Beto Figueiroa / Trago Boa Notícia
Beto Figueiroa / Trago Boa Notícia

Modelos sustentáveis e saídas para os dilemas da internet são discutidos no Recife

Dias de debate no Porto Musical, Recife, faz interessantes diagnósticos da nova era

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

15 de fevereiro de 2015 | 07h00

RECIFE - A cena era mais de show do que de palestra. O rapper Emicida e seu irmão e empresário, Evandro Fióti, tomavam o palco para falar de conquistas que o tempo tem comprovado históricas desde 2008. A música vivia indecisões ainda maiores, com um mercado de discos em queda e uma pulverização digital ainda sem perspectivas de ganho financeiro.

Quando perceberam que havia saída se trabalhassem duro, vendendo uma mixtape por R$ 2 enquanto faziam freestyle no metrô, entenderam que o negócio estava em suas mãos, do início ao fim. Estavam criando um novo modelo, por mais que desconhecessem termos como “economia criativa”. No último final de semana, Emicida e Fióti davam seu testemunho no encontro Porto Musical, no Recife. “O mercado não entende como o rap funciona. Por isso, fomos vender nossos próprios shows”, disse Fióti.

Os rumos de uma música que começa a parecer menos desnorteada depois da revolução digital ganhou bons debates. Luciane Gorgulho, chefe do departamento de economia da cultura do BNDES, financiadora do evento, surpreendeu ao informar que os músicos só não recebem mais dinheiro por falta de levantamentos que permitam entender melhor o setor. Apesar de em 2014 a área musical ter recebido R$ 34 milhões, esta cifra corresponde a apenas 3% do montante que a instituição tem para gastar com música. “Há uma carência de estudos de mercado e uma informalidade muito grande.”

A pesquisadora Karina Poli falou sobre seus esforços em mapear o perfil dos profissionais de música. Ela precisa de 2,5 mil questionários preenchidos para poder atingir níveis quantitativos seguros. Quer depois enviar as informações para o Ministério da Cultura e brigar por uma política específica para os músicos. O questionário fica neste link.

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Está todo mundo tateando na penumbra, não mais na escuridão. E a música indomável da era da internet, tão administrável quanto as nuvens, começa a se acomodar em modelos criativos de negócio. As perguntas persistem: qual o novo conceito de sucesso? Como monetizar a produção musical? Quem é e o que pensa o profissional da música no Brasil. Mas algumas respostas, 15 anos depois de a web começar a assombrar as leis do mercado artístico, parecem um pouco mais palpáveis.

Essas foram sensações percebidas durante a sétima edição do Porto Musical, realizado entre 4 e 7 de fevereiro no Recife, um encontro entre artistas, jornalistas, produtores, empresários e outros profissionais da área musical do País e do exterior, considerado um dos mais consolidados do ramo. A reportagem acompanhou as principais mesas.

Uma conferência de nome instigante atraiu um dos melhores públicos ao Teatro Apolo, no Recife Antigo – “Música de Guerrilha: Como o artista sobrevive nas trincheiras das novas mídias”. E foi mesmo uma bela discussão liderada pelo jornalista Alexandre Matias e travada entre o músico e publicitário Gustavo Bittencourt, o jornalista Bruno Cosentino e o designer gráfico Raul Luna.

A apropriação da linguagem da publicidade pela música, um fenômeno relativamente novo, foi o tema levantado por Bittencourt. A era das estratégias e do marketing, décadas depois de terem sido demonizadas e enterradas como práticas das gravadoras, parece ter retornado, desta vez, pelas mãos dos próprios artistas. “As linguagens publicitárias nunca estiveram tão próximas da música de internet”, disse Bittencourt. Peças de marketing, como a da banda Arcade Fire fazendo parceria com o Google para lançar clipes alternativos, são claras mudanças de comportamento que, às vezes, podem passar dos limites. Quando a estratégica fica mais forte do que o conteúdo artístico, o ruído aparece e o fã sente. 

“A banda Foo Fighters encampou essas estratégias sem pudor. Eles vêm criando mecanismos de marketing contemporâneo.” O grupo de Dave Grohl viajou por várias cidades dos EUA antes de entrar em estúdio, criando uma canção para cada localidade e um documentário. “Isso é estratégia de publicidade, um recurso. Mas as ações de marketing acabaram sendo mais interessantes do que o disco”, avaliou. Outro caso na mesma linha foi o do grupo OK Go, especializado em vídeos superproduzidos para a web. “É banda de menos e campanha de mais.” O publicitário lembrou que o Brasil tem ainda 100 milhões de pessoas para entrar na internet nos próximos anos. Ele reconhece que as bandas precisam ser “mais publicitárias”, mas devem centrar suas estratégias na qualidade artística, não nas ferramentas. “Somos todos crianças brincando com o brinquedo novo”, resumiu.

A anarquia e o excesso de informação não parecem assustar o designer de capas e criador de linguagem visual Raul Luna. Curiosa foi sua reflexão sobre os possíveis danos artísticos provocados pela ausência de isolamento das novas gerações. “Não temos mais o isolamento criativo, e uma geração de compositores poderá não ser produzida por causa da impossibilidade deste isolamento. Ficar ligado o tempo todo é ficar com a cabeça sempre cheia, e isso incomoda.” 

Em outras palavras, o ato de fazer música mudou. Se antes Caetano e Gil pegavam seus instrumentos e se trancavam em estúdios ou casas de campo para criar canções, os artistas da era moderna podem até fazer o mesmo, mas jamais estarão desconectados de seus smartphones. Sua fala, no entanto, terminou sem saudosismo. “Não temos certeza de nada. E, ainda assim, acho esta uma época boa de se viver. Estamos escrevendo uma história, podemos criar os novos padrões. A bola está com a gente”.

Outra mudança de comportamento geracional está na atitude do músico diante da própria obra. Depois de compor uma canção, que será sempre considerada por seu criador como a grande obra de arte dos últimos tempos (o que é bom), o músico pode ouvi-la 100 vezes para admirá-la enquanto espera o telefone tocar ou guardar o ego no case e ir à luta. Quem se profissionaliza, criando os próprios setores e fechando uma cadeia de produção e distribuição criativa, tem garantido saídas. O problema é que elas ainda são de caráter individual. Ainda não há sinal na internet de um modelo de negócio independente coletivo e rentável ao mesmo tempo. Mas, é como disse Luna: a bola está com essa geração. Quem chegar na frente fará história.

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DO ENCONTRO PORTO MUSICAL

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