Leo Aversa/Divulgação
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Moacyr Luz lança disco 'Natureza e Fé', marcado por novas parcerias

Martinho da Vila, Fagner, Zélia Duncan, Jorge Aragão e Teresa Cristina são apenas alguns dos parceiros do sambista no novo álbum

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

14 Julho 2018 | 06h00

RIO — O samba de Moacyr Luz não tem fim. “Não tem pegada pra pegar na rádio”, é de se balançar devagarinho e de deixar “o corpo ao sabor do vaivém do amor”. Como canta em Natureza e Fé, CD marcado por novas parceiras e muitas participações, o compositor carioca gosta do samba “descompromissado e raro”, “desses de roçar no prato”, “fácil de cantar”, e também do “samba em vão”, “derradeira resignação”. Aos 60 anos feitos em abril, ele ressalva: não só de samba vive sua produção musical.

“Fiz 60 e pensei: não quero mais rótulo. Sou compositor, quero ser gravado pelo Fundo de Quintal, Martinho da Vila, mas também pela Maria Bethânia, Nana Caymmi. É um direito que quero ter na vida. Ficou um disco leve, sem estar totalmente vinculado à formação de samba”, conta Moa, que apresenta 12 faixas inéditas, criadas com Martinho, Fagner, Zélia Duncan, Jorge Aragão, Teresa Cristina, Hamilton de Holanda, Fred Camacho, Wilson das Neves, Mestre Trambique, Pretinho da Serrinha e Serjão, e arranjadas com a presença de piano, contrabaixo acústico e bateria, para além das percussões e cordas de costume e sem surdo nem tamborim.

Algumas vozes do CD vêm com ele há mais tempo, como a de Teresa, com quem Moa convive profissionalmente há 20 anos e já compôs dois sambas-enredo para a escola de samba Renascer de Jacarepaguá (assinados também por Claudio Russo). É dos dois Natureza e Fé, letra de Moa que exalta Xangô, o orixá de Teresa. 

Ainda sem letra, Chapéu Panamá, feita postumamente com Mestre Trambique (1945-2016) e Wilson das Neves (1936-2017), foi entregue ao compositor pelo filho de Trambique, o também percussionista Alison, e virou homenagem aos dois músicos, com quem ele dividira muitas horas de samba no passado. Moa é conhecido pelas belas melodias, mais do que pelos versos. Mas não foi assim neste 14.º CD. “Fiz a maioria das letras. Como Aldir Blanc é meu parceiro principal (a dupla, que era vizinha de prédio, tem cerca de 100 músicas gravadas), eu era absolutamente melodista, porque não ia mexer numa letra dele. Também é assim com Hermínio Bello de Carvalho, com Paulo Cesar Pinheiro”, conta. “Mas meu envolvimento com samba me mostrou que a gente tem que dividir as coisas.”

Teresa acredita que Natureza e Fé seja a “elevação da parceria” entre os dois. “A gente sempre trabalhou ele fazendo música e eu a letra. Desta vez, eu tinha acabado de voltar do réveillon em Salvador querendo fazer uma música para Xangô, porque sou filha dele. Moa é filho de Ogum. Cantarolei para ele e poucos dias depois ele tinha transformado aquela ideia em canção. Fiquei muito emocionada”, lembra a cantora. 

“Antes dos sambas-enredo, a gente queria compor juntos havia muito tempo. Mas a parceria tem que acontecer no tempo dela, e foi muito bom ter esperado. Moa é querido por todo mundo do samba e da MPB, funciona na base do afeto. Tem muito amor pela música, por estar rodeado de amigos, com comida, bebida, conversa.” Outra parceira dos dois, Iabá, sairá no próximo CD de Teresa, pensado para o ano que vem.

Com Martinho, ele dividiu Na Ginga do Amor, ode a sambistas do início do século passado. “Para mim, Martinho é o maior de todos. Quando entra cantando, é o Brasil.” Já Gosto ele fez com Zélia Duncan, parceira nova. Conto de Fadas, com Luiz Carlos da Vila (1949-2008), foi tirada do fundo do baú – tem mais de 20 anos que foi composta. 

Fagner, outro parceria inaugural, “uma surpresa maravilhosa”, coassina duas, Periga e Samba em Vão. “Ele é fominha como eu, já fizemos umas dez músicas. Fiquei orgulhoso de ele ter se aproximado do meu andamento”, brinca Moa. Os dois começaram a criar por mensagens de WhatsApp e finalizaram em encontros para definir determinados caminhos melódicos e trechos de letra. 

De Pretinho da Serrinha e Fred Camacho entraram também duas, Atravessado e Gostei do Laiá-laiá. Ambas feitas numa levada só, no apartamento de Moa, no Flamengo. “Fizemos uma e ele começou outra. Falei: ‘Não saio daqui antes de terminar essa também’. Saiu Atravessado, uma das melhores músicas que já fiz. Moa é muito generoso. Poderia ter mostrado melodias para o Aldir, mas abriu a casa para nós dois”, agradece Pretinho, cuíca da faixa citada, que abre o CD.

A relação do autor de Saudades da Guanabara com sua cidade segue atravessando sua produção. Está presente no CD em músicas como No Baile do Almeidinha, com Hamilton de Holanda, que fala do já consagrado show que o bandolinista comanda na Lapa, com convidados sempre diferentes. “Agora estou quieto, mas pegava ônibus e ia para Madureira conhecer um botequim novo, me meti com samba-enredo e vou às escolas. E sou Flamengo, para melhorar; mais popular, impossível. Tem ainda o Samba do Trabalhador (roda de samba às segundas que já tem 13 anos), que é o próprio Rio. É a única cidade em que se faz um samba às segundas à tarde.” 

O desalento sentido no Rio, com as crises política, econômica e de segurança, passa ao largo do CD, mas não das reflexões do compositor. “Lamento profundamente termos um prefeito tão em desarmonia com o Rio, mas a cidade continua linda. Ele passa, a cidade continua. A gente tem que resolver coisas emergenciais de violência, porque não merecemos. Não adianta ter a vista se você não pode olhar.” 

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