Henry Nicholls/ Reuters
Henry Nicholls/ Reuters

Mistério do Stradivarius: explicações para a qualidade do famoso violino

Cientistas têm recorrido a diferentes teorias para justificar a qualidade do som dos instrumentos criados pelo artesão italiano

João Luiz Sampaio, Especial para o Estadão 

08 de junho de 2022 | 15h56

A casa de leilões Christie’s anunciou que vai leiloar um violino no dia 7 de julho, esperando atingir um valor de até US$ 11 milhões. Parece alto, e é. Isso acontece porque o instrumento tem nome e data de nascimento. Chama-se Hellier, veio ao mundo em 1679 - com sobrenome ilustre: nasceu das mãos do italiano Antonio Stradivari.

Os instrumentos criados pelo artesão, que viveu de 1644 a 1737, em Cremona na Itália, são tidos como os melhores já feitos. De suas 1.116 criações, imagina-se que tenham chegado a nosso tempo cerca de 650, a maior parte violinos. Como Hellier, todos têm não apenas nome, mas também registro de por quais mãos passaram ao longo dos séculos. E custam fortunas. O Messias, de 1716, tem valor estimado de US$ 20 milhões; o Lady Blunt, US$ 15 milhões. Por menos de US$ 4 milhões, você não encontra.

Músicos do quilate do violoncelista Yo-Yo Ma (que aliás deixou uma vez o instrumento em um táxi, levando a uma caçada policial para recuperá-lo) ou do violinista Itzhak Perlman possuem seus próprios Stradivari. Mas boa parte dos violinos, violas e violoncelos pertencem a fundações, bancos ou instituições que, eventualmente, os emprestam a alguns artistas. Não poderia haver honra maior. 

Mas tão famosa quanto a história dos Stradivari é a busca pela compreensão daquilo que fazem deles instrumentos tão perfeitos e especiais. “Forma, beleza, história, valor, devoção: o coquetel que explica o respeito com relação ao Stradivari é vertiginoso”, escreve Tony Faber no livro Stradivarius (publicado no Brasil pela Record). E, entre as explicações para a fama dos instrumentos, não costuma haver unanimidades. As teorias, por sinal, são das mais diversas - de questões técnicas a metafísicas.

Madeira, verniz, forma, personalidade

A violinista holandesa Janine Jansen realizou um raro projeto ao longo da pandemia: tocou doze violinos criados por Stradivari. Seu relato, publicado em uma revista inglesa, é curioso. “O Shumsky revelou-se um amigo antigo desde o primeiro toque. Captain Savile é mais tímido, não se mostra de cara no primeiro contato. Com o Persoit, acontece o contrário, você o conhece e ele reage de maneira expansiva.” 

Quase parece que ela está se referindo a pessoas - e isso não é raro na relação entre intérpretes e esses instrumentos. É como se, mesmo criados pelo mesmo artesão, cada um deles carregasse uma personalidade própria, imediatamente reconhecível. Não há explicação lógica para isso - e, nesses casos, a sensação do músico talvez fale mais alto do que necessariamente qualquer argumento técnico. 

Mas isso é parte da mística em torno dos Stradivari. Um outro exemplo: o violoncelista britânico Steven Isserlis possui hoje o instrumento que pertenceu a Emanuel Feuermann, um dos maiores músicos do século 20, conhecido por interpretações do grande repertório - e, em especial, de Schlomo, de Ernest Bloch. Pois quando foi tocar a peça, Isserlis levou um susto. “Era como se o violoncelo já conhecesse aquela música.”

Cientistas têm buscado explicações um pouco mais objetivas. Por que ele tem um som tão característico? Por que é maleável a ponto de intérpretes dizerem que não há nada que não possam fazer? Qual o segredo da emissão, com a qual e possível atingir os lugares mais distantes de uma sala de concertos sem precisar forçar o instrumento?

Em 2018, pesquisadores chineses chegaram à conclusão de que a resposta estava na voz humana. Utilizando um software criado para o projeto, eles compararam o som de dezesseis instrumentos do acervo do Museu Chimei com a voz de dezesseis cantores e cantoras. E concluíram que os violinos produziam uma frequência específica de vibração correspondente à ressonância das cordas vocais. 

Segundo eles, o violino na passagem do século 17 para o 18 não era um instrumento usado para solos, mas, sim, para acompanhamento: o objetivo de Stradivari e seus contemporâneos seria criar sons que emulassem a voz humana e se mesclassem a demais instrumentos. 

Curador do Ashmolean Museum de Oxford, John Whiteley defende em vários artigos que a questão, na verdade, está na forma do instrumento. Stradivari viveu em um momento no qual performances públicas, em teatros maiores, começavam a ganhar cada vez mais espaço. E uma de suas preocupações era criar violinos que soassem melhor. 

O resultado teria sido um tipo de instrumento não muito mais longo, mas maior; mais achatado, mas não a ponto de diminuir a ressonância que garante a boa emissão do som. Em outras palavras, o segredo estaria nas duas peças de madeira (a de cima e a de baixo) que juntas formam a caixa do violino e na distância dentre elas.

Outros estudos apontam para a madeira utilizada. Alguns deles referem-se a um período de temperaturas particularmente frias na Europa, entre 1645 e 1715. A consequência teria sido fazer com que a madeira das árvores se desenvolvesse de maneira mais lenta, o que daria ao material um caráter particular - e impossível de replicar. Tal caráter teria relação com uma densidade maior da madeira, levando a melhores propriedades acústicas.

Especialistas americanos acrescentam a essa teoria a presença de uma menor incidência de raios solares no período. Mas, se isso é verdade, uma questão se coloca: outros artesãos da época teriam usado o mesmo tipo de madeira, então por que seus instrumentos não teriam a mesma qualidade? 

Para alguns pesquisadores, a resposta está no verniz utilizado por Stradivari. Mas um grupo da Universidade de Taiwan ofereceu uma outra resposta. Eles utilizaram a técnica chamada Espectometria de emissão atômica por plasma acoplado indutivamente para analisar a composição da madeira de instrumentos criador por Stradivari e por outros luthiers de sua época. A resposta foi reveladora: havia diferença significativa e indícios de que os stradivarius recebiam tratamento com uma série de substâncias minerais. 

E qual o motivo de utilizar tal tratamento químico? Uma teoria é a de que boa parte da madeira utilizada em instrumentos era extraída de construções, em especial igrejas, abandonadas, e precisava ser tratada para evitar a proliferação de fungos.

Estaria aí não só a explicação para a sonoridade do instrumento, mas também sua capacidade de se manter quase intactas ao longo do tempo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.