Crhis Pizzello/AP
Crhis Pizzello/AP

Moby, retorno aos bons tempos

Sucesso deste fim de ano, novo disco do cantor, ‘Innocents’, tem convidados ilustres e parece reconectá-lo à sua fase áurea

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

31 de dezembro de 2013 | 08h29

Um dos discos de maior sucesso deste fim de ano é Innocents, o novo álbum de Moby. Com convidados como Wayne Coyne, dos Flaming Lips, do lendário Mark Lannegan e do folk singer Damien Jurado, o trabalho parece reconectar Moby com seus anos áureos - ele chegou a vender 20 milhões de discos e foi atração principal de festivais como o Glastonbury, na primeira metade dos anos 2000.

O produtor foi Mark Stent, que trabalhou com U2, Madonna, Muse, Björk. "Cineastas, músicos, muitos artistas tentam justificar um resultado artístico por meio de um relato de sofrimento. Muitos falam de como se agrediram no processo de fazer um artefato artístico, de como todo mundo envolvido gritava com todo mundo. Eu tenho orgulho de dizer que esse disco foi feito em completa harmonia com todos os envolvidos", disse Moby, falando por telefone ao Estado, na semana passada.

Há uma música sua fazendo um grande sucesso aqui na trilha sonora de uma novela, Perfect Life, que é o tema de uma garota autista, Linda. Você sabia disso?

Sim, sabia. Conversei recentemente com alguns amigos que vivem no Brasil e eles me contaram sobre esse surpreendente, e quase acidental, sucesso. É tema de um caso de amor autista, o que me pareceu perfeito.

É um personagem autista. Você acha apropriado com a música?

Sim. É engraçado, porque isso me lembra que eu trabalho com uma instituição em Nova York, o Institute for Music and Neurological Function. Você viu o filme Tempo de Despertar, com Robert De Niro? Pois bem, o filme é baseado no médico neurologista Oliver Sacks, que é como se dá a origem do instituto. E eles têm vários terapeutas musicais com trabalhos diretamente relacionados em como a música afeta o cérebro. E tem vários resultados muito interessantes em pacientes autistas. Por isso, fez sentido para mim, que minha música tenha ido parar como tema desse love affair no Brasil.

Ouvindo seu disco e vendo sua atuação como DJ, percebo algo curioso. Vi na internet você tocando em Las Vegas outro dia, e você era um homem festa, milhares de pessoas à sua frente em êxtase. Por outro lado, em disco, você é muito introspectivo. Parece um paradoxo o jeito como se manifestam esses dois lados de sua personalidade.

Estranho seria se não fosse desse jeito. Em uma conversa com amigos outro dia, a gente falava sobre como certos cineastas, músicos, escritores, artistas são conhecidos apenas por uma coisa. Veja uma banda como o Metallica. Adoro o Metallica. Eles são conhecidos por uma única faceta, a de heavy metal hard rock band. O bom a respeito disso é que a plateia sempre sabe o que esperar do Metallica. Mas o problema para eles é que se quiserem fazer uma outra coisa não poderão, porque sua audiência não vai deixar. Na minha vida, meu background é muito estranho, porque eu comecei tocando música clássica, depois, quando estava na high school, toquei em punk rock bands; então toquei como um DJ de hip-hop, jazz. E nos meus próprios discos tenho sido um estranho paradoxo, o que tem confundido muita gente. Mas também me libera para criar aquilo que eu quero experimentar. Teria sido pior se eu tivesse escolhido fazer apenas um gênero. Veja o Daft Punk, por exemplo. O Daft Punk toca dance music. Quando compram um disco do Daft Punk, sabem o que esperar, e essa é uma das razões pelas quais têm grande sucesso comercial. Eu conheço os caras do Daft Punk, eles podem fazer um monte de outras coisas. Sem querer ser muito filosófico, mas o ser humano é complicado, é cheio de paradoxos. Tenho amigos que, quando acordam de manhã, são pessoas totalmente diferentes das que são quando vão ao bar, saem para dançar, quando jogam vôlei, quando fazem sexo. Ou quando tomam o café da manhã. Alguns artistas, quando se definem em um único caminho, às vezes o fazem por conveniência, mas isso pode ser criativamente limitante.

