Wilton Junior / ESTADÃO
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Mimo Festival adia edições de São Paulo e Rio para 2019

A desistência de dois patrocinadores que alegaram crise para o não investimento fez a produção repensar o ano; em entrevista ao 'Estado', a produtora Lu Araújo lamenta a polarização que associa ao pessimismo dos empresários com relação ao setor: 'Antes éramos vistos como o lugar onde todos os povos se juntavam e se davam bem. É muito estranho o que estamos vivendo'

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

21 Outubro 2018 | 21h09

A produção do Mimo Festival decidiu adiar as edições que faria neste segundo semestre no Rio e em São Paulo. Sem o número de patrocinadores esperado, e com a negativa de várias outras empresas que alegam a crise para conter os investimentos, a Mimo fará, além da edição já realizada em Amarante, ao norte de Portugal, e em Paraty (RJ), a passagem anual por Olinda (PE), quando o festival é encerrado. Os shows serão de 23 a 25 de novembro.

Lu Araújo, idealizadora e produtora, diz que preferiu adiar as duas edições para 2019 à “esquartejar” sua programação, dividindo poucas atrações pelas cidades. “Nunca tomei tanto não na vida.” A Mimo é hoje um dos mais conceituados festivais de música do Brasil, oferecendo shows gratuitos em praças públicas e igrejas de cidades históricas com artistas de países do eixo clássico, como Estados Unidos, Inglaterra e França, mas também de regiões culturalmente menos expostas por aqui, como Mali, Senegal, Israel, Mauritânia e Cuba. Só em Olinda, o público chega a 95 mil pessoas por ano.

São Paulo seria sede pela primeira vez, e a Cinemateca estava sendo estudada como possível palco. Lu diz que a não realização das etapas é reflexo de uma retração social. “Um momento esquisito que estamos vivendo, de indecisões, de polarização e de retração. Os investidores esperam para ver o que vai acontecer. Eu perdi mais de 50% do orçamento que tinha.” As empresas que não renovaram seus apoios foram a Cielo, de máquinas de cartões, e o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A única parceria de hoje segue com o Bradesco. “Eles continuam de mãos dadas, mesmo sabendo das dificuldades”.

Lu compara a realidade no Brasil com o case que criou com seu festival em Amarante, uma cidade de 40 mil habitantes ao Norte de Portugal. Os portugueses entenderam logo no início, há três anos, que a Mimo levaria, além de Cultura, dividendos. Quatro grandes órgãos se uniram para trabalhar juntos: o Ministério de Turismo, o Ministério de Cultura, a Câmara de Amarante e uma Comissão Intermunicipal que representa outras cidades da região. A edição de 2017 deixou na cidade 1.5 milhão de euros. Os 40 mil habitantes locais se tornam 70 mil com a chegada dos turistas e a rede hoteleira bateu suas reservas em 100%. “Eles perceberam que esse festival seria um ativo para a cidade. Uma pena passarmos por essas dificuldades aqui. O Brasil é um país de onde brota cultura. Há poucos anos, éramos vistos como o lugar onde todos os povos se juntavam, se davam bem. É muito estranho o que estamos vivendo.” 

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