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'Minha função é forjar o real', diz o produtor Nicolas Jaar

O artista, que se apresenta neste fim de semana em SP, fala sobre beats, live sets e futebol

Roberto Nascimento - O Estado de S.Paulo,

24 de maio de 2013 | 18h51

O festival Sónar São Paulo aconteceria hoje e amanhã não fosse a falta de patrocínio que propiciou seu cancelamento. Sobrou um vácuo no calendário paulistano de música inteligente (ou "avançada", como a organização gosta de dizer) e ficamos sem Theo Parrish, The Roots, Matmos e sabe-se lá quem mais teria sido anunciado pelo festival. Ao menos tivemos Explosions in the Sky e Pet Shop Boys esta semana. E mais dois destaques do Sónar foram transferidos e tocam neste sábado, 25, na festa de 13 anos do clube D-Edge, que acontece no cine Grand Metrópole, no centro, com protegidos da Red Bull Music Academy.

Jamie Lidell mostra o funk oitentista de seu disco homônimo, de 2012, e Nicolas Jaar faz um de seus famosos live sets. É o melhor cenário para se assistir ao produtor americano, conhecido por finas batidas, situadas entre house, trip hop e ambient music (ouça o reverenciado disco Space Is Only Noise a faixa El Bandido, ou o projeto paralelo de dub funk Darkside). Jaar, que sente-se em casa ao improvisar ao vivo, falou ao Estado por e-mail sobre sua música.

Quando El Bandido virou um hit em 2009, sua identidade musical parecia pronta. Conte-me sobre a busca por esse som - os andamentos arrastados, os acordes menores, os sons cotidianos...

Nunca, propriamente, procurei uma sonoridade. Acho que apenas me deparei com algumas canções que definem parte da minha personalidade, mas não o quadro completo, como El Bandido. Até hoje, não sei o que estou fazendo. Às vezes faço hip-hop, às vezes ambient music experimental. Depende do que estou sentindo...

Você já comparou composição musical a um jogo de futebol. Já ouvi isso de outros produtores, como Actress.

Eu nunca sei o que vai acontecer até o momento que sento para produzir. É, sim, como o futebol: você sabe onde está o gol, conhece a sensação maravilhosa de marcar um gol, mas até chegar lá tem que lutar contra uma imensa defesa de coisas que o impedem (risos).

Suponho que seja um processo instantâneo, como um contra-ataque fulminante...

Faço música muito rapidamente. As faixas que me deixaram mais contente foram feitas em menos de uma hora. Tento produzir todo dia, mas 99% do que sai é horrível e nunca vê a luz do dia.

Você não é DJ no sentido clássico da palavra. Isto é porque você se sente limitado ao costurar faixas, em vez de recombiná-las ao vivo?

Eu nunca toco como DJ. Quando faço o live set, tento juntar um monte de partes e faixas que gosto de ouvir de madrugada. Mas eu sempre improviso e tento me sintonizar com a pista. É mais interessante deste jeito, para todos.

O projeto paralelo Darkside, que viria para o Sónar, é feito de músicos que tocam ao vivo. Você se sente limitado ao fazer música em um computador?

Sim. Há muito limites, mas eles proporcionam brechas para a criatividade. Música feita apenas no computador é entediante. Dá vontade de pegar um microfone, remicrofoná-lo, e passá-lo por um monte de efeitos que não parecem vir de um computador. De um jeito, minha função é forjar, digitalmente, o real.

O Daft Punk abordou isso em Random Access Memories. Você ouviu? Gostou?

Não ouvi anda. Eu os respeito muito, mas tenho que dizer que fazer eletrônico ao vivo não é novidade.

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