Você fala como uma pessoa pode ser diferente em um único dia. Há diferentes substâncias hoje em dia, drogas, álcool, que potencializam essas diferenças de comportamento. Eu soube que você teve sérios problemas com álcool, é verdade?

Sim, é verdade. Meu problema com o álcool é que o álcool é bom demais. Gosto muito. Durante a maior parte da minha vida eu bebi muito, 10 a 15 drinques por noite. Quando eu era adolescente, eu bebia assim e no dia seguinte continuava bem. Quando eu tinha 30 anos, continuava bebendo sem problemas. Mas levava 24 horas, às vezes 36 horas para voltar a ficar bem. Chegou a um ponto que eu tive de buscar ajuda para parar, porque já não conseguia parar sozinho.

No ano 2000, eu o vi tocando na Inglaterra pela primeira vez e tive a impressão de que havia uma forte conexão com a experiência de ouvir The Great Gig in the Sky, do Pink Floyd. Você era influenciado por eles?

Fui influenciado por tanto tipo de música. Minha mãe foi a maior responsável por meu gosto, porque ela possuía uma coleção fantástica de discos. Ela ouvia Gershwin, John Coltrane, Crosby, Stills, Nash & Young, Pink Floyd. Fui apresentado ao Pink Floyd nos anos 1970, porque minha mãe era uma grande fã. Eu gosto especialmente da fase com o Syd Barrett. E mesmo após, com o David Gilmour, continuou fantástico. A forma de montar concertos de grande extravagância também causou grande impacto em mim.

Innocents é um disco que já faz sucesso massivo atualmente. Desde Play, você não fazia tanto sucesso. A indústria do disco quase desapareceu, e você vende muito de novo. Isso surpreendeu você?

Eu cresci tocando em bandas punk, e nunca esperava ter nenhum sucesso como músico. Não tinha pretensão de vender mais de 10 discos. Eu esperava passar minha vida inteira trabalhando como professor de filosofia em uma escola de comunidade, e fazendo música nas horas vagas para quem quisesse ouvir. Então, quando eu me tornei hábil para fazer discos e turnês, aquilo foi um espanto e um maravilhamento para mim mesmo, como é até hoje. Quando eu toquei com uma banda punk no colégio, teve um momento em que vendemos 100 fitas, e nós passamos a nos sentir como os maiores rock stars do planeta. Cada aspecto da minha vida como músico tem sido uma surpresa. Quando é legal é que quando eu faço um disco, ainda hoje, nunca penso em vendas, porque tenho consciência que, em 2013, ninguém mais vende discos a não ser a Beyoncé. Eu adoro fazer discos e colocar música em cena e ver as pessoas reagirem a essa música. Mas penso menos em vender discos do que em fazer música que eu amo de verdade.

Você foi a um abrigo de animais em Los Angeles dias atrás e fez um vídeo com os animais que estavam à espera de adoção ali, Almost Home. Quando faz essas coisas, quer mostrar que um artista tem responsabilidade social?

Eu fui criado em um ambiente de ativismo político, de esquerda. Meus pais eram politicamente muito ativos, culturalmente inquietos. Fui criado com essa ideia de que nós temos de tentar tornar o mundo um lugar melhor. Uma das minhas tarefas foi tentar decifrar o que isso significava. Que esforço eu poderia fazer para tornar este mundo melhor? Acho que, tanto quanto eu me lembro, tenho tentado. Mas uma das coisas que me deixam meio embaraçado é que pensem que quero usar isso como elemento de autopromoção. Uma das coisas que me deixam mais aliviado é quando isso é de fato muito mais honesto, sincero. Há muita gente fazendo de tudo para chamar a atenção, há um narcisismo desesperado na sociedade atual, com estímulo do mundo da mídia. Amo conversar com as pessoas, me comunicar, fazer música. Mas não gosto da ideia de tentar convencer as pessoas a prestar atenção em mim, por outro lado. Mas gosto quando consigo atrair a atenção para uma boa causa.

Mais conteúdo sobre:
Moby

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.