." Nos shows - como o que vão fazer na madrugada de sábado para domingo no Sesc Pompéia, dividindo o palco com o Bonsucesso Samba Club, dentro da Virada Cultural - os CDs serão vendidos a R$ 15. "O ideal é R$ 10", defende Campello. Para baixar o custo do CD ao consumidor, o grupo optou por usar poucas cores na capa (em tons de azul e sem fotos) e um encarte simples sem as letras. O som compensa essas deficiências. Desta vez, diante do aparato instrumental disponível no estúdio da Trama, os sete deitaram e rolaram. "Parecíamos crianças em loja de brinquedo", compara Campello. A analogia não é gratuita: a nostalgia da infância ecoa em boa parte de Homem-Espuma. Isso desde o título, que remete a algum super-herói de quadrinhos, até as referências retrô futuristas. Há som de Theremin (muito usado em antigos filmes de ficção científica) extraído de teclado; alguma psicodelia à moda dos Mutantes; timbres de videogame; levadas de pop jovem-guardista; suingue de samba esquema novo do velho Jorge Ben - daí também um link com os contemporâneos do mundo livre s.a., aos quais são comparados -, que está no processo de fermentação do mangue beat, etc. "Tivemos acesso a amplificadores valvulados, guitarras e baixo vintage, teclados Moog. A gente adora um quentinho de válvula. Isso é que também faz o disco soar retrô, mas nós também gostamos de programação, de Aphex Twin. Quando usamos um simulador de Theremin no fim de Fatalmente, a referência para mim era o Moon Safari, do Air", conta. Não falta por isso quem os compare, mais uma vez, a Los Hermanos. "Outros integrantes do Mombojó gostam deles, mas, a não ser Anna Júlia, eu nunca tinha escutado. Ouvi alguma coisa do 4, sem muito interesse, mas não por falta de respeito. Só estou com a cabeça em outro lugar", explica Campello, que apesar do nome sonoramente parecido com o de Marcelo Camelo, diz que está mais voltado para a música erudita. E deixa as portas abertas "a qualquer possibilidade", que, com o interesse pela pesquisa sonora e "um certo grau de desprendimento", os aproxima dos tropicalistas. Um deles, não por acaso, é um dos convidados do CD. É Tom Zé, que canta um trecho de Tô (dele mesmo) no fim de Realismo Convincente. "Já fazíamos citação dessa música do Tom Zé e, por coincidência, no dia da gravação ele apareceu na Trama. Tomamos coragem e acabamos fazendo o convite. Ele foi supersolícito", conta Campello. Outra referência, "no plano metafísico", pode ser atribuída à fase mística de Tim Maia na seita Racional, que gerou dois álbuns clássicos do soul nacional. As letras de Homem-Espuma, em alguns momentos funcionam como "manual de auto-ajuda". A imagem etérea do personagem-título ilustra a fragilidade da vida humana; há uma busca pela felicidade, "pelo caminho do bem e talvez até puxando para um lado religioso". Homem-Espuma foi produzido por Daniel Ganjaman (Instituto) e Lúcio Maia (o guitarrista da Nação Zumbi), cuja habilidade em processar efeitos ao vivo acabou influenciando na interpretação. Mais profundo do que Nadadenovo em vários aspectos, o álbum traduz plenamente o amadurecimento do grupo, que não foi nada repentino, como andaram dizendo. "No primeiro, estávamos em busca por uma identidade. Este é como se estivéssemos relatando a nossa vivência do que foi essa busca." Mombojó e Bonsucesso Samba Club. Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, 3871-7700. Dom., 3 horas da madrugada. R$ 5 a R$ 15

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