Arícia Martins/AE
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Miss Biá, 71 anos com corpinho de 50

Festa glamourosa celebra o cinquentenário da drag queen que é considerada uma das pioneiras

Arícia Martins, estadão.com.br

28 de outubro de 2010 | 19h10

Para comemorar meio século de perucas, salto alto e muito talento da transformista mais antiga ainda nos palcos, a casa noturna foi especialmente decorada, ficando totalmente irreconhecível. Na entrada, um tapete vermelho anunciava que a noite era de gala. A homenageada na Danger Dance Club na madrugada de quinta-feira, 28, era miss Biá, transformista há exatos cinquenta anos, quando se tornou uma das pioneiras do gênero na cena paulistana. Miss Biá é, na verdade, o costureiro e maquiador Eduardo Albarella, de 71 anos. Ele conta que uma de suas suas grandes obras foi uma peça produzida para a apresentadora Hebe Camargo, que curiosamente gravava seu primeiro DVD na mesma noite, em outro palco da cidade.

 

No palco da Danger, uma cortina vermelha e um enorme lustre de cristal davam um toque de glamour. Na plateia, mais do que as habituais perucas de drags, que batem cartão na casa, o que chamava a atenção eram cabeças grisalhas de colegas de miss Biá que já não se montam mais, mas vieram prestigiar a colega. "Todas elas pararam há muito tempo, há vinte, trinta anos. Só eu fui atrevida e continuei!", contou Biá.

 

E para muitas drags de sucesso hoje, foi justamente o atrevimento da veterana que abriu portas para elas. "Ela abriu espaço para todas nós. É por causa dela que hoje saímos montadas sem nenhuma repressão", disse Sissi Girl, uma das convidadas. Silvetty Montilla, diva da noite paulistana que apresentou o show junto à colega Greta Star, se sentiu honrada pelo convite: "nós temos que abaixar a cabeça e pedir 'a bença', porque Biá é uma referência".

 

Márcia Pantera, drag que ficou famosa nos anos 90 e é a atual estrela do mês da Danger, contou, enquanto procurava seu par de botas no camarim lotado de perucas e figurinos, que foi Biá quem a descobriu, há 20 anos.

 

A dona da festa conseguia passar desapercebida em um canto do sofá no meio do tititi, mesmo com o vestido longo com cauda de sereia cravejado de lantejoulas prata, a peruca no estilo Marilyn Monroe e a maquiagem colorida. "To ficando nervosa", disse Bia. Toda a apreensão se dissipou quando uma voz masculina anunciou: "Gente, é só mais essa música e depois vocês entram. Arrasa!".

 

 Em uma entrada triunfal, miss Biá surgiu no palco após um corpo de balé masculino usando fraque para combinar com seu vestido de festa, cantando "Emoções", de Roberto Carlos. Teve até fogos.

 

 

Depois, quem entrou em cena foi Léo Áquilla, ícone da nova linha. Lisa Bombom, também da nova geração, protagonizou uma chuva de pétalas de rosa, que recaíram sobre a plateia. Márcia Pantera, para relembrar seus velhos tempos de drag acrobata, passou do palco direto para o mezanino durante seu número, e de lá, desceu sem escala para a plateia. Escadas pra quê?

 

Também se apresentaram Dany Colt, Laila Ken e a caricata Stephanie di Bourbon. Cada uma, com seu estilo, homenageou a precursora, apresentando o que sabia fazer de melhor.

 

Para encerrar, Biá saiu da linha clássica de Shirley Bassey e Janet Blaker e levou o público à loucura dublando "I'm Coming Up", da roqueira Pink, em uma versão mais caliente da colombiana Shakira, dançando com os bailarinos. "I'm coming up, so you better get this party started", diz a letra da música, que casa totalmente com a alegria de viver da artista que transforma qualquer lugar onde chega em festa.

 

Quem é e como surgiu Miss Biá

 

Eduardo Albarella, hoje com 71 anos, nasceu em São Paulo e começou a dar vida a Miss Biá no auge do teatro de revista, por volta de 1958. O nome de guerra surgiu de uma música de Carmen Miranda. "Ela cantava assim - 'Biá tatá, Biá tatá...". Naquele tempo, ainda não existiam os figurinos espalhafatosos das drag queens. O termo nem era usado na época em que se apresentava para caracterizar homens que se vestem de mulheres de forma exagerada, como são as drags de hoje.

 

Foi em casas noturnas de história, como a Corintho e a Mediveval, que se consagrou como um dos maiores nomes da noite gay paulistana, já tendo inclusive se apresentado no exterior, em países como Estados Unidos, Argentina e Uruguai. Atualmente, ela faz shows todos os sábados na boate gay Danger Dance Club, onde comemorou seu meio século de carreira.

 

 

Como você começou a carreira de transformista?

Comecei em uma casa noturna, por volta de 1958. Na época, nem existia boate gay, nada disso. Era mais mesmo um cabaré, chamado La Bien Rose. Fui chamado para participar do primeiro show de transformistas com uma turma grande. Cantávamos músicas compostas para nós mesmas, e éramos acompanhadas por uma banda.

 

O que é ser drag queen para você?

Drag queen é um tipo de trabalho que não deixa de ser um ator transformista. Não me considero a primeira drag, porque antes de mim já tinham transformistas que faziam a linha do exagero. Mas modéstia a parte,eu faço qualquer coisa, porque quem tem talento faz qualquer coisa!

 

Como você vê a profissão de drag queen hoje?

É uma coisa feita assim: "ai, quero me vestir de drag", aí vai lá, se veste e pronto. Antes era a Madonna, agora é Beyoncé, depois Lady Gaga. Na minha época, não era assim. Se a gente fosse fazer a Carmen Miranda, por exemplo, ou as grandes estrelas de Hollywood, pesquisávamos em cima da personagem, nos preparávamos para interpretá-las e fazermos algo marcante. Hoje, não é mais algo marcante.

 

Qual o seu segredo para ser a transformista mais antiga ainda em cena?

Eu tenho um grande carisma... Acho que a vida tem uma determinação, talvez não seja nem da gente. Você nasce para algo sem saber o porquê. Eu nasci com essa missão de trazer informação e cultura em torno desse personagem .

 

Até quando acha que vai fazer esse trabalho?

Olha, eu falo pros meus amigos que eu ainda devo durar uns vinte anos, porque eu tenho muita alegria de viver! Imagina, eu com 91 anos arrasando no palco?

 

 

 

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