Mito se dedica a polir velhas joias

'Senti que que estavam (as canções do disco) entre minha melhores composições'

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2014 | 02h10

Bruce Springsteen vive de reavivar nossas esperanças em um rock orgânico, suado, operário. Em seu 18.º disco de estúdio, High Hopes, ele leva esse esforço ao paroxismo, cuidando ainda de polir velhas joias. "Senti que elas (as canções do disco) estavam entre minhas melhores composições e mereciam uma gravação de estúdio apropriada", disse The Boss.

São músicas cronísticas, histórias curtas sobre personagens arredios e imagens místicas. Das 12 canções do disco, quatro já tinham sido lançadas anteriormente, outras duas eram tocadas mas não foram gravadas e outras seis são novíssimas.

A canção-título, High Hopes, é de 1995 e foi composta por Tim Scott McConnell em 1987. Springsteen a revestiu de uma roupagem funky, cheia de batuque e suingue. Harry's Place (uma das duas canções que não entraram no disco The Rising, de 2002; a outra é Down in the Hole) lembra experiências davidbowianas (com vocais distorcidos ao fundo) e mostra o apreço de Springsteen pelos outsiders de toda espécie. "Downtown hipsters drinking up the drug line", dizem os versos iniciais, que lembram O Uivo, de Ginsberg.

American Skin (41 Shots) é uma canção que Springsteen fez nos anos 1990 a partir de uma brutal tragédia: em 1999, a polícia de Nova York executou um rapaz do Bronx de 22 anos, desarmado, com 41 tiros (19 no alvo). Just Like Fire Would é uma balada ao estilo épico clássico de Springsteen, com um passeio pelo dark side do universo rocker. "Fumei meu último maço de cigarros estrangeiros/Fiquei só para sobreviver/A noite era fria e a terra gelada."

Down in the Hole é uma das músicas que trazem de volta dois velhos parceiros de Springsteen: Clarence Clemons e Danny Federici, mortos recentemente. Heaven's Wall é cheia de evocações bíblicas (Jonas e a Baleia, Saul, Abraão, Gideão e Canaã), gravada entre 2002 e 2008, e também traz Clarence Clemons e Danny Federici, além da guitarra de Tom Morello (do Rage Against the Machine, cujo virtuosismo e toque revolucionário permeia quase todo o álbum).

Frankie Fell in Love é uma bela rendição de amor de Springsteen. "Descendo as escadas, Frankie, minha única/Retoca sua maquiagem no espelho/C'mon babe, vamos nessa/Dançar por aí nessa cidade suja até que a noite se acabe."

Em seguida, escudos, espadas, batalhas e gaitas de fole em This Is Your Sword. Depois do folk gospel Hunter of Invisible Game, um dos maiores clássicos de Springsteen, música-título do disco de 1995: The Ghost of Tom Joad, que ressurge revestida de guitarras fabulosas nessa novíssima versão. O resultado lembra o toque de David Gilmour (o personagem Tom Joad ingressou na cultura americana em 1939 no romance de John Steinbeck, As Vinhas da Ira).

The Wall é uma balada dylanesca, certeira. "Lembro de você em seu uniforme de marinheiro rindo/Satisfeito que talvez estivesse embarcando/Li que Robert McNamara disse que sente muito." Foi composta após uma visita do cantor ao memorial de veteranos do Vietnã, em dezembro de 1997, em homenagem a Walter Cichon, morto naquele conflito. Cichon era o cantor da banda The Motifs, um grupo de meados dos anos 1960 de New Jersey. E aí vem Dream Baby Dream, de 1979, outra cover, dessa vez do Suicide, um duo de música eletrônica americano pouco conhecido. Contam que o Suicide foi o primeiro grupo a usar, num flyer, a expressão "punk music" num convite para um show. É um mantra de Springsteen, embalado por acordeão e minimalismo. Linda.

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