VALERIA GONCALVEZ|ESTADÃO
VALERIA GONCALVEZ|ESTADÃO

Miranda relembra a geração do rock brasileiro dos anos 1990

Produtor e jornalista, então repórter da revista 'Bizz', teve papel importante na história de bandas decisivas como Raimundos, Mundo Livre S/A, Little Quail e Graforréia Xilarmônica

Carlos Eduardo Miranda, Especial para o Estado

31 de março de 2016 | 04h00

“Fita demo era praticamente a minha vida. Foram elas que me trouxeram a SP. Eu vim para ver o show do Iggy Pop (em 1988), mas o que me fez ficar foi que todo mundo vinha falar comigo porque me conhecia das fitas. Meu papel foi ser uma ponte entre os artistas, jornalistas e mídia.

Lembro que chegou um momento, na revista Bizz, em que nos demos conta de que não tínhamos nenhuma novidade para dar na capa. A gente tinha avacalhado com todo mundo, chegou um ponto em que a gente estava dando Engenheiros do Hawaii na capa. Isso no começo dos 90. Na redação era eu tinha mais tempo, fuçava todas as demos, fui organizando. Tinha uma seção do que rolava, chamada Conexão Brasil, do que havia de novidade. O (André) Forastieri (editor da Bizz na época) então falou: ‘vamos fazer um levantado do Brasil, geral’. Peguei todas as fitas, os correspondentes da Bizz, e chegou um momento exótico, que eu não descobri nada de Brasília e de Recife. Ninguém sabia, ninguém me contava nada. Eu sugeri ir lá, e ele me disse: ‘não precisa ir, sabe o que tu faz? Bota que não tem nada, logo vai aparecer o que tem, alguém vai ligar’. Fiz, e não deu outra.

O José Telles me ligou de Recife, falando do Caranguejos com Cérebro, movimento Manguebeat, um tal de Chico Science, Mundo Livre. De que p... aquele cara estava falando? Pedi uma matéria e a fita, sem nem saber. O Carlos Marcelo, de Brasília, ligou no mesmo dia, falou um monte de nome de banda em inglês, e também uma que eu ‘ia adorar’, que tocava rock com forró, chamada Raimundos.

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Assim começou a se juntar essa geração. A gente começou a publicar tudo. Eu chegava nas redações e cantava as músicas, obrigava as pessoas a ouvir. Quando a Bizz resolveu ficar em paz com os Titãs, acompanhamos as gravações do Titanomaquia, com o Jack Endino. Comecei a pensar como quebrar o gelo, chegar com eles na boa, ficar no estúdio e mostrar o que estava acontecendo. Aí no estúdio, quem não estava gravando, ficava jogando Sonic. E eu era f..., jogava para c.... Vi os caras jogando mal e falei ‘galera, deixa eu mostrar umas coisas, umas passagens secretas’... ficou todo mundo ‘p...’. Foi o que nos aproximou. Aí meti Raimundos, Chico Science, Mundo Livre. Caiu a casa.

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Assim acabou surgindo o Banguela Records, selo que mobilizou mais a cena que já vinha bonita. O último lugar onde acumulei fitas foi na Trama, onde eu tinha montanhas de demos. Fiz uma parede de demos na ponta da minha mesa, para ninguém saber se eu estava ali ou não, e podia dormir. Me protegia com as fitinhas. Eu não vejo diferença de plataformas, e isso me levou a fazer a Trama Virtual. Era tudo ali, início, meio e fim. Um ensaio para o que as coisas se transformaram, já tinha streaming. É tudo a mesma coisa, não separo.” / Depoimento cedido a Guilherme Sobota

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